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No Líbano, cidade ameaçada pela guerra síria tem obra fantasma de Niemeyer

Marcel Vincenti

Do UOL, em Trípoli (Líbano)*

14/07/2015 07h53

Os delicados traços de Oscar Niemeyer são praticamente vizinhos de uma das mais brutais guerras do século 21: o arquiteto brasileiro está presente no Oriente Médio com uma grandiosa obra pouco conhecida, e hoje em estado semiabandonado, na metrópole libanesa de Trípoli, a apenas 30 quilômetros da Síria. 

Trípoli é atualmente uma cidade proibida, classificada como "não vá para lá de jeito nenhum" pelo governo do Reino Unido. Nos últimos anos, o local, por sua proximidade com o território sírio, tem sido assediado por grupos armados (o Estado Islâmico e a Frente al-Nusra entre eles) que combatem o regime de Bashar al-Assad.    

Sangrentos embates envolvendo essas organizações, o Exército libanês e a comunidade alauita de Trípoli (a mesma vertente do islã à qual pertence Assad) já ocorreram na cidade, à curta distância do projeto de Niemeyer.

Tal obra foi batizada de Feira Internacional Rashid Karami, um complexo para sediar eventos comerciais e culturais desenhado pelo brasileiro no começo dos anos 1960 e que teve suas obras interrompidas em 1975, quando o Líbano foi engolido por outro conflito: uma guerra civil que duraria 15 anos. Hoje, muitas edificações do lugar se encontram em estado fantasmagórico, capazes de arrebatar e assustar o visitante em iguais medidas.

Os traços peculiares de Oscar Niemeyer marcam a paisagem de Trípoli, cidade libanesa hoje ameaçada pela guerra na Síria - Marcel Vincenti/UOL - Marcel Vincenti/UOL
Paisagem da Feira Internacional Rashid Karami, projetada por Oscar Niemeyer
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

“Quando Niemeyer desembarcou em Beirute em 1962, o Líbano estava vivendo sua chamada 'era de ouro'”, explica o arquiteto libanês Jad Tabet. “Uma pequena guerra civil havia afetado o país nos anos 50 e o presidente da época, Fuad Shehab, conduzia uma série de políticas de desenvolvimento socioeconômico para reconstruir a unidade nacional. A construção de um moderno complexo de eventos em Trípoli fazia parte desse contexto”.

Tabet afirma que, na época, “Niemeyer já era o aclamado arquiteto de Brasília” e um nome ideal para projetar o empreendimento.

Apesar de usado como esconderijo e armazém de armas por combatentes durante a guerra civil que começou em 1975, o complexo arquitetônico de Niemeyer não foi seriamente danificado no conflito. 

A maioria dos seus edifícios, porém, jamais foi concluída pelo governo libanês e, atualmente, a área parece uma cidade fantasma do futuro que pousou na antiquíssima Trípoli, local que foi porto fenício na era pré-cristã, bastião das Cruzadas no século 11 e, até hoje, abriga um centro que pulsa entre mesquitas e escolas corânicas do século 13.

Interior inacabado de um dos edifícios desenhados por Niemeyer na Feira Rashid Karami - Marcel Vincenti/UOL - Marcel Vincenti/UOL
Interior inacabado de um dos edifícios desenhados por Niemeyer na Feira Rashid Karami
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

O contraste entre a bagunça dos mercados árabes locais e a atmosfera límpida dos espaços de Niemeyer (e entre a tensão sectária de Trípoli e a paz sepulcral da Feira Rashid Karami) não poderia ser maior. 

Sensação familiar

Com 1 milhão de metros quadrados, a Feira Internacional Rashid Karami foi batizada após a interrupção do projeto de Niemeyer: seu nome homenageia um primeiro-ministro libanês assassinado durante a guerra civil no país árabe.

Apesar da digital bélica, o local fica em um (aparentemente) pacífico bairro residencial de Trípoli e que, no primeiro momento, gera um flashback imediato no visitante brasileiro: a paisagem parece uma fusão de Brasília com o parque do Ibirapuera, mas sem um vivo político ou vendedor de picolés à vista. 

O centro do terreno é cortado por um enorme Pavilhão de Exibições, dono de um formato de bumerangue com 750 metros de extensão. Metade dessa construção é uma marquise inacabada, com dezenas de colunas sustentando o teto curvo sobre um chão de terra batida. Um cachorro vira-lata aparece desde um terreno baldio ali ao lado e busca a sombra da obra para se proteger do sol de verão do Oriente Médio.

De frente para o Pavilhão, surgem construções com linhas inconfundíveis: Niemeyer esteve aqui.

Interior de edifício da Feira Internacional Rashid Karami que lembra a Oca, marco do Ibirapuera. O local tem um ambiente fantasmagórico - Marcel Vincenti/UOL - Marcel Vincenti/UOL
Ambiente fantasmagórico marca interior de edifício projetado por Niemeyer em Trípoli
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Uma delas, chamada Pavilhão Libanês, exibe uma fachada de arcos que lembra o Palácio Itamaraty (com a diferença de que, em Trípoli, a arcada é pontiaguda, em uma interessante semelhança com a estrutura das mesquitas mamelucas da cidade).

