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Flavia Guerra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem é o diretor russo anti-trump aplaudido em Cannes

Kirill Serebrennikov apresentou seu mais novo filme no festival: "Tchaikovsky Wife" - Pascal Le Segretain/Getty Images
Kirill Serebrennikov apresentou seu mais novo filme no festival: "Tchaikovsky Wife" Imagem: Pascal Le Segretain/Getty Images
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Flavia Guerra

O cinema é minha casa. Da faculdade de jornalismo na ECA-USP ao mestrado em Direção de Documentários na Goldsmisths-University of London, passando pelo trabalho nos coletivos Elviras - Mulheres Críticas de Cinema e no Mais Mulheres no Audiovisual, vivo o cinema 24/7. Jornalista, documentarista, curadora, crítica de cinema e outras coisas mais, mora também no podcast Plano Geral (@planogeral_podcast), que criou em parceria com Thiago Stivaletti. É colunista de cinema da Band News FM, cobre os principais festivais de cinema internacionais para o Canal Brasil e é curadora do Feed Dog - Festival Internacional de Documentários de Moda.

Colunista do UOL, em Cannes

19/05/2022 22h50Atualizada em 21/05/2022 11h05

Parece óbvio, mas estes são tempos em que é preciso repetir o óbvio. Não é boicotando os russos, muito menos gênios como Fiódor Dostoiévski, Anton Tchekhov e Pyotr Tchaikovsky que vamos fazer algo de efetivo pelo fim da guerra na Ucrânia e pela paz. Muito menos devemos privar as pessoas do teatro, da música, do cinema, enfim, da cultura russa.

Quem disse isso foi o diretor russo Kirill Serebrennikov, que, ao contrário dos cineastas alinhados ao regime de Putin e de comitivas oficiais do governo russo, não foi banido do Festival de Cannes 2022. Ao contrário, depois de duas edições em que concorreu à Palma de Ouro, mas não pôde estar presente no festival por conta de uma prisão domiciliar a que foi submetido, finalmente o cineasta, diretor teatral e produtor cultural, um dos mais influentes da Rússia contemporânea, pôde apresentar seu mais novo filme no festival: "Tchaikovsky Wife", ou "A Mulher de Tchaikovsky" em tradução livre.

No longa, ele conta a história de Antonina Ivanovna Miliukova, a mulher do grande compositor russo. Apesar de se passar no século 19, e ser um drama de época com um quê de trágico, o filme se comunica com o tempo presente. Isso porque trata da frustração que Antonina viveu ao ser apaixonada por um homem que não a desejava. A homossexualidade de Tchaikovski e a questão da liberdade das escolhas permeia todo o filme e dialoga com a Rússia contemporânea, onde a liberdade de expressão e a homossexualidade são questões mais que polêmicas.

Este é o terceiro filme de Kirill a concorrer à Palma. Os anteriores foram o ótimo "Leto" ("Verão" em português, que pode ser alugado no pay per view no Brasil) e o surreal "A Febre de Petrov", respectivamente de 2018 e 2021. Kirill tem um estilo eclético, varia em linguagem, para tratar de temas que sempre falam, ao final, do direito à liberdade e até mesmo à felicidade.

Em "Verão", ele contou a história de um jovem músico russo nos anos 1980, quando o rock underground era considerado subversivo. O filme conta a história real da banda Kino, que nasceu em Leningrado e revelou o primeiro grande nome do rock russo: Vitor Tsoi (interpretado por Teo Yoo). Não por acaso a trilha do filme é deliciosa e a presença do também músico Roman Bilyk no elenco do filme faz com que seja quase impossível assistir ao filme e não querer correr para baixar todas as canções, mesmo sem entender uma palavra em russo.

Já em "A Febre de Petrov", curiosamente, mas não por acaso, Kirill filma uma cidade que passa por uma epidemia de gripe na Rússia já pós União Soviética. Na trama, o quadrinista Petrov ( Semyon Serzin) e sua família tentam sobreviver mais um dia em um país em que o passado está sempre presente e a realidade é por vezes mais surreal que a ficção. Baseado no romance "Petrovs in and Around the Flu", de Alexey Salnikov, o longa traz o personagem de Petrov em uma longa caminhada febril, que mistura fantasia e realidade, numa espiral delirante.

Desta vez, em Tchaikovsky Wife", Kirill constrói uma narrativa mais clássica, mas dinâmica, que traz a atmosfera do século 19, mas que também abre espaço para sonhos e um certo surrealismo em cenas de delírios de Antonina (Alyona Mikhailova) envolvendo sexo e desejo.

Como já comentado, nos dois filmes anteriores, ele não pôde estar em Cannes porque estava preso em sua própria casa, em Moscou, depois de ser acusado de desviar dinheiro público de um grande projeto que ele comandava na Rússia, o Gogol Centre, renomado centro cultural que reúne cinema, teatro, performance, entre outras artes, que ele dirigiu de 2012 a 2021 também na capital russa.

