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Rodrigo Coutinho

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Não é difícil compreender a queda de produção do São Paulo

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

16/06/2021 09h36

Um dos fatos mais decepcionantes das três primeiras rodadas do Brasileirão 2021 é o desempenho do São Paulo. Não só pelos resultados, duas derrotas e um empate, o que o Tricolor mostrou em campo nas últimas semanas é distante daquilo que apresentou em outros momentos desta temporada. Numa avaliação mais profunda, é possível entender a oscilação. O que não quer dizer que uma solução não precisa ser encontrada rapidamente.

O São Paulo desempenhou um futebol bem agradável até aqui no ano. Certamente foi o time que chegou mais próximo do rendimento necessário para afetar a hegemonia de títulos de Flamengo e Palmeiras no Brasil. Intensidade altíssima em todas as fases do jogo, organização para se estabelecer no campo de ataque, e a estratégia de empurrar os adversários para trás. Isso não apareceu recentemente. Vamos aos motivos.

Desfalques importantes. Substitutos abaixo

Mesmo tendo um elenco com boas opções no banco, o Tricolor, como qualquer equipe, possui jogadores determinantes para o funcionamento de uma proposta de jogo. Três deles estão há algum tempo fora. Benitez e Daniel Alves, por lesões, e Arboleda, primeiro por indisciplina e depois por convocação para a Copa América.

O argentino vinha sendo peça-chave como um dos meias que atuam por trás do centroavante. Com característica única no plantel, possui uma leitura de posicionamento nas costas dos volantes adversários acima da média e importante para que os demais jogadores o acionem ali.

Gabriel Sara e Igor Gomes, que o substituem, não têm demonstrado esse mesmo entendimento, e não possuem a mesma eficiência no último passe, a mesma inventividade em espaços curtos, por mais que se movimentem muito mais que Benitez e auxiliem defensivamente.

Daniel Alves é um líder técnico e hierárquico. Mesmo quando não está tão bem, acrescenta. Vinha jogando na ala-direita e qualificando demais os passes na zona de articulação das jogadas. Se não dá o mesmo ímpeto de Reinaldo pela esquerda, é muito acima da média na organização do time a partir de passes que rompem a linha de meio-campo rival e encontram companheiros mais perto da área.

Igor Vinícius e Orejuela são as opções, mas ambos não deram a resposta neste momento e Crespo vem preferindo improvisar o atacante Rigoni no setor. O argentino elevou o nível e não teve momentos ruins na ala-direita, mas não é um especialista da função, muito menos um Daniel Alves, o que faz a qualidade e a imposição do time diminuírem.

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A conexão ''Dani Alves-Benitez'' tem feito falta ao São Paulo. Qualidade do brasileiro para acionar o argentino nas costas da linha de meio rival. Benitez, por sua vez, tem essa leitura do espaço bem apurada
Imagem: Rodrigo Coutinho

Já Arboleda, mesmo não contribuindo tanto para a construção ofensiva, representa uma proteção à área bem eficiente. O equatoriano é o zagueiro do Tricolor que melhor se encaixa no sistema de marcação de Crespo, que prega os encaixes e perseguições como modelo. Tem velocidade, força, potencial de antecipação.

Bruno Alves é um jogador confiável, mas não entrega o mesmo que Arboleda pela direita da zaga. Léo, que produz mais com a bola, oscila defensivamente. Miranda, que também se lesionou recentemente, faz um papel mais central no trio defensivo.

Apatia e queda física depois da mobilização

O São Paulo não vencia um Campeonato Estadual desde 2005. 16 anos depois, voltou a levantar o caneco sob o comando de Hernán Crespo. Não que este fosse o principal objetivo da temporada, mas era algo que incomodava a diretoria e a torcida, o que acabou gerando poder de mobilização em torno da conquista. O treinador chegou a poupar os titulares em jogos da Libertadores para priorizar o Paulistão. Com o objetivo alcançado, é natural uma queda de concentração.

Os próprios efeitos físicos de uma sequência forte e em alta intensidade começam a aparecer. A imposição do time nesse aspecto foi bem visível em diversos jogos. Circulação rápida de bola, movimentos agressivos no ataque, chegada em massa à área, reação rápida e em bloco ao perder a posse e, muita pressão em cima do adversário com a bola, foram fatores frequentes. Algo que não vem se repetindo. Oscilações são normais ao longo de um ano, mas já começou a passar do ''ponto aceitável''.

É tempo de reagir

São apenas três rodadas do Brasileirão e há muito tempo para se recuperar, mas certamente a projeção de pontos inicial estava bem acima dos 11% de aproveitamento até aqui. A derrota para o frágil 4 de Julho pelo jogo de ida da Copa do Brasil também serve de sinal de alerta para uma sequência pesada que vem pela frente com Libertadores da América. Vencer o Estadual foi importante, mas fracassar de forma retumbante em outros objetivos da temporada apagará o feito e prejudicará o trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL