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Todos os seres são um mundo em "Pequena Enciclopédia dos Seres Comuns"

Paula Rodrigues

de Ecoa, em São Paulo (SP)

09/07/2021 06h00

Veja só como certos bichos são mais parecidos com a gente do que se pode imaginar: a Maria-barulhenta, um pássaro marrom que canta muito alto, gosta também de dançar, ela "faz do corpo seu próprio jogo, entregando-se inteira ao ritmo dos sons do entorno". O peixe-boi-da-Amazônia, por sua vez, prefere mesmo é dormir muito, enquanto o mico-leão prefere acordar cedo. E o que dizer da perereca-cabrinha que é gente como a gente, sempre interessada em fofocar com as amigas, mas "com muito cuidado para que os girinos não ouçam seus mexericos e que os espalhem pelo brejo inteiro"?

No livro "Pequena Enciclopédia de Seres Comuns", a escritora e professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Maria Esther Maciel faz poesia enquanto traz para o leitor uma mistura de biologia com ficção. Inclusive, logo nas páginas iniciais, a dedicatória é para Zenóbia, uma zoóloga apaixonada por botânica que Maria criou para ser metade personagem fictício, metade alter ego, ou seja, o "outro eu" da autora.

Foram 76 verbetes escolhidos para serem contados por ela. São tipos de bichos, plantas, flores e seres humanos. Vai dos mais conhecidos, como a Maria-fedida, inseto conhecido por soltar um fedor absurdo — mas que fique registrado que ela só faz isso para se defender — até os mais curiosos, como o João-cachaça, um peixe carnívoro que gosta de ficar pelas águas de Pernambuco. Vale a pena ler o livro para saber o motivo do apelido que o bicho ganhou na imaginação de Maria.

"Eu procurei enfatizar esse seres, como seres que têm uma subjetividade, têm um olhar para o mundo, têm seus próprios saberes, têm suas linguagens intraduzíveis, mas possíveis de serem traduzidas pela imaginação de quem escreve", explicou Maria Esther na live de lançamento do livro pela Editora Todavia, em maio deste ano.

A escolha desses personagens se deu pela identificação pessoal da escritora com cada um deles. Mas além da opção por falar apenas daquelas e daqueles com nomes de João, Maria, viúvas e dos híbridos (que são animais com pais de diferentes espécies), a enciclopédia não possui outra categorização. Quer dizer, não tem essa de em um capítulo se fala de humanos e no outro de animais — na literatura da autora, assim como na vida real, todos os seres da natureza estão misturados e conectados.

Uma página pode trazer informações sobre o rato-toupeira-pelado (um bicho "interessante, para não dizer estranho", como descrito, de pele enrugada, sem pelo e com dentes para fora que vive no nordeste do continente africano), e na outra você se depara com uma gostosa definição daquele tipo de pessoa que a gente não considera boa coisa na praça, que sempre é vista como influenciável ou sem personalidade até: a Maria-vai-com-as-outras.

De um jeito simples e lúdico "Pequena Enciclopédia de Seres Comuns" informa sobre alguns desses seres enquanto informa sobre os riscos que correm. A maioria dos escolhidos para serem retratados no livro correm risco de desaparecer por causa de queimadas ou mudanças climáticas, consequência da ação humana no habitat natural de cada um.

Talvez faça isso para que as pessoas terminem a leitura querendo ser um pouco como a Maria-vai-com-as-outras, aquele tipo de pessoa que a gente não considera boa coisa na praça, que sempre é vista como influenciável ou sem personalidade até, mas que, na imaginação da autora, pode ser, na verdade, uma humana solidária.

"Se ela vai com as outras Marias, é sobretudo para ajudá-las. E não importa que as outras sejam aves, insetos, plantas ou crustáceos, pois todas as criaturas lhe são caras", escreve Maria Esther Maciel em seu belo "Pequena Enciclopédia de Seres Comuns".

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