PUBLICIDADE
Topo

Mauricio Stycer

Por que a morte do ator que manipulava um fantoche causou tanta comoção

Conteúdo exclusivo para assinantes
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

03/11/2020 06h01

A morte de Tom Veiga, o ator por trás do Louro José, causou enorme tristeza entre os fãs. Na verdade, é uma comoção tão grande que tem gente se perguntando se não é exagero.

Um jornalista estrangeiro me procurou nesta segunda-feira querendo me entrevistar sobre a morte de Tom Veiga. Ele queria entender melhor esta comoção toda. Nas redes sociais, vi gente surpresa, negativamente, com a enorme repercussão desta notícia.

Olha, é preciso considerar que o Louro José era quase um coapresentador do "Mais Você". E aparecia ao lado de Ana Maria Braga nas manhãs da Globo, de segunda a sexta, há mais de 20 anos. Fora os seus primórdios no "Note e Anote" na Record.

Ana e Louro formaram uma dupla que entrava na casa das pessoas com uma audiência nada desprezível e bom faturamento comercial há duas décadas. É muito tempo. É um caso de sucesso e, naturalmente, explica a tristeza de tanta gente que guarda as lembranças dos dois. Memória afetiva.

A interação da dupla se tornou um diferencial dos programas matinais. Para além das receitas de culinária, das entrevistas e das reportagens, sempre havia o comentário do Louro José. De humor às vezes infantil, mas muitas vezes irônico e maroto, adulto, enfim.

Tom Veiga complementava Ana. Não a reprimia. Não era a voz da consciência. Era cúmplice. Embarcava nos assuntos e avançava, com comentários inesperados, fora do roteiro, politicamente incorreto, muitas vezes surpreendendo a apresentadora.

Ana Maria Braga e seu Louro José, espontâneos e descontraídos, criaram memes muito antes de esta palavra ser incorporada ao nosso vocabulário.

Nunca foi "cancelado", talvez porque conseguisse esse equilíbrio: não era ofensivo, desrespeitoso com o horário, mas estava longe de ser o assistente bonzinho, que passa a mão na cabeça do parceiro.

Entender a comoção com a morte de Tom Veiga implica em entender o impacto da TV aberta no Brasil. Ela sempre foi - e ainda é - formadora de gostos, fonte principal de entretenimento e criadora de tendências.

Ana e seu Louro José criaram uma relação inédita. E ganharam respeito de mulheres, crianças e também de homens adultos por escaparem das regras que engessam a televisão.