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Rui fiscalizava catraca por amor ao futebol. Hoje comanda o Atlético-MG

Rui Costa é diretor de futebol do Atlético-MG há quatro meses - Bruno Cantini/Divulgação/Atlético-MG
Rui Costa é diretor de futebol do Atlético-MG há quatro meses Imagem: Bruno Cantini/Divulgação/Atlético-MG

Thiago Fernandes

Do UOL, em Belo Horizonte

09/08/2019 04h00

Rui Costa é quem lidera o futebol do Atlético-MG há quatro meses. Contratado pelo presidente Sérgio Sette Câmara, ele tem autonomia para definir as diretrizes de um grande clube do país. A situação é semelhante à que ele viveu em Grêmio e Chapecoense. Mas a sua carreira nem sempre esteve ligada à gestão no esporte.

Advogado por formação, Rui Costa começou a trabalhar no futebol por amor ao Grêmio. Ainda sem remuneração, o então jurista costumava fazer a fiscalização de catracas na entrada do estádio Olímpico.

"Eu comecei no futebol em 2000. Eu era advogado, formado há bastante tempo, eu me formei em 1994. O futebol sempre fez parte da minha vida. Desde muito cedo, fui a campo. Como todo menino, eu tive muita vontade de jogar futebol, mas não tinha talento. Eu sempre gostei muito de futebol, nunca imaginei que um dia trabalharia no e com o futebol. Em 2000, pela identificação que tinha com o Grêmio, comecei um trabalho como dirigente abnegado", disse em entrevista de quase uma hora ao UOL Esporte.

"Já era advogado, com certo nome no mercado, eu fazia um trabalho que me orgulhava muito. Ficava na portaria dos estádios controlando a entrada. Isso era um teste em que éramos submetidos para saber até quanto aguentaríamos contribuir no futebol. Tínhamos um grupo de advogados de escritórios qualificadíssimos e nós ficávamos fiscalizando as catracas. Era uma coisa que nos dava possibilidade de entender a relação do torcedor com o clube. Muitos falavam, 'eu pago o seu salário'. Eles mal sabiam que estávamos lá por amor ao clube", acrescentou.

O amor ao esporte permitiu que Rui Costa ganhasse mais espaço dentro do clube de coração. Por conta da formação superior, passou a trabalhar na área jurídica. Somente em 2010, aos 38 anos, surgiu a primeira oportunidade no departamento de futebol. O presidente Duda Kroeff deu a ele a primeira chance de agir no futebol da equipe. Ainda sem receber, ajudou a classificar o time para a Libertadores do ano seguinte.

"O Grêmio era o 19º colocado quando ele nos anuncia. As pessoas não entendiam como o Grêmio colocava dois jovens no futebol. Ali comecei a minha primeira experiência no futebol ao lado do Renato Portaluppi. Saímos da 19ª posição para o quarto lugar do Campeonato Brasileiro e participamos da Libertadores. Isso me marcou muito profundamente, porque eram dois jovens muito desacreditados. As pessoas diziam que era uma loucura entregar o futebol do Grêmio a dois jovens. Eu não era diretor de futebol, mas era muito atuante", comentou.

Rui Costa é diretor de futebol do Atlético-MG desde abril passado - Bruno Cantini/Divulgação/Atlético-MG
Rui Costa é diretor de futebol do Atlético-MG desde abril passado
Imagem: Bruno Cantini/Divulgação/Atlético-MG

A volta ocorreu com Fábio Koff, em 2013. Depois de atuar na campanha que culminou na eleição do histórico presidente gremista, Rui Costa foi chamado para trabalhar como diretor de futebol da equipe. O convite mudou a sua vida. Sem titubear, ele deixou a advocacia de lado para se tornar dirigente remunerado do time de coração. O início foi repleto de críticas, mas o trabalho surtiu efeito, e o clube se classificou por três anos seguidos à Libertadores.

"Nunca pensava em dirigir um clube de futebol como diretor remunerado, mas talvez como presidente, que foi para o que me preparei. Ali, deixo de ser advogado atuante para me dedicar exclusivamente à atividade de diretor de futebol. Não preciso dizer o quanto de pau eu tomei. Havia divergências políticas que colacionei esses anos todos. Vivi as inaugurações da Arena do Grêmio e do CT, havia a expectativa de que o Grêmio fosse o Real Madrid do Brasil. Ao mesmo tempo, o torcedor achava que a simples presença do presidente Fábio André Koff faria do Grêmio um campeão de tudo novamente. Montamos uma grande equipe, participamos de três Libertadores e o clube sempre foi protagonista", afirmou.

