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Documentário retrata luta dos povos originários pelo rap indígena de Owerá

Owerá é personagem principal do doc "Meu Sangue É Vermelho" - Divulgação
Owerá é personagem principal do doc "Meu Sangue É Vermelho" Imagem: Divulgação

Mara Barreto Sinhosewawe Xavante

Colaboração para Ecoa, de Tubarão (SC)

01/10/2021 06h00

O talento musical em forma de protesto do jovem rapper indígena Owerá é o ponto de partida para o documentário "Meu Sangue É Vermelho" mostrar a realidade "nua e crua" das perseguições, lutas e genocídio que os povos originários têm sofrido no Brasil.
Por meio de relatos chocantes e emocionantes dos guardiões dos territórios sagrados e a jornada de visitações de Owerá a aldeias do Maranhão e de Mato Grosso do Sul, o filme vai tecendo a história de um povo que só deseja viver em paz e tranquilidade em suas comunidades."Além dos ferimentos que ficam nos corpos, existe uma marca que fica na alma da gente, estamos lutando para aprender a conviver com essa marca da violência. Arrancar a raiz dessa terra é perder a própria razão de existir", relata o cacique Inaldo Gamela, do Maranhão.

Mais conhecido por seu antigo nome artístico, Kunumi, o jovem da etnia Guarani M'BYA verbaliza por intermédio de suas letras e batidas musicais a conscientização e protestos contra injustiças sociais que seu povo vem sofrendo, principalmente nos dias atuais.

Owerá começou a mostrar o talento desde muito cedo. Aos 9 anos escreveu seu primeiro livro literário, lançado quatro anos depois, em 2014, com o título "Contos Konamins Guaranis". No mesmo ano, lançou também o livro "Kunumi Guarani". De lá para cá, passou a se dedicar à música e se tornou a principal referência do rap indígena do Brasil. Em "Meu Sangue É Vermelho", Owerá emociona-se ao conhecer o ídolo Criolo, um dos maiores rappers da atualidade, que assume uma posição de mentor do jovem ao longo das gravações.

"Fico muito feliz com a valorização e sucesso do meu trabalho em todo o mundo. Mas não pretendo sair da aldeia. Ainda moro em uma casa de madeira pequena e quando passamos frio, acendemos uma fogueira e nos aquecemos tomando nosso chimarrão e cantando os nossos cantos tradicionais pois esse é o nosso modo de vida", comenta Owerá, cuja maior preocupação é com as crianças de sua comunidade.

Owerá e Criolo no documentário "Meu Sangue É Vermelho" - Divulgação - Divulgação
Owerá e Criolo no documentário "Meu Sangue É Vermelho"
Imagem: Divulgação

Símbolo na Copa do Mundo

Quando a Copa Do Mundo de 2014 se aproximava e a organização acertava os detalhes para a tradicional festa de abertura, a aldeia do Owerá foi convidada por um dirigente da Fifa a participar com três jovens na cerimônia. Na época, ele tinha apenas 13 anos e o cacique teve de pedir permissão a seu pai, Olívio Jekupé, para a viagem até São Paulo. Naquele 12 de junho de 2014, Owerá se posicionou no centro do gramado do Itaquerão e soltou uma pomba branca, ao lado de outros dois jovens, um menino negro e uma menina branca. Mas ele tinha outros planos. Aquela cena, relembrada agora no documentário, rodou o mundo: Owerá abriu uma faixa com o grito dos povos indígenas "Demarcação Já".

Dos três meninos escolhidos pela comunidade, somente ele teve coragem de esconder a faixa na cueca, a pedido do cacique e lideranças indígenas.

"Meu objetivo naquele momento foi representar a paz e meu povo, sem falar nada, apenas mostrando a faixa simbolizando a nossa causa, que o povo indígena necessita de demarcação urgente. Fiquei muito feliz pela oportunidade, pois houve uma mudança significativa na visibilidade da nossa luta, mas ainda nos falta muito para melhorar. Essa causa não deveria ser somente nossa, pois lutamos pelo bem-estar de todos na preservação da natureza e contra o aquecimento global", disse a Ecoa.

Cena do documentário "Meu Sangue É Vermelho" - Divulgação - Divulgação
Cena do documentário "Meu Sangue É Vermelho"
Imagem: Divulgação

Luta contra ciclo de violências

Além de Owerá, o documentário apresenta lideranças de diferentes etnias, que compartilham sua luta e suas dores. "O grão que sai desse estado tem sangue indígena, a carne que sai desse estado tem sangue indígena, tem sangue de criança indígena e de pai de família aqui derramado", disse Jucinei Terena, da aldeia Buriti, em Mato Grosso do Sul.

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra ( CPT), o índice de crescimento da violência contra vidas indígenas no país é alarmante. Os povos indígenas foram o terceiro maior alvo em conflitos de terra entre 2009 e 2020, ano em que os conflitos atingiram recorde no país.

"Desde de 1.500 com o primeiro golpe na chegada dos portugueses em nossas terras, meu povo vem sofrendo, não é de agora. Lutamos pela demarcação do que nos pertence por origem e direito, espiritual e historicamente. Queremos apenas viver em paz em nossas terras. Sofremos muitos preconceitos, pois os urbanos questionam nossa presença, mas estamos no mesmo lugar. A cidade que está sufocando e tomando conta dos nossos territórios, poluindo nosso habitat natural, nos forçando a trabalhar duro para nossa sobrevivência e, por isso, protestamos ao mundo a nossa realidade com nossas múltiplas artes, incluindo a música", afirma Owerá, que está em estúdio trabalhando o novo álbum, "Mbaraeté", que significa "força e resistência" e tem previsão de lançamento em 2022.

"Meu Sangue É Vermelho", de Vicent Carelli, foi lançado no dia 24 de setembro para todo o país e está disponível digitalmente no Vimeo. O filme recebeu várias indicações em festivais internacionais e levou 17 prêmios.

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