PUBLICIDADE
Topo

O Brasil vai enfim correr os 100m abaixo de 10 segundos? A chance aumentou

Robson Caetano acena na Vila Olímpica durante a realização dos Jogos de Seul-1988 - Wilson Melo/Folhapress
Robson Caetano acena na Vila Olímpica durante a realização dos Jogos de Seul-1988 Imagem: Wilson Melo/Folhapress

Daniel Takata*

Colaboração para o UOL,em São Paulo

06/08/2019 12h00

Lá se vão 31 anos. Na disputa do Ibero-Americano de 1988, na Cidade do México, o legendário Robson Caetano completou os 100m rasos em 10 segundos cravados.Cravados, mesmo. À época, essa era uma marca muito expressiva. Até aquela data, apenas seis corredores, na história, haviam corrido a distância abaixo dos 10 segundos. Um deles, o canadense Ben Johnson, teria suas marcas anuladas posteriormente por doping.

Robson encerraria a carreira com duas medalhas de bronze olímpicas, nos 200m rasos em 1988 e no revezamento 4x100m em 1996. Mas sem jamais conseguir correr os 100m abaixo dos dez segundos marcados na capital mexicana. Na verdade, nem ele, nem nenhum outro brasileiro. A barreira dos dez segundos é, até hoje, intransponível para corredores do país. Estatisticamente, os velocistas daqui nunca estiveram tão perto disso nos últimos dez anos.

Se na época de Robson Caetano era raro aparecer um atleta que corresse 100 metros abaixo dos dez segundos, até o final do ano passado já eram 137 corredores na história a terem alcançado o feito. Só em 2018 foram 19. Por isso, fica a pergunta: o quão perto estamos de ver um brasileiro atingir essa meta? Será que no Pan de Lima-2019 pode surgir algum candidato a rompê-la? A disputa na capital peruana começa com as semifinais a partir das 17h35 (horário de Brasília).

A resposta, por ora, é: aparentemente, estamos mais perto do que nunca. Acompanhe o UOL Esporte nesse raciocínio, seguindo estatísticas.

Um anúncio

Paulo André Camilo em 2019 - Xinhua/Zheng Huanson - Xinhua/Zheng Huanson
Em boa fase, Paulo André Camilo competiu na Universíade, em Nápoles, neste ano
Imagem: Xinhua/Zheng Huanson

No ano passado, a comunidade do atletismo brasileiro ficou em rebuliço. Primeiro, porque Paulo André Camilo correu os 100m em 10s02 no Troféu Brasil, em Bragança Paulista. Foi o segundo melhor tempo da história registrado por um brasileiro (igualando uma marca obtida por Robson Caetano em 1986), criando uma expectativa justificada para uma marca sub-10s. No Pan, Paulo André, paulista de 20 anos, e o catarinense Rodrigo Nascimento, de 25 anos, estão inscritos na disputa dos 100m rasos.

Além disso, outros dois corredores fizeram marcas próximas em 2018: Jorge Henrique Vides registrou 10s08, enquanto Derick Souza marcou 10s10. Foram oito corredores brasileiros com marcas iguais ou abaixo de 10s30 somente no ano passado. Não só temos um brasileiro bem perto dos 9s99, mas um volume de corredores que podem fazer a chance de a quebra da barreira aumentar. Jorge Henrique e Derick, por sinal, só vão competir em Lima no revezamento 4x100m.

A tabela abaixo indica o número de corredores brasileiros com tempos iguais ou abaixo de 10s30, por ano, bem como o tempo do mais rápido, nas últimas dez temporadas:

Note que em 2009 também oito brasileiros correram em 10s30 ou menos. No entanto, em 2009, nenhum corredor completou a distância abaixo de 10s10 . Na verdade, isso não acontecia desde 1999, quando André Domingos fez 10s06. E, em 2018, foram nada menos que três, os citados Paulo André, Jorge Henrique e Derick.

Esses dois aspectos - número de brasileiros correndo próximo dos dez segundos e a marca do melhor brasileiro - certamente causam impacto nas chances de superar essa marca, quando observamos essa relação na análise de resultados de outros países.

Fazendo as contas

Jorge Henrique Vides correndo na Rio-2016 - REUTERS/Dominic Ebenbichler  - REUTERS/Dominic Ebenbichler
Jorge Henrique Vides é um dos velocisas brasileiros que correu abaixo de 10s10 em 2018
Imagem: REUTERS/Dominic Ebenbichler

Por exemplo, houve 17 velocistas dos Estados Unidos correndo em 10s10 ou menos em 2017, sendo que o melhor tempo foi de 9s82. Era de se esperar que ao menos um americano registrasse tempo abaixo de 10 segundos em 2018, o que de fato ocorreu. Há exceções. Por exemplo, em 2017, o Japão teve um número razoável, seis, de corredores em 10s10 ou menos. Seu atleta mais rápido marcou 9s98. E, em 2018, nenhum japonês correu abaixo de dez segundos. Por outro lado, em 2013, o melhor corredor da África do Sul tinha exatamente 10s10, e no ano seguinte o país teve um atleta abaixo dos dez segundos - em um panorama bem desfavorável quando comparado à atual situação do Brasil.

Em geral, quanto mais atletas de um mesmo país correm em 10s10 ou menos em uma temporada e quanto melhor é o tempo do corredor mais rápido, aumentam as chances de o país ter ao menos um atleta abaixo de dez segundos na temporada seguinte.

Um modelo estatístico, denominado regressão logística, pode ser utilizado para calcular a probabilidade de um país ter um atleta abaixo dessa marca, hoje básica, em uma temporada, utilizando as informações da temporada anterior. Vale lembrar que o índice para classificação olímpica na prova é de 10s05. Esse é um dos modelos denominados de "machine learning", ou aprendizagem de máquina, em que alimentamos o computador com dados e as informações desejadas são retornadas. No caso, foram considerados dados dos rankings mundiais de atletismo de dez temporadas, até 2018.

Por exemplo, os Estados Unidos tiveram 16 atletas na casa dos 10s10 ou menos em 2018, e o tempo do melhor corredor foi 9s79. Pelo modelo, a probabilidade de haver um americano correndo abaixo de 10s em 2019 seria de 99,97% - de fato, cinco americanos já correram abaixo da barreira neste ano. Por outro lado, em 2017, o Brasil não teve ninguém para 10s10 ou menos, e o tempo do melhor atleta, Paulo André Camilo, foi 10s18. Com isso, a probabilidade de um brasileiro correr abaixo de dez segundos em 2018 era somente de 2,26%.

Em 2018, com três atletas e o melhor deles para 10s02, a probabilidade de um brasileiro correr abaixo de dez segundos em 2019 salta para 41,40%. Acompanhe os valores das probabilidades calculadas nos últimos anos:

Ou seja, nunca essa probabilidade esteve tão alta. Neste ano, Paulo André Camilo correu mais uma vez para 10s02, em abril, no Bryan Clay Meeting, nos Estados Unidos.

O fato de a probabilidade ser bem mais alta do que nunca não nos permite afirmar categoricamente que haverá um brasileiro correndo os 100m abaixo de dez segundos em 2019. Na verdade, a probabilidade de isso não acontecer, que é de 58,60%, é até um pouco maior do que a de acontecer. Mas os desempenhos dos atletas nunca deixaram a expectativa, refletida pela probabilidade calculada, tão alta.

Porém, se, nos anos anteriores, era praticamente certo que um brasileiro não correria os 100m abaixo sub-10s, em 2019 o panorama é totalmente diferente. E, ao contrário das outras temporadas, não será surpresa se o feito finalmente ser atingido neste ano. Vamos ver quando derem o tiro de partida no Pan.

*Daniel Takata é editor do Esportístico, site especializado em ciência de dados e estatística no esporte. Você pode ler mais sobre seu trabalho clicando aqui.