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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Netflix, Disney, Amazon e Globo lutam contra disparada da pirataria

Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

20/04/2021 15h19

Resumo da notícia

  • Consumo de pirataria de streaming dispara na pandemia e incomoda grandes players do setor que começam a atuar mais ativamente no combate à prática
  • Falar de pirataria ainda é tabu para as empresas, ainda existe uma visão equivocada do público de que esta é uma batalha de gigantes contra pequenos
  • A pirataria é uma atividade cada vez mais controlada por poderosas organizações criminosas internacionais
  • Cada vez mais, criminosos usam o interesse das pessoas por streaming para roubar dados e cometer crimes usando equipamentos de quem consome pirataria
  • Mudanças regulatórias devem facilitar o combate à pirataria no Brasil a partir do segundo semestre deste ano
  • Com o aumento do combate à pirataria, quem pagou por assinaturas ou comprou as caixinhas mágicas dos piratas corre o risco de perder dinheiro

Não foi somente o consumo de streaming que disparou durante a pandemia. O consumo de pirataria das plataformas de vídeo seguiu a tendência. Mas o que até algum tempo era um problema secundário para boa parte das empresas, que viam a prática como uma maneira de divulgar seus produtos, agora é um dos maiores problemas do setor.

No mundo, nos dois primeiros meses da pandemia, o crescimento dos dez maiores sites de pirataria foi de, em média, 19% (dados SimilarWeb). No Brasil, chegou a quase 50% de aumento no mesmo período. Um dos principais sites piratas no país viu seu tráfego crescer de 8,5 milhões de usuário para 13,75 milhões entre fevereiro e março de 2020.

Falar de pirataria de streaming é tabu para as empresas, particularmente quando se trata das estrangeiras que operam no Brasil. Apesar da prática ser crime, quando as empresas se manifestam publicamente contra a pirataria, são vistas por muitos como vilãs. Existe uma crença de que o combate à pirataria beneficia somente as grandes empresas, tirando o prazer de quem não tem recursos para consumir o produto legalmente.

Equivocadamente, parte da população acredita que a pirataria é uma atividade amadora e um crime menor por ser o roubo de algo digitalmente reprodutível, sem danos materiais, apenas uma cópia ou transmissão de filme, série ou música. Mas por trás da pirataria estão organizações criminosas internacionais poderosas e cada vez mais sofisticadas. Além de roubar a propriedade intelectual das empresas, essas organizações cada vez mais usam informações pessoais de quem consome pirataria acessam equipamentos domésticos para cometer crimes.

O bandido dentro da sua casa

Plataformas como Netflix, Disney+, Amazon Prime e Globoplay estão entre os principais alvos para distribuição de malware, adware, roubo de senhas e lançamento de ataques de spam e phishing. Essas ameaças virtuais são mais frequentemente baixadas quando os usuários tentam obter acesso por meios não oficiais, seja comprando contas com desconto, obtendo um "hack" para manter seu teste gratuito ou tentando acessar uma assinatura sem pagar. Muitas vezes, esses links ou arquivos não oficiais vêm com outros programas maliciosos, como trojans e backdoors.

Em um estudo com 5.577 usuários que tentaram acessar sites para consumir conteúdo pirata de streaming, foram identificadas 23.936 tentativas de infectar os usuários. Das cinco plataformas de streaming avaliadas, o Netflix liderou o número de ataques. Quanto mais popular o serviço, maior a atração para usuários e piratas.

As caixinhas de TV Box, ou serviços de IPTV piratas, oferecem riscos de segurança semelhantes, mas elas tem perdido a preferência dos consumidores que optam por sites e programas mais fáceis de instalar, podendo fazer tudo online.

Quando você conecta aparelhos ilegais ou baixa programas no seu computador, celular ou SmartTV (que não deixa de ser um computador), você permite que criminosos tenham acesso à sua rede e seus aparelhos. Uma vez lá dentro, eles podem roubar seus dados e até usar os equipamentos da sua casa para atividades criminosas.

E o problema irá se agravar com o 5G e internet das coisas. A tendência é termos cada vez mais aparelhos domésticos conectados. Ao usar dispositivos e programas piratas, aumenta o risco de expor aos criminosos todos os equipamentos eletrônicos da sua casa.

