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Leonardo Rodrigues

REPORTAGEM

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Cena de 'Stranger Things' tem erro, mas só colecionadores conseguem achá-lo

Cena da quarta temporada de "Stranger Things" - Divulgação
Cena da quarta temporada de "Stranger Things"
Imagem: Divulgação
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

15/06/2022 13h11

É a cena do ano. Nas profundezas das sombras, o diabão Vecna açoita e ameaça a pobre Max. Mas a garota consegue ludibriar a morte com uma ajudinha providencial dos amigos de "Stranger Things". Eles inserem no walkman a música "Running Up That Hill", hit-mor da inglesa Kate Bush.

A vida de Max passa como um flash por seus olhos, enquanto o clássico dos anos 1980 ecoa em versão remixada

O momento acima, que viralizou e fez Kate Bush voltar às paradas, é o clímax da quarta temporada da série. Mas existe um erro ali que só pessoas muito especiais (o adjetivo "loucas" também cabe) conseguem enxergá-lo, tal qual a roupa nova do rei.

Alguns colecionadores perceberão que a edição da fita K7 utilizada na cena, do clássico álbum "Hounds of Love" (1985), não havia sido lançada no ano em que a cena se ambienta, 1986.

Segundo a bíblia colecionista Discogs, a fita em questão foi editada apenas entre algum momento de junho de 1987 e setembro de 1988.

E como é possível identificar isso?

Fita K7 de Kate Bush em cena de "Stranger Things" - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

O print acima dá dicas: a tipografia do código de catálogo no canto superior esquerdo da capa, a foto de Bush inclinada, o corpo transparente do K7 e o código de barras sinalizam a reedição norte-americana da EMI-Manhattan Records —bandeira que existiu por breve período após a fusão das duas gravadoras.

Essa versão apresenta um belo upgrade em relação às anteriores, por ser compatível com aparelhos de som com sistemas Dolby HX Pro, B e NR de redução de ruídos. É uma fita altamente tecnológica para a época.

A título de curiosidade, o walkman Sony WM-8 usado na cena, de 1984, sem seus charmosos fones de ouvido laranja —foram substituídos por um par da Nova 45—, não possuem tais tecnologia antirruído.

Walkman WM-8 - Reprodução - Reprodução
O Walkman WM-8, da Sony
Imagem: Reprodução

Mas toda a poética do audiovisual fez "Running Up That Hill" soar divinamente no aparelhinho de Max, como este acima, que passou a ser disputado por fãs e a valer algumas centenas de dólares em sites de usados.

Antes que o leitor questione: não, o colunista não considera grave o erro de "Stranger Things"

Trata-se de uma corriqueira filigrana de produção que em nada interfere no resultado dramático da cena, que é ótima e ainda serviu como um valoroso serviço: apresentou o talento de Kate Bush à geração Z.

Três décadas após ser revisitada pelo público headbanger com a curiosa versão de "Wuthering Heights" gravada pelo grupo brasileiro Angra, Bush está mais uma vez em evidência.

 "Stranger Things" faz Kate Bush quebrar recorde no Hot 100 da Billboard  -  O Antagonista  -  O Antagonista
Imagem: O Antagonista

Fada do Avalon, pioneira no pop teatral, dançarina contemporânea inspirada pela euritmia, a cantora é daquelas artistas que merecem um profundo mergulho discográfico. O problema é que agora, pelo menos em termos físicos, isso ficou mais caro.

Ao ressurgir no primeiro lugar do ranking global do Spotify, Kate Bush teve um aumento de procura de mais de 1000% no Discogs. E em outros sites o movimento é similar.

O hypada fita K7 de "Hounds of Love" hoje é vendida por mais de R$ 1000, e nem estamos falando da edição da EMI-Manhattan Records, que simplesmente evaporou da internet nas últimas semanas. É qualquer edição.

Você quer o vinil? Melhor então preparar o desfalque no bolso. Após a cena de "Stranger Things", uma versão decente do LP "Hounds of Love" dificilmente sai por menos de R$ 400 com frete.

Apesar dessa superinflação, cabe aqui uma ressalva: os álbuns de Kate Bush nunca foram exatamente baratos, mesmo com a venda de milhões de exemplares. Não é difícil encontrá-los.

Como explicar então essa distorção na curva oferta-demanda?

A resposta está culto. Cantora, produtora e compositora, Kate Bush é uma esfinge pop que há décadas encanta o público. Possui uma discografia única, de aura mística. Fez apenas uma turnê em mais de 40 anos de carreira e dificilmente se apresenta ou dá entrevistas.

E a influência dela é gigantesca. A consolidação do pop baseado na mise-en-scène teatral, com coreografias de palco e conceito bem amarrado, que regra no showbizz atual, pode ser atribuído a ela. Assim como a popularização do microfone sem fio "da Madonna" que não é da Madonna.

Álbum visual como "Lemonade" de Beyoncé? Kate testou o conceito décadas antes, com "The Line, the Cross and the Curve" (1993). E mais: primeira cantora a compor todas as músicas de um álbum de estreia que vendeu um milhão de cópias? O nome dela é Kate Bush.

Para quem não quem não a conhece e quer começar, deixo links de três álbuns essenciais e altamente recomendados

E qual seria sua lista? Escreva nos comentários ou mande uma mensagem para mim no Instagram (@hrleo) ou Twitter (@hrleo_). Quer ler mais textos? Clique aqui.

E até a próxima datilografada!