Linda, a construção também se assemelha a um fóssil encalhado no leito seco do que deveria ser um espelho d'água: seu esquelético interior exibe apenas uma rampa conectando dois níveis e um banheiro onde aparecem ervas daninhas, latas vazias e um colchão que, ao que tudo indica, vem sendo usado por algum sem-teto de Trípoli.

Uma das obras vizinhas do Pavilhão Libanês é um edifício projetado por Niemeyer para ser um centro de apresentações artísticas: seu exterior é quase uma miragem da Oca, marco do Ibirapuera, e, em seu interior, em um ambiente parcamente iluminado, predomina um clima de mausoléu.

Da abóbada de concreto, pendem dezenas de cabos de aço, e cada passo gera um fortíssimo eco, dando a impressão de que o visitante está sendo seguido. Em uma parede, uma pichação exclama: “Niemeyer para sempre”.

Centro histórico da cidade de Trípoli visto do alto de uma construção do século 13 - Marcel Vincenti/UOL - Marcel Vincenti/UOL
Centro histórico da cidade de Trípoli visto do alto de uma construção do século 13
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Lá fora, mais à frente, começa uma rampa que passa embaixo de um enorme arco de concreto, levando até um anfiteatro a céu aberto e que, hoje, ao lado do Pavilhão de Exposições, é uma das poucas obras de Niemeyer ativas da Feira Internacional Rashid Karami: ocasionalmente, o governo libanês tem promovido shows musicais no local.

Cuidando do jardim

A Feira Internacional Rashid Karami, porém, tem um lado muito bem cuidado. Aos edifícios de Niemeyer se juntam jardins floridos e simétricos.

Entre as árvores, aparecem três libaneses sujos de terra trabalhando incessantemente sob o forte sol de Trípoli. “Lógico que conheço o Niemeyer”, afirma Rabieh, 25 anos, um dos jardineiros que labutam no local. “Aqui, do Brasil, conhecemos futebol e Niemeyer. Os edifícios dele são lindos”.  

Rabieh, porém, se surpreende ao saber que o arquiteto faleceu em 2012, aos 104 anos. “Eu pensei que ele tivesse morrido nos anos 90, bem mais novo”. Seu chefe, um sexagenário chamado Mohammed, não se mostra tão fã do carioca: “minhas flores são mais bonitas”, afirma ele.

Tantos os jardineiros como as pessoas que a reportagem encontra no centro de Trípoli se apressam em afirmar, talvez ansiosos para ver algum turismo na cidade, que a metrópole libanesa não é perigosa. 

Trípoli é uma cidade com uma enorme comunidade muçulmana sunita. Nos últimos anos, o local, por sua proximidade com o território sírio, virou uma base para grupos armados (o Estado Islâmico entre eles) que combatem o regime de Bashar al-Assad e que, por tabela, têm entrado em conflito com as forças armadas libanesas - Marcel Vincenti/UOL - Marcel Vincenti/UOL
A guerra síria tem inflamado uma perigosa tensão sectária em Trípoli
Imagem: Marcel Vincenti/UOL
Porém, em entrevista ao jornal libanês "Daily Star", o analista de assuntos militares Hisham Jaber afirmou que "estabelecer um emirado islâmico no norte do Líbano [onde está Trípoli] é um objetivo de longo prazo do Estado Islâmico e da Frente al-Nusra".

Já o vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe do Brasil, José Farhat, tem uma visão diferente para o futuro da região. Em entrevista ao UOL, ele disse que o recente acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais "irá fortalecer o governo iraniano e, consequentemente, um de seus maiores aliados no Oriente Médio, Bashar al-Assad. Isso deve impor diversas derrotas ao Estado Islâmico e à Frente al-Nusra na Síria e diminuir seu potencial para ameaçar Trípoli".

A previsão pode ser uma boa notícia para a Feira Rashid Karami: a obra de Niemeyer sobreviveu à Guerra Civil Libanesa, mas dificilmente passaria incólume caso o Estado Islâmico conflagrasse completamente Trípoli, dada sua conhecida brutalidade sobre obras de valor artístico e histórico.        

O governo do Líbano, por sua vez, prefere falar de coisas boas: afirma que irá ativar todos os espaços da Feira Internacional Rashid Karami, prometendo construir, em breve, um cinema, um parque diversões e um hotel cinco estrelas no local.

Por enquanto, as obras não saíram do papel, dando margem para o trabalho de Niemeyer ser associado mais a um estado mortuário do que a um pulsante polo de eventos: “tudo está lá, exatamente como foi originalmente projetado. Mas tudo também se encontra em uma pausa permanente, congelado como um cadáver em estado criogênico”, diz o arquiteto Jad Tabet.    

*O repórter Marcel Vincenti viajou ao Líbano com o apoio da companhia aérea Turkish Airlines.