Uma guerra nos bastidores

A TV Globo e a Disney são mais abertas em discutir publicamente seus esforços no combate à pirataria. Nativos digitais como a Netflix e a Amazon Prime, resistem em falar abertamente sobre o tema. A Netflix e a Amazon foram procuradas pela coluna, mas preferiram não comentar as perguntas enviadas. Mas independentemente da postura pública, nos bastidores todas as empresas estão ativas como nunca no combate à pirataria.

A Globo diversas vezes é atacada nas redes sociais quando atua para coibir o uso de imagens de seus programas. Mas o Netflix, por exemplo, discretamente começou a testar alertas para combater a rachadinha de senhas. Já a Amazon registrou uma patente no final de 2020 para uma nova tecnologia contra pirataria. Essa tecnologia adicionará diferentes tags ou marcadores de identificação pessoal ao streaming de vídeos. Essas tags serão exclusivas e serão anexadas aos metadados do arquivo. Portanto, quando um "ladrão de conteúdo" transmitir esse conteúdo de um dispositivo específico em uma rede específica, essas tags ou marcadores continuarão sendo adicionados até que uma sequência inteira seja formada. Essa sequência específica pode ser rastreada até a fonte do vazamento original.

Combater a pirataria é um desafio do ponto de vista da "opinião pública", mas também técnico. As empresas de streaming estão cada vez mais se tornando empresas de segurança digital. Elas também possuem apps e diferentes formas de acesso como computadores e Smart TV, o que aumenta os pontos de vulnerabilidade de suas aplicações e exige crescentes investimentos em tecnologia de segurança.

Para impedir a distribuição ilegal, os serviços de streaming usam tecnologias como marcas d'água visíveis ou invisíveis. A impressão digital ajuda as plataformas de transmissão como o YouTube a identificar se o material é protegido por direitos autorais. Plataformas como YouTube, Facebook e Twitter são rápidas em identificar e derrubar o conteúdo. "O compliance das big techs é de 100%", afirma um especialista. "O grande problema está nos sites piratas. O bloqueio de sites ainda é muito difícil".

Por meio de associações de combate à pirataria as empresas têm atuado ativamente para estimular a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) a adotar postura mais dura com relação à pirataria. Os resultados desse esforço começam a aparecer. Em 2020 a Ancine e a Anatel criaram uma equipe com o objetivo de estudar a possível regulamentação conjunta do bloqueio administrativo de sites que distribuam obras audiovisuais sem a prévia autorização dos titulares.

A partir de uma nova Instrução Normativa, já a partir do segundo semestre deste ano, o combate à pirataria deve se tornar mais efetivo. A Ancine passaria a ter autoridade para derrubar sites movendo ações judiciais, sem condenar o provedor. Há discussões sobre enviar cartas para usuários que acessem os sites piratas, como acontece em outros países, mas o principal alvo são os sites que distribuem o conteúdo ilegalmente.

Caso aprovado o bloqueio administrativo, seria mais fácil e rápido derrubar esses sites piratas. Hoje, a Anatel adota uma postura em favor da neutralidade da rede, não interferindo no conteúdo que trafega na web. Para as empresas, a postura da Anatel deveria mudar e a agência deveria banir o tráfego de pirataria, uma vez que a pirataria é um crime previsto em lei.

Como a Anatel não interfere administrativamente, um site só pode ser fechado se houver um processo criminal contra seus operadores. Como o processo é lento e caro, os piratas navegam sem grandes dores de cabeça. E uma vez que os piratas tem um site derrubado, abrem outro e migram seus usuários. Se a Anatel atuasse, seria mais efetivo porque ela tem poder de regulação direta. Uma estratégia que também tem sido utilizada é rastrear o dinheiro dos criminosos, removendo plataformas de pagamento e publicidade legítimas de dentro dos sites de pirataria.

Com o aumento do combate à pirataria, quem pagou por assinaturas ou comprou as caixinhas mágicas dos piratas corre o risco de perder o dinheiro investido e ficar a ver navios. Mas independentemente do dinheiro perdido, quem sem saber instalou malware, vírus e outras ameaças digitais, poderá ter prejuízos ainda maiores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL