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É possível salvar o capitalismo? Documentário oferece soluções

Robert Reich durante protesto nos Estados Unidos  - Getty Images
Robert Reich durante protesto nos Estados Unidos Imagem: Getty Images

Camilla Freitas

De Ecoa, em São Paulo

06/08/2021 06h00

O que você sente quando se depara com uma notícia como essa: "Economia do Brasil cresce 1,2% no 1º trimestre"? A impressão é que, voltando a crescer, o país vai gerar mais empregos e a sua vida vai melhorar, certo? Mas aí surge outra notícia: "Desigualdade aumenta e 1% da população concentra 50% da riqueza no Brasil". É sobre esses dois temas, desigualdade e economia, que trata o documentário "Salvando o Capitalismo", disponível na Netflix.

Esse texto, assim como o filme, não abordará questões econômicas de maneira complexa. A ideia de trazer essas duas notícias recentes é aproximar o documentário, que fala sobre os Estados Unidos, da realidade brasileira. Afinal, vivemos sobre o mesmo sistema econômico, o capitalismo. E, apesar das diferenças, podemos traçar alguns paralelos entre os dois países.

"Salvando o Capitalismo" acompanha Robert Reich, ex-secretário do trabalho do presidente Bill Clinton e professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. Autor de livro com o mesmo nome, Reich conversa com pessoas de estratos sociais diferentes para entender como elas atuam dentro desse sistema.

Um fazendeiro, um lobista, uma empresária, uma estudante, uma caixa de um restaurante fast food e políticos contam, a partir de suas perspectivas e vivências, como o trabalho os ajuda — ou não — a viver no país. A ideia de Reich com essas conversas é aproximar a economia do dia a dia das pessoas e mostrar como algo tão complexo como o sistema econômico no qual vivemos nos afeta diretamente.

O que há de errado com o capitalismo?

Dizer que o capitalismo precisa ser salvo, como propõe o título do filme, nos levanta duas questões. Uma delas pode ser "se o capitalismo precisa ser salvo, há algo de errado com ele. Mas o que?". A outra, um pouco mais direta, é: "como salvar esse sistema?".

Didaticamente, o filme busca responder a primeira questão no início. Para Reich, o capitalismo não é em si um problema, mas sim o capitalismo de compadrio. O nome pode ser confuso, mas o conceito é simples de explicar e talvez você já o conheça. O capitalismo de compadrio descreve a influência que os empresários têm na política.

Desde 2015, no Brasil, é proibida a doação de empresas a políticos. Nos Estados Unidos, contudo, essa prática é válida. Doando milhões de dólares a candidaturas, setores econômicos fazem valer sua participação até em criações de leis. Nesse cenário, a pressão popular pouco influencia as decisões políticas.

Por meio do discurso em defesa do livre mercado, ou seja, da não influência do Estado na economia, leis foram aprovadas nos Estados Unidos para dar mais poder às empresas. Um exemplo utilizado no filme é o complexo de indústrias farmacêuticas que usaram sua influência sobre congressistas para fazer valer seu interesse de não controle do governo sobre o preço dos remédios.

O resultado disso é que os estadunidenses mais pobres e desempregados precisam se endividar para comprar remédios aos preços determinados pelas indústrias. Não há, como existe no Brasil, uma opção mais barata ou gratuita garantida pelo Estado.

Essa influência de grandes empresas é, para Reich, o grande problema do capitalismo junto com a desigualdade. O documentário mostra por meio de pesquisas e infográficos explicativos que o crescimento da economia não costuma ser igual para todos. Aqui, Estados Unidos e Brasil se aproximam novamente.

É característica marcante dos dois países a desigualdade social. Em uma de suas palestras mostradas no filme, Reich diz que apesar do grande crescimento econômico, a classe média estadunidense não viu seu salário aumentar, pior, o viu diminuir tendo em vista o aumento do preço dos produtos.

O problema da desigualdade, para Reich, é a perda de influência política. Quanto mais pobre, mais a população desacredita dos setores políticos porque não se sente representada e sim injustiçada. O filme, lançado em 2017, mostra como esse sentimento foi uma das bases da eleição de Donald Trump.

Como salvar esse sistema?

A solução proposta pelo documentário é a união da população para que ela possa fazer frente ao conluio de empresários. Essa união pode se dar, entre outras apresentadas, através de sindicatos.

É por meio de sindicatos que os trabalhadores podem se unir em prol de uma causa comum. No exemplo posto em "Salvando o Capitalismo" está o salário mínimo. Em 2016, a Califórnia se tornou o primeiro estado a adotar um salário mínimo de 15 dólares por hora trabalhada e isso só foi possível mediante a organização de trabalhadores.

Reich aposta também nas gerações mais jovens. Para ele, o ativismo é uma força importante para mudanças sociais profundas dentro do próprio capitalismo. O ex-secretário acredita que, com maior participação popular, é possível salvar o capitalismo e diminuir as desigualdades.

A forma de recuperar a nossa economia é a mesma forma de recuperarmos a nossa democracia. Nos unindo e criando instituições que equilibrem o poder das maiores corporações, dos maiores bancos e dos mais ricos. Cidadania é mais que votar. Cidadania é participar, envolver-se e criar tumulto quando necessário. É nossa responsabilidade fazer esse sistema funcionar.

Robert Reich em depoimento no filme "Salvando o Capitalismo"

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