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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Mídia meltdown: investidores têm prejuízo bilionário nos EUA

Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

30/03/2021 12h42

Resumo da notícia

  • As ações das empresas de TV que investem em streaming não paravam de subir. A ViacomCBS viu seu preço multiplicar mais de dez vezes em 12 meses.
  • O fenômeno era difícil de explicar, as perspectivas de receita das empresas de TV se tornam piores mesmo com o crescimento do streaming.
  • Em menos de cinco dias, ViacomCBS e Discovery Inc., dois gigantes de mídia, viram seus valores de mercado caírem respectivamente 51% e 45%.
  • Por trás da rápida queda estava uma arriscada aposta do gestor Bill Hwang e seu fundo Archegos Capital Management.
  • Os bancos Credit Suisse e Nomura disseram que ambos sofreriam perdas substanciais de bilhões de dólares.
  • A dura realidade para as emissoras de TV é que o streaming não cobre o dinheiro que deixa de entrar da TV tradicional.

Nos últimos 12 meses, as ações das empresas de TV que investem em streaming não paravam de subir de preço. A ViacomCBS, por exemplo, viu seu preço multiplicar 10 vezes no período. Ninguém conseguia explicar o fenômeno, já que analistas de fundos como ARK Invest e LightShed Partners divulgavam relatórios cada vez mais pessimistas sobre o futuro das empresas de mídia tradicional, apontando para a queda de receita da TV aberta e do cabo, com a migração de anunciantes e da audiência para o online.

Para piorar, as gigantes de tecnologia como Google e Facebook entram cada vez mais no segmento de mídia aumentando a concorrência.

Mas na semana passada, a explicação para o aumento de preço das ações de mídia começou a aparecer de modo desastroso. Em menos de cinco dias, ViacomCBS e Discovery Inc., dois dos maiores grupos de TV do mundo, viram seus valores de mercado caírem respectivamente 51% e 45%. As ações derretaram (meltdown), como se diz no mercado.

Por trás da rápida queda estava uma arriscada aposta do gestor Bill Hwang e seu fundo Archegos Capital Management. Além de ViacomCBS Inc. e Discovery Inc., o fundo também tinha posicões em empresas de tecnologia como Farfetch, GSX Techedu Inc., Tencent Music Entertainment Group, Baidu Inc. e IQIYI Inc. Mas ViacomCBS e Discovery Inc. lideraram as quedas.

Segundo o "Wall Street Journal", a Archegos assumiu posições grandes e concentradas em empresas e comprou algumas posições por meio de "swaps de retorno total". São contratos que permitem assumir os lucros e perdas de uma carteira de ações ou outros ativos em troca de uma taxa. Os swaps permitem que os investidores assumam posições enormes enquanto pagam valores pequenos à vista, basicamente pegando empréstimos de bancos.

O uso de swaps permitiu a Hwang manter seu anonimato, mesmo com a Archegos como exposição de mais de 10% das ações de várias empresas. Os investidores que detêm mais de 10% dos títulos de uma empresa são considerados insiders da empresa e estão sujeitos a regulamentos adicionais sobre divulgações e lucros.

Na semana passada, essas grandes apostas alavancadas começaram a desmoronar depois de uma oferta de ações de US$ 3 bilhões da ViacomCBS. A emissora planejava vender suas próprias ações para investir no seu streaming. Foi um tiro no pé. Quando uma empresa emite novas ações, normalmente dilui o valor dos acionistas atuais, portanto, é esperada alguma queda no preço.

Mas, alguns dias após a oferta, uma das empresas de pesquisa mais influentes de Wall Street, MoffettNathanson, publicou um relatório que questionava o valor da empresa e rebaixou as ações para "venda". As ações deveriam valer apenas US$ 55, disse MoffettNathanson.

A fraqueza inicial na ViacomCBS desencadeou uma cadeia de eventos em que os principais corretores tentaram sair de suas posições em nome da Archegos, o que resultou em uma chamada de margem massiva. O fundo de hedge foi forçado a injetar mais dinheiro para cobrir as perdas, acumulando uma liquidação forçada de mais de US$ 20 bilhões.

Os bancos Credit Suisse e Nomura disseram que ambos sofreriam perdas substanciais. O Nomura estimou sua exposição em cerca de US$ 2 bilhões, enquanto o Credit Suisse disse que é "prematuro quantificar" o prejuízo. As ações de ambos os bancos despencaram em mais de 10% nessa segunda-feira.

Não há milagre

Analistas de fundos como Ark Investments e Lightshed Partners há meses chamavam atenção para a fragilidade das ações de empresas tradicionais de TV. Mas os defensores apontam para o crescimento do streaming para justificar os valores.

A ViacomCBS, por exemplo, lançou recentemente o Paramount+. O serviço aproveitou o vasto arquivo de conteúdo do grupo que inclui CBS, Paramount Film Studios e vários canais a cabo, incluindo Nickelodeon e MTV. Já a Discovery Inc. lançou o Discovery+.

Com a perspectiva de crescer no mundo inteiro e ganhar milhões de assinantes, parecia fazer sentido. Como não ficar otimista diante de um mercado global de streaming de vídeo estimado em US$ 50,11 bilhões em 2020 e que deve atingir US$ 59,14 bilhões em 2021?

A Netflix ultrapassou 200 milhões de assinantes no final de 2020 e a Disney alcançou mais de 90 milhões de assinantes em tempo recorde. A Warner Bros. estava tão otimista que declarou: todos os seus filmes em 2021 estreariam no seu streaming, o HBO Max, no mesmo dia dos cinemas (a empresa já anunciou que seus filmes vão voltar a estrear primeiro nos cinemas a partir de 2022 e após 45 dias no streaming).

No Brasil, semana passada, ao anunciar seus resultados de 2020, a Globo celebrou 80% de crescimento de assinantes no Globoplay e 112% de aumento da receita em seu streaming. Mas atente para o detalhe, a Globo celebrou o crescimento de assinantes e faturamento, mas não o crescimento de lucro do Globoplay. A emissora teve queda de 77% nos lucros líquidos e não fosse pela não-renovação de contratos esportivos e corte de custos, teria tido prejuízo.

A dura realidade para as emissoras de TV é que o streaming não cobre o dinheiro que deixa de entrar da TV tradicional. A ARK Invest inclusive afirma que as emissoras de TV tradicionais sofrerão o mesmo declínio da mídia impressa.

A guerra do streaming é cara, difícil de vencer e muitos investidores ainda vão perder fortunas. A última semana deixou essa realidade ainda mais evidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL