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Como Djamila, Lola e literatura queer construíram um 2019 mais plural

Filósofa e feminista, Djamila Ribeiro é autora dos livros "Lugar de Fala" e "Quem tem medo do feminismo negro?" - Lucas Lima/UOL
Filósofa e feminista, Djamila Ribeiro é autora dos livros "Lugar de Fala" e "Quem tem medo do feminismo negro?" Imagem: Lucas Lima/UOL

Fred Di Giacomo

Colaboração para Ecoa

28/12/2019 07h00

"O Brasil e a América Latina em geral vivem um momento muito duro. Ao mesmo tempo, acho importante mostrar que o Brasil — para além desse momento difícil, para além da precarização de vidas, das medidas políticas institucionais que estão sendo tomadas contra a população jovem negra — também é resistência, mostrar os saraus da periferia, mostrar a Cooperifa, mostrar que tem muita gente fazendo muita coisa. É muito importante mostrar esse Brasil que resiste, né?"

Mostrar ao mundo o Brasil que resiste. Esse poderia ser o lema da filósofa e feminista negra Djamila Ribeiro. O Brasil que resiste, lê, educa, abre caminho para os outros e é reconhecido internacionalmente. Djamila — best-seller com seus livros "Lugar de Fala" e "Quem tem medo do feminismo negro?" — não para. Seja nos EUA, na Feira do Livro de Frankfurt ou num sarau de periferia, a escritora une carisma e firmeza, em falas que traduzem, em termos didáticos, realidades e conceitos complexos. "Meu objetivo é justamente romper com uma linguagem que fica só na academia ou só numa bolha dos movimentos sociais para que as pessoas possam ter ferramentas críticas para refletir sobre a sociedade, pensar a sociedade", afirma Djamila.

É essa linguagem que atraiu filas de leitores nos lançamentos do "Pequeno Manual Antirracista" (Cia. das Letras), livro que Djamila lançou em 2019. As palestras e a obra seriam trabalho suficiente na agenda de muitos, mas Djamila ainda foi escolhida como uma das 100 mulheres mais influentes do mundo pela britânica BBC (a deputada Tábata Amaral também apareceu na lista) e foi premiada com 100 mil euros ao ganhar o "Prince Claus Awards 2019", na Holanda.

"Fui reconhecida pelo trabalho de popularização da leitura e por ser uma intelectual pública. Por trazer para um número maior de pessoas esse debate sobre o feminismo negro, sobre raça, classe, gênero. Esse é o prêmio mais importante da Holanda e reverbera bastante internacionalmente e eu fico muito feliz de ter ido representando esse projeto que é o selo Suely Carneiro e a coleção Feminismos Plurais", disse Djamila.

Quem viu Djamila na primeira fila do desfile da Prada, na Semana de Moda em Milão, em setembro deste ano, pode achar que sua vida é só glamour. Djamila celebra o reconhecimento internacional com pensamento contrário.

"É o reconhecimento de um trabalho sério. Acho que isso é importante de mostrar pras pessoas que é um trabalho, não é glamour. A gente vem construindo isso desde muitos anos, desde que eu ia às manifestações com meu pai contra a privatização do porto. Meu pai era estivador, foi um dos fundadores do Partido Comunista, em Santos, do movimento negro. [A gente vem construindo isso] Desde minha época como professora de cursinho popular. Esse tipo de reconhecimento consagra uma trajetória", afirma.

Mulher-Maravilha da vida real

Lola Aronovich, professora universitária, blogueira feminista e pedagoga argentina, naturalizada brasileira para depoimento sobre a perseguição e ameaças de morte que recebe na internet - Marília Camelo/UOL - Marília Camelo/UOL
Lola Aronovich, professora universitária e blogueira feminista
Imagem: Marília Camelo/UOL
Uma mulher lutando por anos contra um grupo de terroristas racistas e misóginos, envolvidos com distribuição de pedofilia online e massacres sangrentos em escolas. Parece série apocalíptica da Netflix ou roteiro de quadrinho, mas é uma descrição real de parte da vida de Lola Aronovitch, professora de Literatura em Língua Inglesa da Universidade Federal do Ceará, e autora do blog feminista Escreva Lola Escreva.

Lola pôde começar 2019 mais aliviada. No dia 20 de dezembro de 2018, Marcello Valle Silveira Mello, líder da célula de terrorismo branco que se agrupava no fórum Dogolachan, foi condenado a 41 anos por associação criminosa, divulgação de imagens de pedofilia, racismo, coação, incitação ao cometimento de crimes e terrorismo cometidos na internet. As denúncias de Lola contra Marcello e sua gangue foram fundamentais para que o extremista acabasse atrás das grades.

