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Iniciativas que inspiram

Winnieteca usa leitura como ferramenta de combate ao racismo

Winnie Bueno, criadora da Winnieteca - Marília Dias/Divulgação
Winnie Bueno, criadora da Winnieteca Imagem: Marília Dias/Divulgação

Vanessa Fajardo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

30/03/2020 04h00

A casa de Winnie Bueno, de 31 anos, em Porto Alegre, sempre foi repleta de livros. Ela cresceu vendo a avó, que não chegou a completar o ensino fundamental, se jogar nos livros como forma de preencher a lacuna por não ter estudado.

Na transição para adolescência, os livros viraram refúgio. "Na escola que eu estudava havia pouquíssimas crianças negras, me sentia isolada e ia para os livros. Passava muito tempo na biblioteca, tanto que minha festa de 15 anos foi dentro de uma. Tenho uma relação afetiva com os livros."

A história da Winnieteca, chamada inicialmente de Tinder dos Livros, teve início em novembro de 2018 quando Winnie, vendo a repercussão no Twitter por conta do Dia da Consciência Negra, sugeriu em um post que as pessoas brancas que diziam ser antirracistas, fizessem ações concretas para ajudar combater o racismo doando livros, por exemplo. Rapidamente surgiram interessados em adotar a ideia, e Winnie então tratou de achar pessoas negras que gostariam de receber os títulos.

No período de um ano, de novembro de 2018 a novembro de 2019, Winnie viabilizou a doação de 1 mil livros. Pelo Twitter, via mensagem direta, ela colocava em contato a pessoa que manifestava o desejo de doar um título com a que tinha interesse em receber (somente negros). Depois do "match" ambos combinavam a entrega.

"A ideia surgiu de um pensamento simples, livro é algo bem caro e as pessoas negras estão localizadas em cinturões da pobreza. São barreiras que o racismo articula para que essas pessoas sejam impedidas de ter acesso", afirma.

Desde novembro de 2019, o projeto ganhou a parceria do Twitter e Geledés - Instituto da Mulher Negra, e passou a ser chamado Winnieteca. O trabalho, então, de conexão entre as pessoas que querem os livros e as que desejam doá-los é feito por um robô. Até o último balanço, em fevereiro, 3 mil títulos haviam sido distribuídos.

O contato inicial é feito pelo Twitter (@winnieteca). Ao entrar em contato com a página, você recebe a seguinte mensagem:

"Olá! Seja bem-vinda à Winnieteca. Aqui a gente conecta pessoas que acreditam na mágica dos livros para combater injustiças sociais. A Winnieteca salva algumas das suas informações para conectar pessoas negras que precisam de livros com pessoas dispostas a presentear uma pessoa negra com um livro que ela precisa. Suas informações não serão utilizadas com outros fins. Você concorda com os termos?"

A partir daí a conversa se inicia. As pessoas beneficiadas continuam sendo somente negras, independente da renda salarial. Os doadores podem ser brancos. Em um mesmo mês é possível pedir até três livros que demoram, em média, 30 dias para chegar.

Os autores mais solicitados são intelectuais negros como Angela Davis, Abdias do Nascimento, Djamila Ribeiro, Chimamanda Ngozi Adiche. As obras, porém, não precisam ser exclusivas deste universo.

Winnie lembra que já viabilizou a doação de livros de anatomia para uma estudante de medicina que morava no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e até a coleção do Harry Potter para um garoto que cumpria medida socioeducativa em Porto Alegre.

Formada em direito e doutoranda em sociologia, Winnie diz que só existem duas formas de entender o racismo: com resistência ou ignorando-o completamente — "às vezes esta é a única maneira de sobreviver." "Eu moro no Rio Grande do Sul, é impossível não ter passado por uma situação de racismo. Pode ser que você opte por ignorar, mas o racismo é um sistema de dominação que articula as relações de poder neste país. O mínimo que podemos fazer é falar sobre isso."

A ativista comemora a visibilidade do projeto - ela possui atualmente 65 mil seguidores no Twitter e a possibilidade de "fazer algo útil." "Essa utilidade foi distribuir livros, fico feliz de saber quando chega o livro para uma pessoa, sei como é a sensação de receber um livro que você queria. A Winnieteca é uma rede de afeto e gente comprometida ao combate ao racismo, essa rede é mais importante do que eu. O meu sentimento é de gratidão pelas pessoas que se dispõem a fazer parte de uma mudança social."

Luana Protazio recebeu livros pela Winnieteca, iniciativa de Winnie Bueno - Divulgação - Divulgação
Luana Protazio recebeu livros pela Winnieteca
Imagem: Divulgação

Relações públicas ganhou três livros

A relações públicas Luana Protazio, de 23 anos, moradora de Bauru, no interior de São Paulo, ganhou três livros por meio do projeto de Winnie. Eram títulos que ela precisava ler durante o curso de graduação para fazer seu trabalho de conclusão, mas que na ocasião não podia adquirir.

"Sempre li muito e estudei relações raciais na comunicação desde o primeiro ano da graduação. Tinha muitos livros em mente que poderiam me ajudar nas pesquisas mas não tinha condições de comprá-los naquele momento e também não tinha biblioteca da faculdade", lembra.

Em janeiro de 2019, Luana pediu - e recebeu - seu primeiro livro: "Mídia e Racismo", de Rosana Borges. No meio do ano, quando já havia iniciado seu TCC, recorreu de novo ao projeto e recebeu: "Assessorias de Comunicação", de Ana Almansa; e "Olhares negros: raça e representação", de bell hooks.

"Os três livros contribuíram e ainda contribuem muito com minha formação e pesquisa e talvez eu não tivesse acesso a eles ainda se não fosse pelo projeto."

Para Luana, a Winnieteca é uma forma "simples e transformadora que democratiza a leitura entre os negros."

Eu acredito mesmo que a leitura, o conhecimento, são ferramentas potentes para negros e negras em uma sociedade estruturalmente racista. É uma forma de nos emancipar e instrumentalizar frente a isto.

Luana Protazio, 23

Advogada no Piauí doou e recebeu livros

A advogada Carmem Lucia Ribeiro, 30, de Teresina (PI), já doou e recebeu livros pela Winnieteca. Ela pediu o livro "Olho mais azul", da autora Toni Morrison, e uma moradora do Rio de Janeiro se prontificou a comprá-lo.

"Ela entrou em contato comigo dizendo que iria me doar o livro. Passei meus dados e em 15 dias eu recebi. Fiquei muito emocionada, aí decidi que também iria doar. A leitura é uma importante ferramenta de enfrentamento ao racismo", conta Carmem. Ela doou o livro "Diálogos contemporâneos sobre homens negros e masculinidades" para um morador de Salvador (BA).

Como ajudar

Para quem quer participar doando ou recebendo livros, é preciso entrar em contato via Twitter, no perfil da Winnieteca e seguir as instruções da página.

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