PUBLICIDADE
Topo

Projeto descobriu como levar alimentos e dinheiro para comunidades do Rio

As doações no Morro do Preventório, no Rio, incluíam também livros, além de produtos comprados nos comércios locais - Divulgação
As doações no Morro do Preventório, no Rio, incluíam também livros, além de produtos comprados nos comércios locais Imagem: Divulgação

Carmen Lúcia

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

19/09/2020 04h00

A união faz a diferença. Pelo menos tem sido assim no Morro do Preventório, no bairro de Charitas, em Niterói, Rio de Janeiro. Com a pandemia e a crise econômica, muitos moradores encontraram dificuldades até para se alimentar e, diante desse cenário, um grupo de voluntários resolveu unir forças para ajudar aqueles que em maior vulnerabilidade. Assim, nasceu a iniciativa que reuniu diversas organizações de economia popular solidária para arrecadar dinheiro para levar produtos da agricultura familiar à comunidade.

"Notamos que a fome seria um grande problema, então fizemos uma primeira vaquinha para arrecadar 10 mil reais. Em uma semana, nós conseguimos atingir a meta. Começamos por essa favela e depois o trabalho foi expandindo", explica Marcos Rodrigo, um dos fundadores do Banco Comunitário e do Comitê inaugurado para organizar as cestas e operar a distribuição dos alimentos. A inspiração para as ações partiu do trabalho realizado por diferentes entidades pelo Brasil. Além do Banco Comunitário do Preventório, o projeto incluiu o Fórum de Economia Solidária de Niterói (FESNIT), a Associação de Agricultores Biológicos do Estado (ABIO) e a Associação Fluminense de Famílias Agroecológicas (AFFA).

"Estávamos trabalhando no Banco Comunitário e nos preparando para os efeitos da pandemia. Tivemos contato com algumas favelas, inclusive a de Paraisópolis, que organizou por rua seu trabalho e pensamos, então, em organizar os líderes comunitários que atuam conosco, no Preventório, por áreas da comunidade, e identificar as necessidades das famílias", explica.

Durante o processo de organização comunitária, foram identificados também outros grupos que estavam com dificuldades de renda para coisas básicas: os agricultores familiares do Rio de Janeiro, que distribuem seus produtos em feiras, e os comerciantes das favelas. Por isso, era tão importante que as cestas básicas entregues para a população fossem compostas com produtos do comércio local, incluindo o pescado dos pescadores artesanais e alimentos da agricultura familiar.

"Visitamos os comércios locais e fizemos uma escuta ativa. Percebemos que deveríamos comprar do nosso mercado. Ainda que pagando mais caro era necessário manter a renda local. Já arrecadamos mais de R$ 70 mil, e isso foi gasto nestes comércios", diz Marcos Rodrigo.

A assistente social Cristiane Maciel Mahet é uma das responsáveis pelas arrecadações do projeto. Ela lembra como foi rápida a percepção de que a população precisaria de ajuda para o básico. "O principal era a cesta básica, mas existiam outras necessidades. Por exemplo, têm idosos que precisavam de ajuda para conseguir comprar remédio, e mães que tinham crianças pequenas e necessitavam de uma cesta básica com mais leite e fraldas. Eu tenho filho pequeno e sei que a criança precisa de uma distração, principalmente em um momento em que não podemos deixá-los ir para a rua. Então, também arrecadamos brinquedos. Mas, conforme a gente ia ajudando, a demanda só aumentava e vimos que teríamos que cobrir outras comunidades também", lembra.

Além do Proventório, foram beneficiadas com o projeto as comunidades de Jurujuba, Jacaré, Boa Esperança, Grota e Viradouro, todas em Niterói. Daniele Estela Jardim da Silva, de 41 anos lembra com orgulho de seu primeiro contato com a assistente, que ela chama carinhosamente de Cris. "Eu sou vendedora e vi meu orçamento reduzir drasticamente com a pandemia. Moro no centro de Niterói e tenho dois filhos. Ganho a vida vendendo bolo, doces e salgados. Para me ajudar, a Cris fez um trabalho de divulgação dos produtos que eu vendo e ainda me ajudou com a entrega de cestas básicas. E as cestas são feitas com muito cuidado e carinho, só alimentos de qualidade", conta.

Quem também ganhou auxílio foi Vivilaine de Alexandre Oliveira, de 33 anos. "Eu tenho 3 filhos e no meu caso, tive que sair da casa do meu marido. Consegui alugar um outro lugar, mas a Cris me ajudou com tudo que tem na minha casa hoje, desde móveis até a comida. Também tive ajuda para pagar o aluguel".

O universitário Bruno Gomes da Silva aproveitou as doações para ter acesso a leituras de seu curso - Divulgação - Divulgação
O universitário Bruno Gomes da Silva aproveitou as doações para ter acesso a leituras de seu curso
Imagem: Divulgação

Além do suporte com alimentos, remédios, fraldas e brinquedos, os voluntários entenderam que a população precisava de mais, de um detalhe que faz toda a diferença: livros. A partir de uma parceria com a Academia Brasileira de Letras, adicionou-se à cesta, a doação desse material. O universitário Bruno Gomes da Silva, de 27 anos, recebeu oito livros. Ele afirma que a ação ajudará na retomada do curso na próxima semana.

"Eu sou aluno da Universidade Federal Fluminense (UFF) e estudo Letras Português/Grego. Um dos livros que recebi como doação foi uma de gramática que serve para consulta dentro do meu curso. Também recebi um dicionário ilustrado com três volumes. As outras obras estão na minha lista de futuras leituras", conta Bruno. "Infelizmente não há muitos programas que incentivem a leitura para a população de baixa renda. É glorificável todo aquele que tem hábitos de leitura, pois o conhecimento é a porta de conscientização e crescimento na vida. Por ela, podemos nos transformar ao nos introduzir nas câmaras da sabedoria. Só precisamos de oportunidade. Neste caso, ela está chegando até nós através do projeto. Só tenho a agradecer por isso".