A saída do Grêmio foi em maio de 2016, já sob a batuta de Romildo Bolzan. Embora já tivesse mostrado o seu valor no clube do coração, Rui Costa queria uma chance fora do Rio Grande do Sul para ratificar a a sua posição no mercado. Em novembro de 2016, ele foi convidado para ajudar na reconstrução da Chapecoense. A proposta chegou logo após o acidente aéreo ocorrido na Colômbia.

Mais uma vez, Rui Costa não titubeou. No dia seguinte, viajou a Chapecó para acertar a sua mudança ao clube. Foram 20 meses na Arena Condá e uma classificação à Libertadores conquistada no decorrer do Brasileirão.

"Foi um período de luto, orgulho, brigas, mas que me orgulho muito. Transformamos a Chapecoense em um clube vencedor. É uma cidade que vivia muito a partir de seu clube. Foi um marco na minha carreira. Pude usar a minha experiência de Grêmio lá e termina com a classificação da Chapecoense para a Libertadores para 2018 no campo. Ficamos em oitavo lugar e fomos campeões do segundo turno do Campeonato Brasileiro", declarou.

Quarenta dias após deixar a Chapecoense, Rui Costa acertou a mudança para o Athletico-PR. Em um clube com modelo totalmente distinto do que estava habituado, o diretor de futebol conseguiu o maior título de sua carreira: a Copa Sul-Americana 2018.

"Fui para o Athletico Paranaense, um clube empresarial, com processos empresariais, ritos empresariais, com relações de negócio. O clube estava em um momento difícil, mas pude me adaptar ao clube, até a própria questão de gestão, porque eu era coordenador de futebol, não um diretor-executivo. Era um processo muito mais diversificado em termos de controle. A gente termina o campeonato em uma posição muito interessante para o Athletico. Nós, executivos, somos avaliados pelas medalhas que temos, não pelo legado que deixamos. O Athletico Paranaense me proporcionou isso", contou.

Presidente Sette Câmara (à esquerda) foi quem convidou Rui Costa para o Atlético-MG - Bruno Cantini/Divulgação/Atlético-MG
Presidente Sette Câmara (à esquerda) foi quem convidou Rui Costa para o Atlético-MG
Imagem: Bruno Cantini/Divulgação/Atlético-MG

A saída do Furacão ocorreu no início de 2019 depois de divergências com a diretoria. Em menos de quatro meses, Rui Costa teve a chance de assumir o futebol do Atlético-MG. O acerto era para depois das finais do Campeonato Mineiro. No entanto, por conta da crise vivida na Cidade do Galo, foi chamado antes até da data combinada. A primeira ação foi aprovar a demissão de Levir Culpi. Mesmo há pouco tempo no cargo, já foi alvo de críticas e elogios.

"Começaria após os jogos das finais do Campeonato Mineiro. O presidente me disse que a situação estava difícil e insustentável e precisava de mim. Começamos o trabalho um pouco antes do que imaginávamos. Eu disse para ele que isso fazia parte do pacote. Se era para tomar porrada, tínhamos que tomar porrada juntos. Diziam que o nosso grupo não tinha raça, que era ruim. Tinham a expectativa que mudaria tudo e todos. Não faria isso, porque não seria inteligente e nem profissional. Não seria correto achar que estava tudo errado, porque não estava. Foi um trabalho de muita convicção e autonomia que me foi dado", relatou.

"Eu tinha capacidade e autonomia para diagnosticar e agir. Foi difícil, mas pude me conectar de forma mais sólida com o clube. Eu encontrei um Atlético escancarado, as coisas eram visíveis. Estamos trabalhando, no dia 12, eu completo quatro meses de Atlético", concluiu.

Hoje, sob a batuta de Rui Costa, o Atlético-MG vive um momento um pouco melhor do que o encontrado há quatro meses. O Galo é o quarto colocado do Brasileirão, com 24 pontos, oito a menos que o líder, e está nas quartas de final da Copa Sul-Americana.

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