"O crescimento da direita em todo o planeta sem dúvida faz com que mascus, incels e neonazistas em geral tenham menos medo de mostrar a face. Afinal, eles veem seus ídolos (que eles chamam de "mito") falaram e fazerem as piores aberrações e não apenas não serem punidos, como ainda serem premiados com a presidência. Assim, passam a ter cada vez mais orgulho da sua ignorância. É fundamental que a gente não tenha medo e continue resistindo", afirma Lola.

Incel é um neologismo que vem do inglês "involuntary celibates" ou "celibatários involuntários". É uma subcultura que se propaga entre jovens homens heterossexuais que culpam as mulheres e o feminismo por não encontrarem uma parceira sexual. A subcultura faz parte do universo dos "mascus" liderados por Marcello Valle Silveira Mello, que incluía os extremistas Luiz Henrique de Castro e Guilherme Taucci Monteiro, que mataram 8 pessoas, este ano, em um ataque a uma escola de Suzano (SP). Ambos eram frequentadores do Dogolachan, fórum também ligado ao massacre de Realengo (RJ) e ao assassinato de uma jovem em Penápolis (SP).

O fenômeno é mundial. Brenton Harrison Tarrant, o extremista que matou 50 pessoas na Nova Zelândia em março, frequentava fóruns supremacistas brancos e se classificava como uma pessoa introvertida. Stephan Balliet, o neonazista de 27 anos que assassinou duas pessoas em outubro na Alemanha, fez uma live do seu atentado em que criticava o feminismo e o judaísmo. Ele também estava imerso na subcultura de fóruns online.

Por seu combate aos terroristas misóginos, Lola deu nome à lei 13.642/2018, que determina opiniões de ódio contra mulheres como objeto de investigação da Polícia Federal. Ela também foi indicada ao internacional Prêmio da Coragem, da ONG Repórteres Sem Fronteira. "Além de ter sido indicada ao Prêmio Coragem (apenas a terceira vez que um brasileiro é indicado), recebi algumas homenagens locais, o que é sempre um reconhecimento importante do meu trabalho. O fato de duas das vencedoras do prêmio do RSF não poderem sequer comparecer à premiação mostra como a liberdade de imprensa no mundo vem sendo ameaçada, e como é um dever democrático denunciar essas violações", afirma.

A resistência dos vaga-lumes

No ano em que o STF (Supremo Tribunal Federal) criminalizou a homofobia e em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado na Áustria, Taiwan e Equador, a literatura queer germinou.

Em setembro, Crivella mandou recolher HQ dos Vingadores com beijo gay da Bienal do Livro, no Riocentro - Reprodução  - Reprodução
Em setembro, Crivella mandou recolher HQ dos Vingadores com beijo gay da Bienal do Livro, no Riocentro
Imagem: Reprodução
O tradicional Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade lançou um prêmio focado na literatura com temática LGBTQ+, o 1º Prêmio Mix Literário, no qual "Glitter", de Bruno Ribeiro, levou menção honrosa, enquanto o prêmio principal ficou com "Ninguém vai lembrar de mim", de Gabriela Soutello. O prêmio foi idealizado pelo escritor Alexandre Rabelo.

As pedras no caminho dos artistas LGBTQ+ brasileiros foram muitas, mas uma turma de 61 escritores chutou-as para longe. Se em rápida retrospectiva tivemos Crivella mandando recolher livros da Bienal do Rio, concurso para financiamento de filmes da Ancine suspenso e peças de teatro canceladas de última hora, o ano se encerrou com o lançamento da elogiada antologia "A resistência dos vaga-lumes" (Editora Nós) organizada por Cristina Judar e Alexandre Rabelo.

"'A resistência dos vaga-lumes' veio no momento certo pelo fato de, neste cenário que enfrentamos hoje no Brasil, 61 pessoas que produzem literatura identificaram-se como LGBTQ+s e, sob esse guarda-chuva amplo e diversificado, apresentaram a sua escrita, ampla e diversificada à mesma medida", diz Cristina Judar, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 com seu livro "Oito do Sete".

Judar continua: "Reunir vozes de todos os cantos, das mais célebres às menos conhecidas — e não por isso menos potentes — nesta espécie de celebração / rebelião publicada, foi fundamental para, além de promover a visibilidade, identificar alguns dos novos rumos que a literatura brasileira está tomando — o que foi um dos resultados mais significativos desse trabalho", completa.