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Flavia Guerra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando o burro protagoniza um dos filmes mais interessantes de Cannes

Pôster do filme "EO", exibido no Festival de Cannes 2022 - Divulgação
Pôster do filme "EO", exibido no Festival de Cannes 2022 Imagem: Divulgação
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Flavia Guerra

O cinema é minha casa. Da faculdade de jornalismo na ECA-USP ao mestrado em Direção de Documentários na Goldsmisths-University of London, passando pelo trabalho nos coletivos Elviras - Mulheres Críticas de Cinema e no Mais Mulheres no Audiovisual, vivo o cinema 24/7. Jornalista, documentarista, curadora, crítica de cinema e outras coisas mais, mora também no podcast Plano Geral (@planogeral_podcast), que criou em parceria com Thiago Stivaletti. É colunista de cinema da Band News FM, cobre os principais festivais de cinema internacionais para o Canal Brasil e é curadora do Feed Dog - Festival Internacional de Documentários de Moda.

Colunista do UOL, em Cannes

20/05/2022 22h45Atualizada em 21/05/2022 11h04

Em Cannes, além da almejada Palma de Ouro, ou a Palm D'Or, todos os anos é entregue a Palm Dog, um prêmio bem-humorado dado ao melhor cachorro em cena nos filmes da seleção. Parece brincadeira, mas há anos em que o prêmio é bastante disputado, o que revela que a relação entre o cinema e os animais não é algo raro.

Se a Palm Dog já é tradição, não existe ainda a Palm Cat (reclamação dos gateiros de plantão). E se existisse uma Palm Dunkey, ela certamente iria para o burrinho (ou os vários burrinhos e mulas) de "EO".

No total, seis animais (Mela, Hola, Tako, Marietta, Ettore e Rocco) interpretaram EO no filme dirigido pelo veterano Jerzy Skolimowski, cineasta polonês que, aos 84 anos, ainda prova que é possível sempre fugir do comodismo criativo.

Na trama, EO vive relativamente bem em um circo familiar na Polônia, até ser separado de sua cuidadora e melhor amiga Kasandra (a ótima Sandra Dryzmalska). Uma lei que proíbe animais em circo entrou em vigor e EO não pode mais levar a vida que sempre teve.

É neste momento que entramos no mundo do simpático, teimoso e expressivo (por incrível que isso possa parecer) asno (na sinopse em inglês, trata-se de um "donkey", que em português é asno, mas na trama, que nunca se refere diretamente ao animal, EO tanto pode ser um burro, uma mula ou asno). O que importa mesmo é que Skolimowski, com este filme esdrúxulo, tem sido um dos favoritos da crítica até o momento.

Depois de ser separado de sua dona, EO vai parar em um sofisticado estábulo para cavalos de raça, mas foge e começa, então, sua saga de volta para casa. Como sabemos que é voltar para Cassandra que EO quer? Pelos flashbacks, pela atitude e pela ótima montagem do longa, que tem poucos diálogos, mas um trabalho de som impecável.

O fato de "EO" ser até agora um dos filmes tematicamente e formalmente mais ousados de Cannes 2022 não deixa de ser irônico, pois é obra de um senhor de 84 anos, que não veio ao festival e pediu para uma foto dele com o burrinho ser colocada em seu lugar na coletiva de imprensa do filme.

Criar atmosfera, filmar as peripécias de EO de forma não infantilizada, suficientemente dura para falar, no fundo, da forma como tratamos os animais como commodities e não como seres que tornam este mundo um lugar mais suportável é um feito e tanto.

Não há redenção fácil em EO, mas há um olhar carinhoso para o animal. E há, além da beleza estética, com criações de momentos que beiram a videoarte, uma ousadia notável e um objetivo humanista que revelam que são filmes assim que fazem com que Cannes tenha relevância e instigue o público para além de Top Guns e tapetes vermelhos badalados.