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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Flamengo é parte do plano da Amazon para dominar esportes no streaming

Jogadores do Flamengo comemoram título da Supercopa do Brasil - Mateus Bonomi/AGIF
Jogadores do Flamengo comemoram título da Supercopa do Brasil Imagem: Mateus Bonomi/AGIF
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

14/04/2021 04h00

Resumo da notícia

  • A transmissão de grandes competições ao vivo é parte da estratégia da Amazon Prime para dominar a transmissão de esportes no streaming.
  • Acordo de patrocínio com o Flamengo é a mais visível iniciativa da plataforma no Brasil, mas na Europa a plataforma já transmite a Premier League.
  • Em 2020, a receita de anúncios da Amazon nos EUA cresceu para US$ 15,73 bilhões, um aumento de 52,5% em relação a 2019.
  • Vender produtos oficiais dos times na internet é uma nova fonte de receita para a gigante de comércio digital.
  • O Twitch, canal de streaming de games da Amazon, é líder no streaming de videogames e pode permitir o encontro de esportes tradicionais e virtuais.
  • Concorrentes como o TikTok, que realizou sua primeira transmissão ao vivo de um campeonato, já se movimentam para não ficar para trás do Prime.

Quem viu o Amazon Prime na camisa do Flamengo no último final de semana no jogo do rubro-negro contra o Palmeiras, na Supercopa, pode ter se surpreendido. Mas a ação é parte da ambiciosa estratégia da gigante de e-commerce para dominar o streaming de esportes no mundo e acelerar seu crescimento em diversas frentes de negócios.

Transmissões de esportes são uma maneira de atrair novos assinantes para o Prime, mas a ambição vai além. A empresa também é a maior compradora de mídia do mundo, na frente de gigantes de consumo como Unilever e P&G. Então, a Amazon pode usar os intervalos comerciais para vender seus próprios produtos, como a Alexa.

Mas vender espaços publicitários para outras empresas é um caminho ainda mais rentável e a Amazon tem crescido rapidamente nesse segmento. Muito se fala sobre o domínio de Google e Facebook no mercado de publicidade digital, mas quem cresceu mais rapidamente nesse setor nos últimos anos foi a Amazon. A empresa já é a terceira maior vendedora de publicidade do mundo, e segundo relatório da eMarketer, continuará ganhando mercado dos líderes Google e Facebook, um sinal de que as marcas estão cada vez mais se voltando para o gigante do comércio eletrônico para ajudá-los a alcançar o crescente número de compradores online.

No ano passado, a receita de anúncios da Amazon nos EUA cresceu para US$ 15,73 bilhões, um aumento de 52,5% em relação a 2019, estima a eMarketer. A Amazon também oferece a venda de publicidade dentro de sua plataforma IMDB TV, onde aumentou investimentos em programação exclusiva. Já anunciou o spinoff da série "Bosch" e avalia outras extensões na TV IMDB dos programas da Prime.

A loja virtual do seu time

Uma peça central no quebra-cabeça da Amazon para dominar os esportes no streaming foi a compra por US$ 1 bilhão (por ano) do "Thursday Night Football" e seu cobiçado horário comercial, substituindo a Fox Corp. a partir de 2023. A compra faz parte do novo acordo de direitos de mídia da NFL fechado no início deste ano. É de longe o maior negócio já realizado pela Amazon no streaming. O Prime já transmite esportes em outras partes do mundo, mas a NFL é o esporte mais popular no maior mercado publicitário do mundo, é o intervalo comercial mais caro do planeta.

A Amazon também tem expandido a programação de partidas de futebol europeu que oferece a seus assinantes do Prime, incluindo partidas selecionadas da Premier League do Reino Unido, a liga mais popular do mundo. No início deste ano a empresa negociou uma oferta pelos direitos da Série A do campeonato italiano, mas a Amazon buscava um pacote limitado, com apenas alguns jogos na semana, semelhante aos acordos com a Premier League e NFL. A liga italiana não aceitou por preferir que todas as transmissões ficassem concentradas em uma plataforma.

O esporte, apesar da queda de audiência que enfrenta nas TVs, ainda é imbatível para reunir pessoas e sua atenção. As transmissões esportivas representam mais de 85% das maiores audiências nos Estados Unidos. No Brasil, segundo o YouTube, em 2020 a final da Taça Rio, disputada entre Fluminense e Flamengo, em julho, liderou o ranking dos Vídeos em Alta de 2020, com um pico de 3,6 milhões de acessos simultâneos na Flu TV, canal do clube carioca no YouTube, que exibiu a partida. A live foi a maior audiência em transmissão simultânea do YouTube no mundo. Na sequência dos vídeos mais assistidos em 2020 vem outro jogo do Flamengo na Taça Rio. Esses recordes de audiência ajudam a explicar a escolha do Flamengo pela Amazon.

Outra linha de negócio é a venda de produtos dos times. A NFL anunciou no final de março uma parceria com a Amazon para trazer milhares de produtos oficialmente licenciados para a gigante do varejo, um movimento que pode transformar o bilionário mercado de equipamentos para fãs.

Até agora, a variedade de produtos oficiais da NFL à venda na Amazon era bastante limitada. Agora, NFL expandirá sua oferta de tudo, de réplicas de camisas, bonés até produtos usados. Grande parte dos produtos na loja online oficial da NFL também estará disponível na Amazon. As marcas incluem NFL Pro Line, Fanatics, New Era e Outerstuff. A Nike, parceira da NFL, não foi incluída no acordo e não vai vender seus produtos da NFL na Amazon, mas boa parte dos demais parceiros, entrou.

À medida que traz mais usuários para sua plataforma, a Amazon também reúne mais dados sobre seus clientes, o que torna sua capacidade de vender anúncios segmentados e produtos cada vez maior.

Quanto mais venda de produtos e verba de anunciantes a Amazon atrai, maior sua capacidade de reinvestir na compra de direitos esportivos. Uma das limitações das transmissões esportivas são seus altos custos. O que sempre deu vantagem aos grandes grupos de TV, agora se torna uma vantagem para as empresas de tecnologia, que além de ter melhor capitalização, possuem alcance global.

Videogame também é esporte

Um negócio gigantesco e menos visível da Amazon é o Twitch, sua plataforma de streaming de jogos. Ele hospeda 91% de todo o streaming de videogame, superando os concorrentes do YouTube e Facebook. Em menos de uma década, o Twitch se tornou uma das plataformas mais populares da internet, atendendo a mais de 2 milhões de telespectadores a qualquer hora do dia. Existem 7 milhões de streamers que se transmitem jogando videogame todos os meses - quase o dobro do que havia antes do início da pandemia. Unir a experiência de esportes digitais e reais é outro potencial caminho para a Amazon.

A Amazon não está sozinha. Facebook, YouTube (do Google), Spotify e até o TikTok não querem ficar para trás. O Facebook e o YouTube há tempos realizam transmissões esportivas e o Spotify dias atrás comprou o Locker Room, app de áudio focado em conversas com fãs de esportes. A ideia é expandir o Locker Room para ir além dos esportes e concorrer com o app de salas de conversa Clubhouse, mas a audiência esportiva já está lá.

O TikTok é o curinga nesse mercado. A rede social recentemente transmitiu uma partida da Copa do Nordeste entre Ceará e CSA. Foi o primeiro jogo transmitido pelo TikTok na história, como noticiou Danilo Lavieri, colunista do UOL. A partida teve 634 mil espectadores no total e a conta oficial da Copa do Nordeste na plataforma ganhou 65 mil seguidores no dia da transmissão. O vídeo de maior visualização alcançou 3,2 milhões de acessos. Para o TikTok as transmissões ao vivo são uma oportunidade de alavancar o live commerce, a venda de produtos em transmissões ao vivo no online. A modalidade é uma febre na China, país de origem do TikTok, e movimenta bilhões.

Roda do sucesso

Após ler o livro "Empresas Feitas para Vencer", de Jim Collins, Jeff Bezos, fundador da Amazon, teria desenhado em um guardanapo uma roda para ilustrar como seria o efeito Flywheel da Amazon. Sua ideia era reproduzir o modelo do volante de inércia descrito na obra de Collins, como as grandes rodas usadas em motores. No tuíte abaixo, a imagem que estaria no guardanapo de Bezos.

A entrada do Prime nos esportes é uma extensão dessa roda da Amazon. Ter os maiores campeonatos trará uma melhor experiência, o que atrai mais consumidores, com mais consumidores, mais dados. Mais consumidores e dados, mais possibilidades de ganhar com as vendas de assinaturas, produtos e publicidade. E com mais dinheiro, mais caixa para comprar os direitos dos melhores campeonatos. Assim, a roda gira e a Amazon cresce. No Brasil não será diferente e o Flamengo é um ótimo candidato para entrar nessa roda da Amazon.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL