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Transição capilar também é ferramenta para empoderamento da negritude

Renata Varella lava cabelo de cliente do Clube das Pretas - Divulgação
Renata Varella lava cabelo de cliente do Clube das Pretas Imagem: Divulgação

Carmen Lúcia

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

04/12/2020 04h00

Uma menina de cabelos longos e lisos, nariz fino, lábios delicados e uma silhueta magrinha. Esta era a imagem que tentei conquistar durante a infância, a adolescência e parte da vida adulta, mas que o espelho teimava em não refletir. Tenho viva na memória, a primeira vez que fui ao salão usar química no cabelo, aos seis anos de idade. Um ritual que perdurou por mais de 19 anos. Também me lembro das horas que passava com um pregador prendendo o meu nariz e outro preso à boca (ora no lábio superior, ora no lábio inferior) na dolorosa ilusão de conseguir afiná-los. E, é claro, não posso esquecer das dietas mirabolantes que começaram cedo no intuito de me fazer caber nos looks tamanho 34 - 36, no máximo —, que via as modelos usando nas revistas, mas que jamais entrariam no meu quadril tamanho 40.

Se você que está lendo esta reportagem é uma mulher preta, fatalmente, vai se identificar com um ou todos os pontos expostos acima. No meu caso, ninguém me disse diretamente que eu deveria alisar o cabelo, afinar os lábios ou diminuir as formas físicas. Mas o que significa ligar a TV ou folhear uma revista e ver, todas as vezes, que as mulheres em destaque não se pareciam nem um pouco comigo?

Havia, sim, uma mensagem ali. E ela dizia que eu e as minhas características de mulher negra não cabíamos naquele espaço. Seria necessário mudar, adaptar e se esconder atrás de uma imagem eurocêntrica. E assim eu fiz. Até que parei de fazê-lo.

Mas isso não aconteceu de um dia para o outro. Como eu, muitas mulheres também usaram o cabelo liso como ferramenta para serem aceitas. É o caso da carioca Jossely Alves, 28. Ela começou a usar química aos seis anos e só parou aos 15. "Eu tinha uma ideia errônea sobre o meu cabelo, e sempre achei que o mais bonito e agradável era vê-lo com a raiz baixa e sempre sem volume", lembra. Mas, a agressividade da química fez seus fios caírem e este acabou sendo o gatilho para que a estudante de publicidade, uma adolescente na época, enfrentasse a temida transição capilar.

"Foi muito difícil, porque em 2009, não era comum ver meninas com o cabelo crespo assumido. Muitas vezes, as pessoas me diziam que o meu cabelo pesaria muito a minha imagem na hora de fazer uma entrevista de emprego", conta.

Hoje, ela não só usa seus fios crespos assumidíssima, como também ajuda outras mulheres nesse processo de empoderamento. Jossely é trancista. "Quando cortei o meu cabelo, entrei em um curso para fazer tranças e comecei a praticar em mim. Me especializei e enxerguei o quanto é gratificante elevar a autoestima de outras pretas".

Adepta do uso das tranças, Aline da Silva Farias, 31, descobriu-se enquanto mulher preta entre uma mudança e outra de visual. "Comecei a trançar os cabelos, usava vários estilos e tamanhos. Eu não sabia, mas ali já estava sendo a mulher preta que tanto sonhei. Estava curtindo mudar", lembra ela, que trabalha como social media. Mas nem tudo foram flores. Nesse período, ela também ouviu muitas críticas sobre sua aparência.

"As pessoas dizem que não gostam do nosso cabelo de várias formas, a mais usada é fazer perguntas inconvenientes. Duas delas, em especial, me marcaram: quando questionaram se usava 'aquilo' [tranças] porque tinha vergonha do meu cabelo e quando comecei a usá-lo black, ocorreu de alguém cortar um pedaço do meu cabelo e eu só percebi quando cheguei em casa".

Quem também viveu uma verdadeira saga até se descobrir potência é a técnica em enfermagem, Cristiane Tiago de Almeida. Hoje com 49 anos, ela usou os mais diversos tipos de química por 35, e só parou quando entendeu que era escrava do relaxamento capilar. "Usei pente quente, henê, chapinha, pasta, relaxamento, permanente americano, tudo. Queria o cabelo liso e grande. Coitado do meu cabelo, este sofreu", diz, agora em tom de brincadeira. Foi com o apoio da família que ela conseguiu resgatar sua identidade. "Meu esposo e meu filho me ajudaram muito durante a transição. Eu ouvia coisas absurdas, as pessoas me diziam que meu cabelo estava estranho, mas eu segui em frente. Hoje, quando olho no espelho, vejo a mulher que eu tanto procurava. Me acho linda".

