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Empresas que mudam

Empresas que mudam

Entre xadrez e capoeira, Agência Gana é formada apenas por pessoas negras

Na foto, Mano Brown (ao centro), acompanhado pela diretora executiva Renata Hilario; Ary Nogueira, CEO da Agência Gana; Eliane Dias e Kaire Jorge, da produtora Boogie Naipe; e Gilvana Viana e Jaque de Paula, da produtora Mugshot - Jef Delgado/Divulgação
Na foto, Mano Brown (ao centro), acompanhado pela diretora executiva Renata Hilario; Ary Nogueira, CEO da Agência Gana; Eliane Dias e Kaire Jorge, da produtora Boogie Naipe; e Gilvana Viana e Jaque de Paula, da produtora Mugshot Imagem: Jef Delgado/Divulgação

Paula Rodrigues

de Ecoa, em São Paulo (SP)

02/09/2021 06h00

Era 2012 quando os publicitários Ary Nogueira e Felipe Silva se trombaram pela primeira vez. Os dois trabalhavam em agências diferentes, só que no mesmo prédio em São Paulo (SP). Se trombaram nos corredores, descobrindo que tinham muito em comum, especialmente quando se tratava do Rio de Janeiro e do Flamengo.

Mas foi outra coisa que chamou atenção. "Quando encontrei esse cara, eu fiquei em choque! Foi tipo: 'tem outro preto em criação aqui?' ", conta Ary, lembrando que quase sempre foi o único negro nos projetos em que trabalhava.

Por isso, quando Ary e Felipe, coincidentemente, foram trabalhar na mesma agência, as conversas sobre fazer algo, que unisse mais a galera preta da área, começaram a surgir. Tiveram a ideia, então, de montar o coletivo Gana.

Seguiram assim até começo de 2020, quando se estruturaram como a Agência Gana, responsável por desenvolver a parte visual de empresas e marcas como o guaraná Kuat (do grupo Coca-Cola), veículos de imprensa como a Ponte Jornalismo e, mais recentemente, o "Mano a Mano", podcast original do Spotify, que é apresentado por Mano Brown, mais importante rapper do país. Tudo 100% pensado e desenvolvido por pessoas negras.

De coletivo à agência

Ary Nogueira - Jef Delgado - Jef Delgado
O publicitário Ary Nogueira, CEO da Agência Gana
Imagem: Jef Delgado

"O coletivo tinha uma galera ali que trabalhava em outros lugares, e dedicávamos nosso tempo livre para ajudar com a publicidade, produzindo camisetas e bandeira, por exemplo, das causas que a gente acreditava, como a passeata contra o genocídio do povo preto da Santos Marques, lá no Capão Redondo. Mas já existia vontade de fazer mais e de levar isso para dentro do mercado", conta Felipe.

Algumas coisas acabaram acelerando esse processo de transformar um coletivo em agência. A primeira foi quando os dois deram uma palestra no festival Clube de Criação, maior evento de criatividade e publicidade do Brasil.

Se prepararam para o momento fazendo mapeamento de tudo relacionado à criação por parte de pessoas negras, como música, arquitetura, design e outras artes. "A gente queria mostrar o poder da criatividade preta que estava sendo excluída da publicidade", explica Ary.

100% negra

Depois, veio a pandemia e no final de 2020 chegou a possibilidade de concorrer com outras agências por um cliente grande. Os dois montaram uma equipe de dez pessoas negras para criar um projeto que seria apresentado para a marca. Apresentaram a estratégia criativa e acabaram conquistando o famoso "job".

Segundo eles, a parte mais fácil dessa empreitada de montar uma agência do zero sem ter uma bolada na conta ou algum patrocínio, foi sem dúvidas a parte de contratação. "Quê? Para montar a equipe?", questiona Felipe, e ele mesmo responde: "Foi assim, ó", diz estalando os dedos.

"Nós estamos há muito tempo na publicidade, então acompanhamos essa chegada de cada vez mais pessoas pretas no mercado. Fora que a gente passou a mapear essas pessoas, inclusive com ajuda do Publicitários Negros, que é um grupo de Facebook que reúne gente da área.

Atualmente, o quadro de funcionários é de dez pessoas trabalhando fixo e mais sete freelancers, sendo que desde o começo quase 100 pessoas já passaram pela Gana, para desenvolver trabalhos temporários. Muitas, inclusive, fora do "lugar viciado da propaganda", como define Felipe se referindo ao eixo Rio-São Paulo.

Se a gente vai fazer um trabalho sobre ou no Pará, por exemplo, não adianta achar que a gente conhece as coisas por lá. Pô, eu sou de Niterói (RJ) e o Ary é lá de Ilha do Governador, e moramos em São Paulo. Então, eu preciso trabalhar também com gente da região que vai falar para mim como é aquela região de verdade. Só que o mercado se formou com pessoas indicando os amigos para as vagas. A gente quer descentralizar esse mini Brasil que vive na publicidade achando que o país se resume a Rio e São Paulo.

Felipe Silva, CEO da Agência Gana

Mistura de xadrez com capoeira

Felipe Silva - Divulgação - Divulgação
O publicitário Felipe Silva, CEO da Agência Gana
Imagem: Divulgação
Foi escutando uma música do rapper Parteum que Felipe se inspirou para criar a metodologia que eles desenvolvem na Agência Gana hoje. "Xadrez com capoeira o tempo inteiro", canta o músico. E assim, nessa mistura de xadrez com capoeira, segue a empresa.

Para explicar melhor, Felipe diz que a parte do xadrez, a estratégia, começa quando eles passam a contratar as pessoas necessárias para garantir os bons resultados que precisam ser entregues em qualquer empresa. "Essas pessoas que trabalham hoje conosco não estão aqui só por questão racial, estão aqui porque nós conhecemos as métricas, os dados e os resultados que a gente precisa entregar."

"Mas temos também o outro lado, que é a capoeira, que é essa inspiração negra e periférica, que é essa potência criativa dessas pessoas. Culturalmente e criativamente falando, a maior parte do que o Brasil exportou foi criado pelo povo preto. A ideia é unir esses dois lados que a gente tem", completa.

Os dois afirmam que isso acaba influenciando principalmente na hora da criação. Dizem que é comum receberem profissionais com medo de dar ideias ou expor opiniões por causa do passado em outras empresas que não costumam olhar para os profissionais com mais cuidado e acabam "expelindo", como diz Ary, essas pessoas da área e não aproveitando as ideias boas que elas possam ter.

"Eu estou sempre provocando a molecada falando que eu não quero que eles tragam referências, sei lá, londrinas, nova-iorquinas. Eu quero ver as coisas que eles viveram no terreiro que eles frequentam, sabe? É isso que eu quero botar na rua."

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