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Ao L!, especialista analisa possível 'mudança brutal' no lado comercial no futebol nacional com a MP 984

07/07/2020 07h40

A Medida Provisória nº 984, publicada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 18 de junho, alterou as "regras do jogo" e trouxe a discussão sobre os direitos de transmissão novamente para a pauta do futebol nacional. Junto às janelas que podem se abrir no país para os meios digitais, como testado por Flamengo e Vasco nas últimas semanas, a garantia dada aos clube mandantes como donos dos direitos pode ter grande impacto no futebol do ponto de vista comercial.

- Se isso mudar, de fato, e prevalecer dessa forma, será uma mudança brutal do ponto de vista de produto comercial. O futebol passa a ser um outro produto. De um mamute para um rebanho de outros animais menores. Isso tudo é no campo da suposição. Temos que ver se irá para frente ou se as partes irão se entender novamente e voltará a ser o que era. No mundo dos negócios, às vezes é preciso um movimento desse para que, depois, se volte a sentar na mesa de negociação. O Flamengo está usando de sua posição de liderança, de maior torcida, e está puxando esse trem. Vamos ver se aguenta o tranco - afirmou Luis Padilha, sócio-fundador da North Business Acceleration, ao L!.

Padilha fez uma análise de como as negociações, que há muitos anos são centralizadas com as emissoras de televisão, podem ser impactadas caso os clubes venham, de fato, a adotar um novo modelo de comercialização de seus direitos. Uma vez que a maioria dos clubes de elite tem negociados os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro até 2024, Luis vê o atual momento como chance do Flamengo, líder desse movimento, realizar experiências.

- São marcas que estão pegando uma carona no carro mais rápido do mercado para atingir mais gente. Esse carro se chama "transmissão dos torneios de futebol", que é o pacote de mídias da Globo. Sem ter bola de cristal, é que, se o caminho for mais fragmentado, mais individual, tem que ver qual o valor que isso terá para as marcas. As marcas pagam milhões e milhões de reais para se associar ao evento esportivo que tem um segmento nacional unificado. Quando uma cerveja coloca um anúncio no futebol da Globo, ela sabe que alcançará 15, 20, 30 milhões de pessoas ao mesmo tempo. O objetivo ao patrocinar o futebol na Globo é esse tiro de canhão. Ao fragmentar, você não tem mais esse tiro de canhão. São pequenos tiros. Isso vai gerar a entrada de marcas menores e mais segmentadas. Marcas que não poderiam associar-se pois não tinham dinheiro para comprar esse tipo de pacote, por ser uma marca de distribuição só do Rio de Janeiro. Agora, de repente, consegue negociar com o Flamengo, do Fluminense, do Botafogo, porque esses clubes passarão a negociar individualmente. Isso é melhor do que era? É difícil falar. Se for um movimento irreversível, vamos observar um grupo de marcas que nunca vimos.

Confira outras respostas de Luis Padilha ao LANCE!:

L!: O modelo adotado pelo Flamengo nos últimos jogos pode servir de modelo para os demais clubes brasileiros?

Luis Padilha: Vejo uma dificuldade de estabelecer um modelo novo no mercado, ou pelo menos terá que haver tempo para que isso aconteça. Uma marca que patrocina o esporte através de uma compra de um pacote de mídias de uma emissora de televisão alcança audiências enormes as quais as marcas têm interesses de se associar. E são audiências unificadas em um produto. Não é um produto de um time, de um campeonato. Quem gosta de ver futebol, vê o Estadual, vê o Brasileiro, e a audiência está consumindo esse produto. O que vejo, para o futuro, é uma incógnita. Se os times comercializarem o sinal de transmissão de forma independente, de uma certa forma, destrói o valor agregado de uma transmissão esportiva daquela categoria. O anunciante terá que ir atrás de cada um dos times para negociar sua presença naquelas transmissões. Algo que é centralizado, o que tem suas vantagens e desvantagens, passa a ser totalmente descentralizada se todos times seguirem esse caminho, fazendo a gestão de seu próprio jogo (como mandante). Do ponto de vista publicitário, do patrocínio, isso gerará um modelo totalmente novo. Para atingir um grande público na internet, tenho que comprar mídia em vários sites de conteúdos e de diversos tipos de segmento. Na televisão, consigo alcançar essas pessoas. Com um tiro mais grosso, eu alcanço todo mundo. O que vejo é que, por enquanto, é um teste. O Flamengo está sendo o que encampou a bandeira da independência e saiu sozinho. Agora eu quero fazer minha história sozinho. O que acontecerá com os outros times? É uma incógnita. Será que todos farão assim? Ou é um movimento de fragmentação que depois tentarão criar uma união. O clube dos 13, lá atrás, surgiu dessa forma. Um grupo de equipes que se juntou para ter uma voz mais alta nesse tipo de conversa.

L!: A estrutura do país, na questão da rede de internet, pode ser um obstáculo neste sentido?

?

LP: Temos um problema no Brasil, pois não temos banda. O Flamengo tem uma torcida enorme nas regiões norte e nordeste. São muitos torcedores nessas regiões. O problema é que esses caras não têm banda, muitos não têm internet (para uma transmissão via streaming), mas têm uma televisão em casa. E se não têm televisão em casa, eles vão ver no bar que têm na rua onde moram. É um problema de tecnologia para chegar a todo esse público. A conta básica que faço é que, se não chegar ao mesmo número de pessoas que chegava pela televisão, qual é a conta de chegada do clube? A quanto vou vender esse acesso? A plataforma não importa muito. Tem um problema de banda no Brasil. Um jogo que passa para o Brasil inteiro atinge uma massa que, sinceramente, não atingirá no digital. As pessoas não têm. É um assunto que se desenvolverá pelas próximas semanas.

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