A geógrafa Maria Amelia Vilanova Neta também passou 30 anos de sua vida brigando com o cabelo. Entrou em transição algumas vezes, mas sempre encontrava uma barreira: os salões tradicionais. "Tentei parar a partir dos 28 anos, mas os salões sempre me convenciam a voltar. O mais difícil foi encontrar apoio profissional, porque até hidratação com formol passaram no meu cabelo sem eu saber, sem me perguntar se eu queria. E os salões convencionais jogam sua autoconfiança lá embaixo, e você acaba não acreditando que vai conseguir". Maria lembra ainda o que foi mais difícil na época da transição. "Foram décadas ouvindo que o cabelo era ruim, rebelde, que não tinha jeito. Isso me cansava e me fazia sentir mal. Acho que o pior mesmo era ouvir minha mãe defender que eu alisasse. Ela não era agressiva nas falas, mas isso me fazia mal. Porque era como se ela não estivesse me aceitando."

Clube das Pretas virou referência para mulheres em busca de cabelos naturais - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Clube das Pretas virou referência para mulheres em busca de cabelos naturais
Imagem: Arquivo pessoal

Tanto Cristiane quanto Maria Amélia encontraram suporte, carinho e aconchego no Clube das Pretas, espaço localizado no Humaitá, zona sul do Rio, especializado nos cuidados do cabelo crespo e cacheado, sem química. Ou, como Maria Amélia define, um local de aquilombamento. "Eu entendo o trabalho que realizamos no Clube como um resgate de identidade. Uma oportunidade de olhar, cuidar e exaltar a beleza dos nossos cabelos crespos e cacheados naturais", explica Renata Varella, uma das fundadoras do espaço.

Segundo Renata, o Clube acabou preenchendo a lacuna no mercado para cuidados de cabelos crespos e cacheados, algo que ela sentiu na pele quando fez a sua própria transição. " Quando abandonei a química, busquei um lugar que cuidasse do meu cabelo crespo natural e que também me ensinasse a cuidar em casa. Eu buscava por ajuda e orientação para lidar com um cabelo que passou 30 anos sendo transformado quimicamente, mas não achei. Então, resolvi que eu mesma iria descobrir a técnica e os produtos corretos para cuidar do meu cabelo", lembra.

Ela fez uma ampla pesquisa com várias mulheres para identificar suas necessidades e confirmar que havia uma demanda reprimida no mercado para um serviço como esse era.

O feedback não poderia ter sido melhor. "Nós temos relatos emocionantes do tipo: 'Meu casamento melhorou', 'eu não gostava de tirar foto e agora pareço modelo', 'o Clube das Pretas me lembra minha avó cuidando dos meus cabelos no quintal de casa'".

Bem, e quanto a mim, a repórter que vos fala, posso dizer que também fiz as pazes com o espelho. Iniciei a minha transição capilar em 2015, com o apoio de outras mulheres pretas que já tinham passado por isso. Foram rodas de conversa e muita leitura, fiz a minha imersão e saí do outro lado transformada. Aprendi a ser o meu referencial de beleza, a respeitar as minhas formas corporais, a recusar a ideia de ser forte o tempo inteiro e, de alguma forma, ajudar outras mulheres da maneira que puder.

A influenciadora Jacy July - Divulgação - Divulgação
A influenciadora Jacy July
Imagem: Divulgação

Foi pensando nessa rede de apoio mútuo que Jacy July, 30, começou a produzir conteúdo sobre beleza e empoderamento da mulher negra. Ela, que na infância chegou a passar cloro no corpo para tentar "limpar a pele", celebra hoje mais de um milhão de seguidores, somando todas as suas redes, e pauta o seu trabalho em ajudar pessoas negras a não se verem de forma negativa por causa de seus traços.

"Muitas mulheres negras se aproximam de certas discussões através da estética e dessa forma também atuo em meu canal do Youtube. Enquanto faço um penteado no cabelo, estou conversando sobre temas importantes. Acho que é uma das formas de se popularizar discussões complexas", conta Jacy.

Ela ainda acrescenta: "Eu fico muito feliz com o feedback de mães me mostrando fotos das filhas com penteados que eu ensinei no canal, sinto que o que eu faço está movendo algo."