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Fashion stylist cozinha em casa e doa marmitas para população de rua em SP

Cuca Elias diz que já alimentou muita gente com suas ações, e alimenta a si mesmo com tamanho aprendizado - Arquivo pessoal
Cuca Elias diz que já alimentou muita gente com suas ações, e alimenta a si mesmo com tamanho aprendizado Imagem: Arquivo pessoal

Ana Aoun

Colaboração para o Ecoa, de São Paulo

08/04/2021 06h00

Há quem imagine que a vida de Ana Paula Elias Salhani é feita só de glamour. Fashion stylist de renome, responsável por vestir celebridades para festas e capas das mais importantes revistas do país, Cuca Elias, como é mais conhecida, transita em um círculo de fama, mas também de muita ralação, como ela mesma gosta de frisar.

A vida corrida deu lugar a um cenário de incertezas durante a pandemia. Aos 46 anos, casada há 19, mãe de duas meninas de 17 e 11 anos (além de uma filha de 4 patas), ela conta que o isolamento social e a instabilidade na vida profissional abriram espaço para algo que ela sempre gostou de fazer e que aprendeu sozinha: cozinhar.

"Acabei me ocupando na cozinha. Cozinhava todos os dias, todas as refeições. Cresci em uma família árabe, me casei com um filho de libaneses. A fartura sempre falou alto por aqui, é cultural. Mas, eu vou além e exagero: tenho medo de que falte comida, seja na minha mesa ou na dos outros. Ver gente passando fome acaba comigo", explica.

Com um cenário desolador, potencializado pela quarentena, ela sentiu que poderia ajudar a população mais vulnerável ao abrir a própria geladeira. "Lembro que vi muita comida sobrando e, na hora, falei para o meu marido que não ia jogar nada fora, que íamos sair para fazer uma doação".

Naquele mesmo dia, Cuca conseguiu montar 15 marmitas bem cheias e partiu em direção ao centro de São Paulo, na expectativa de encontrar moradores de rua. Se viu encorajada, junto com a família, a desafiar as recomendações do "fique em casa" em prol de algo muito maior (sempre respeitando as recomendações de uso de máscaras, luvas e álcool gel).

Da primeira doação, ficou a certeza: tinha que continuar. "Tive esse estalo, esse click, e juntei duas coisas que sempre quis fazer: trabalho voluntário e cozinhar". Ela, então, entrou em contato com instituições para entender o fluxo de doações e entregas de marmitas na capital paulista. "Comecei ajudando os freis do Largo São Francisco (Sefras). Os voluntários pegavam as marmitas no carro. Depois, o número de doações era tanto que passaram a agendar a entrega pelo site da instituição. Tive dificuldades até em achar data para doar minhas marmitas. Vi a mobilização ali, acontecendo na minha frente".

Ao postar sua movimentação nas redes sociais, Cuca passou a receber ajuda de familiares e amigos na doação de alimentos para serem transformados em refeição no fogão de 4 bocas de sua cozinha. "Minha mãe emprestou 3 panelas grandes, de feijoada, o que facilitou bastante o trabalho. Eu gosto de doar comida pronta, quente, e consegui atingir a meta de, no mínimo, 100 marmitas a cada doação. Tem dias de macarrão com salsicha em molho, dias de arroz com feijão e linguiça, vou variando. Eu faço a mesma comida que faço para a minha casa, minha família."

As ações atingiram também profissionais da linha de frente no combate à covid-19. Em uma ação especial, Cuca preparou 250 sanduíches para trabalhadores do Hospital São Paulo. "No auge da pandemia em 2020, os profissionais não tinham tempo nem para se sentar e comer, então tinha que ser algo prático. Uma amiga me deu todo o dinheiro e eu comprei das embalagens aos ingredientes. Fiz 250 X-burgers na minha casa. Foi lindo, parecia linha de produção profissional. Minhas filhas ainda escreveram mensagens de apoio e carinho em cada embalagem. Foi extremamente cansativo, mas me senti realizada e muito emocionada nessa ação", relembra.

Cuca diz que já alimentou muita gente com suas ações, mas que no fundo alimenta a si mesma com tamanho aprendizado. "Eu acredito em um mundo de retornos. E acredito que quando somos bons para os outros, somos ainda melhores para nós".