Iniciado em 2017, o caso mobilizou toda a sociedade russa, intelectuais, artistas e outros representantes da sociedade escreveram cartas em defesa de Kirill, incluindo até o bailarino Mikhail Baryshnikov. Para os defensores do cineasta, o caso não passou de grande espetáculo para enfraquecer a atuação de Kirill que, à frente do Gogol, sempre criticou o autoritarismo de Putin, tratou de temas sensíveis da sociedade russa, como a influência da religião na sociedade, a corrupção e a sexualidade.

Sucesso de público, as montagens do Gogol chamaram atenção também dos poderosos e o pretexto de desvio de verba foi perfeito para afastá-lo dos palcos. Não deu certo. Kirill continuou trabalhando de casa, filmando e, finalmente, foi inocentado.

Hoje, ele está exilado em Berlim e pôde finalmente participar do Festival de Cannes. Mas sua figura sempre ficará marcada e conectada às questões políticas. Em tempos de guerra, é impossível não tratar do tema. Ao final da sessão de gala de "Tchaikovski Wife", ele usou os poucos minutos dados aos diretores para se manifestar para a seleta plateia do Grand Theatre Lumière para defender a paz. Na coletiva de imprensa do filme nesta quinta, em vez de se debater mais a questão artística do filme, a guerra e a política deram o tom. Kirill foi bombardeado com perguntas sobre a guerra na Ucrânia, obviamente, e sobre a postura autoritária de Putin, sobre como encontrar recursos para fazer seus filmes e sobre o boicote aos russos ao redor do mundo.

Muito paciente, o cineasta se posicionou contra a Guerra e mais uma vez defendeu a importância do cinema, da arte e da liberdade de expressão para se conquistar a paz. Apesar de ser contra o boicote aos artistas russos, à cultura russa, ele defendeu inclusive o Festival de Cannes, que baniu artistas ligados ao governo de Putin. Defendeu até mesmo o magnata russo Roman Abramovich. "Ele tem sido um patrono real na Rússia. E lá isso tem sido sempre apreciado. Ele criou uma fundação que ajudou os melhores artistas russos. E não é propaganda", comentou o cineasta, que também defendeu a posição do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

"Ele pediu para Joe Biden não impor sanções ao Abramovich. E ele está certo. Abramovich é um dos que têm lutado pela paz e acho que é algo que eu concordo totalmente com Zelensky. Temos que acabar com as sanções contra Abramovich", afirmou Kirill, deixando claro porque é um dos nomes mais influentes não só da cultura russa atualmente.

Kirill se posiciona, não faz filmes exatamente políticos, mas a política permeia tudo que faz. Se já era relevante para a Europa e os cinéfilos mais dedicados antes da Guerra na Ucrânia, atualmente merece ser descoberto pelo grande público.

Em tempos em que a cinefilia e o cinema sofrem com a disputa das redes sociais, streaming e até mesmo os blockbusters, aventurar-se pelo cinema russo contemporâneo é mais uma forma de abrir mentes e ampliar o entendimento da complexa sociedade russa.

"A cultura é o que faz com que as pessoas se sintam vivas. A música, literatura, cinema? Eu já disse isso muitas vezes. Boicotar a cultura russa me atinge de forma insuportável", completou ele, que não conta em geral com verba pública para realizar seus filmes, mas sim com verba privada e em forma de coprodução com outros países europeus.

Se todo festival tem temas que movem as discussões (em 2021, por exemplo, as mulheres na direção deram o tom, com a Palma de Ouro dada ao ousado "Titane", de Julia Ducournau), 2022 vai ficar marcado pela guerra. Apesar de estar feliz de finalmente estar em Cannes, esta edição tem um gosto amargo para o cineasta, que é filho de mãe ucraniana e pai judeu russo. "A gente não se sente muito melhor com esta guerra. Todos nós sofremos com a tragédia. Há bombas jogadas nas cidades. Então não estou totalmente feliz de estar aqui. Cannes é um festival que sempre me apoiou. Fui solto no começo da guerra e estou em Berlim, que me ofereceu trabalho", comentou.

Kirill admite que os russos se sentem culpados, "mas a atitude do mundo não deve se aplicar a todos os russos". "A gente deve ajudar a todos, ajudar as famílias que não têm como se manter. Eu faço isso. Não vou falar disso, mas eu ajudo. Tenho amigos ucranianos sofrendo", completou ele.

Nos próximos dias, o cinema ucraniano chega a Cannes, com diferentes produções que tratam da guerra e das guerras. Ou seja, o debate está posto e o tema está longe de se encerrar. Mas, como concluiu Kirill, o cinema é sobre as pessoas. "Estou interessado na vida destas pessoas, e na vida que a gente sente, na dor e na emoção."