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Empresas que mudam

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Home office pode ser definitivo? Empresas que adotaram o modelo respondem

Home office definitivo: Hiago Kin - Acervo Pessoal
Home office definitivo: Hiago Kin
Imagem: Acervo Pessoal

Giacomo Vicenzo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

17/02/2021 04h00

A chegada da pandemia de covid-19 trouxe novos ares e metodologias para as empresas. Trabalho e casa disputam os ponteiros do relógio e, por vezes, a mesa, antes usada exclusivamente para fazer as refeições, agora é cenário para reuniões online e muito trabalho remoto.

Home office, no entanto é privilégio de poucos. Apenas 7,9 milhões de brasileiros trabalham de casa, o que equivale a cerca de 10% da população economicamente ativa (79 milhões de brasileiros). Enquanto míseros 0,9% dos que têm ensino fundamental completo ou ensino médio incompleto podem trabalhar de casa. 27,1% dos que têm ensino superior completo ou pós-graduação desfrutam da segurança do home office em tempos de covid-19, de acordo com a Pnad covid-19 feita pelo IBGE (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Mudar para o regime home office foi uma ação repentina e tomada por necessidade imediata por muitas organizações, 67% delas enfrentaram dificuldades ao aderirem a esse tipo de sistema, assim aponta a Pesquisa de Gestão de Pessoas na Crise de covid-19, que foi conduzida pela Fundação Instituto de Administração (FIA).

Apesar dos ares complicados, 94% das 139 empresas ouvidas no estudo afirmam que o regime em trabalho remoto superou as expectativas. Ainda assim, 75% delas não pretendem manter o modelo no pós-pandemia.

Um caráter autoritário presente na gestão organizacional brasileira pode ser a resposta para essa reação, de acordo com o sociólogo Fábio Mariano Borges, doutor em sociologia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e especialista em tendências e mercado consumidor.

"Temos uma gestão de controle de atividades de produção, que quer saber quantas horas se trabalha, onde o colaborador está. Uma gestão que faz muitas reuniões. Há uma cultura de que as pessoas trabalhem após o expediente. Muitos gestores não sabem como dar continuidade a esses itens no trabalho remoto", alerta Borges.

Dá para viver em home office para sempre?

Para Hiago Kin, presidente da Associação Brasileira de Segurança Cibernética, e CEO de operações de segurança digital da empresa Decript, a ida da sua empresa para o modelo home office nasceu da urgência de ter os colaboradores conectados para atenderem demandas urgentes e da inviabilidade de ter todos no espaço físico do escritório.

Sua empresa já vinha passando por mudanças e o contrato formal do escritório em que mantinha 1400 funcionários passou para o modelo coworking (em que várias empresas dividem o mesmo espaço e custos por este). Com a chegada da pandemia de covid-19, optaram por um modelo modular, em que uma empresa monta seu espaço de acordo com a demanda quando ela precisa ser exclusivamente presencial.

"Após a chegada da pandemia de covid-19, fomos apenas uma vez nesse espaço físico. Como somos uma empresa de segurança, que previne crimes cibernéticos, alguns processos precisam ser muito confidenciais e presenciais", explica o CEO da Decript.

Adotar o modelo home office já era um desejo de Hiago para sua equipe, mas a ideia era fazer a transição em cinco anos, mas o novo coronavírus fez com que a empresa tivesse que se adequar em apenas cinco meses.

"No começo foi trabalhoso, este processo de alinhar com cada um dos gestores os ambientes de trabalho. Alguns optaram pelo quarto, outros por uma sala ou cômodo dedicado, de modo em que pudessem se dedicar às equipes dentro de suas novas necessidades de contato e integração", comenta.

Santo de Casa

Mas o processo de home office que se apresentava como um desafio e algo temporário para Kin e sua empresa será definitivo. E a resposta foi percebida por ele tanto nos custos, quanto na produtividade.

Tivemos uma redução do custo fixo em mais de 60%. Ajudou a escalar o negócio. A produtividade praticamente dobrou. As reuniões são mais rápidas, e em maior volume. Fisicamente, antes da pandemia, eu fazia no máximo cinco reuniões por dia, entre alinhamentos operacionais e atendimento a clientes. Hoje, num dia tranquilo, chega a oito", revela o CEO.

O sociólogo Fábio Mariano Borges lembra que aderir às reuniões online foi de fato algo adotado em 2020 e que essas chamadas online, revelam dois lados da moeda.

"Há vários gestores que têm que escolher entre trabalhar ou fazer reuniões e esse motivo é cultural. O encontro online por um lado faz a gente se sentir mais parte da equipe, das responsabilidades e do coletivo", aponta ele.

Para Clea Klouri, sócia da consultoria Hype50+, a troca para o home office foi definitiva. A empresa se desfez de um espaço físico em que mantinha oito funcionários fixos e 20 colaboradores eventuais.

O que antes era desafio, com o tempo virou uma oportunidade. "Tivemos que investir mais em tecnologia para trabalhar online, as dinâmicas tiveram que ser todas reformuladas. Mas deu tão certo, que permitiu expandir para outros estados, além de São Paulo, e aumentamos nossa atuação com novos clientes e projetos. Então, não pretendemos voltar", diz Klour.

Mas a sócia não descarta a ideia de voltar pelo menos ao semi-presencial depois que a pandemia de covid-19 passar. "Pensamos em alugar um local para deixar apenas para reuniões pontuais", comenta.

Equilibrando casa e trabalho no mesmo pilar

Thaynara Santos - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Home office definitivo: Thaynara Santos entre o trabalho e a filha.
Imagem: Acervo Pessoal

Ter os cuidados com a casa e com o trabalho quase que simultaneamente, também foi um desafio para os profissionais que aderiram ao home office. E nesse sentido algumas empresas também sentiram que era preciso tomar partido.

"Os horários de cuidados pessoais e de casa passaram a ficar mais noturnos e entendemos que o melhor seria reduzir a jornada, começando duas horas mais tarde. Estamos estudando reduzir ainda mais o horário, sem reduzir o ganho dos colaboradores", explica o CEO Hiago Kin, sobre sua empresa.

Para a gerente tributária, Thaynara Gonçalves Santos, 26, que trabalha na empresa do ramo de auditoria Crowe, o home office já era uma prática em sua empresa, mas não de forma recorrente e avalia ganhos com o trabalho remoto.

"É muito mais fácil reunir as pessoas em reuniões online, do que em presenciais. O melhor é acompanhar minha filha de nove anos diariamente. Enquanto eu trabalho, ela faz a aula e os deveres de casa", comenta.

Mas ainda assim, Santos revela que foi preciso alguma adaptação no início. "Foi preciso dividir entre estar conectada e dar atenção à minha filha. Mas hoje, já virou uma rotina. Quando ela precisa falar comigo já pergunta em mímicas se o meu áudio está desativado", diz.

A empresa em que Thaynara trabalha optou por um modelo híbrido, em que os funcionários podem escolher se fazem as atividades em casa ou no escritório.

De acordo com Rosana Daniele Marques, gerente de gestão de pessoas da organização, a ideia de manter a opção nasceu de uma pesquisa com os profissionais. "Ninguém é obrigado a vir ou ficar em casa. Fizemos pesquisas com os nossos colaboradores e vimos que muitos sentiam falta do contato presencial", explica.

Futuro será híbrido

Para Fabiana Herculano, especialista em design thinking e que trabalha como facilitadora de processos e transformação cultural para empresas, o futuro do trabalho que nos aguarda é híbrido e isso diz mais sobre cultura empresarial, do que sobre a tecnologia envolvida.

"O futuro é o trabalho híbrido. Não é sobre mudar o local de onde se trabalha, mas sobre como se trabalha. Profissionais e empresas precisarão atualizar suas capacidades tecnológicas e culturais. É hora de repensar jornadas e experiências digitais eficazes e acessíveis para colaboradores e clientes", lembra Herculano.

O sociólogo Fábio Mariano Borges acredita que é justamente a questão cultural e estrutural que ainda dificulta a ideia de difundir o home office como algo realmente possível.

"Muitas pessoas não têm estrutura para isso e usam computadores domésticos. Não houve uma transição suave do presencial para o remoto e com isso veio o medo da demissão também. Toda nossa base de construção de laços de confiança veio da ideia de olho no olho", explica.

Mas apesar do medo e das demissões que assombraram os trabalhadores nesse período, de acordo com o sociólogo, também será possível vislumbrar um futuro em que alguns trabalhadores poderão ter mais autonomia.

"Haverá revisões de contrato, mudanças nas relações de trabalho e as pessoas serão mais senhores de sua própria força de trabalho. Mas isso também vai de encontro ao nosso modelo mental de carreirista, em que alguém que trabalha para várias empresas é menos bem-sucedido do que quem mantém um cargo em apenas uma. O trabalhador passará a trabalhar mais por entrega do que por hora", avalia Borges.

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