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Mauricio Stycer

"Vandalismo"? Termo usado em telejornais é criticado até por jornalistas

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

21/11/2020 12h33

A cobertura da morte de João Alberto Silveira Freitas, espancado com crueldade por dois seguranças de uma loja do Carrefour em Porto Alegre, é o assunto principal do telejornalismo brasileiro desde sexta-feira (20).

Como mostrei, os principais telejornais de quase todas as emissoras de TV aberta deram tratamento digno ao assunto no horário nobre de sexta. Foram além do mero registro da notícia e expressaram indignação com o caso, sublinhando a covardia dos seguranças e manifestando espanto com a fala do vice-presidente Hamilton Mourão, que disse não existir racismo no Brasil.

Um aspecto da cobertura dividiu o público, porém. A invasão e o quebra-quebra em algumas lojas do Carrefour foram classificados na Globo e na CNN Brasil como "vandalismo", ato de "vândalos". As palavras foram usadas por William Bonner no JN, Patricia Poeta no "É de Casa", Monalisa Perrone na CNN Brasil e pelo site do canal de noticias.

Em tese, restringindo-se ao que diz o dicionário Houassis, por exemplo, os termos se aplicam. Vandalismo é o "ato ou efeito de produzir estrago ou destruição de monumentos ou quaisquer bens públicos ou particulares; baderna com violência". Vândalo é "aquele que estraga ou destrói bens públicos, coisas belas, valiosas, históricas etc".

Os termos carregam, porém, um sentido pejorativo, associando o protesto e quem os praticou a algo negativo.

Diego Sarza, âncora da própria CNN Brasil, expressou sua posição no Twitter: "Vandalismo é ter medo de apanhar, de morrer por causa da cor da pele. Vandalismo é ter menos oportunidades e por aí vai... Minha solidariedade a todos os familiares do Beto e, por extensão, a todas as vítimas de racismo no Brasil. Vidraças voltam pro lugar. Vidas não. Noite!"

O jornalista Victor Ferreira, da GloboNews, também recorreu ao dicionário para questionar o uso destas palavras. Na sua visão, a palavra "revolta" expressa melhor o que ocorreu. Diz o Houaiss: "Perturbação, sentimento de raiva, de náusea que se expressa geralmente em atitudes, opiniões mais ou menos agressivas; indignação, repulsa".

"As vidraças quebradas do Carrefour têm muito mais a ver com revolta do que com vandalismo. Vandalismo, aliás, pressupõe destruição gratuita. Um sujeito alcoolizado que derruba um orelhão por esporte é um vândalo. Revolta, indignação, insurreição... são outra coisa", escreveu Ferreira no Twitter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL