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70% dos paulistanos acreditam que racismo se manteve ou aumentou em 10 anos

O levantamento ouviu 800 pessoas de 16 anos ou mais na região urbana da cidade de São Paulo - Divulgação/Rede Nossa São Paulo
O levantamento ouviu 800 pessoas de 16 anos ou mais na região urbana da cidade de São Paulo Imagem: Divulgação/Rede Nossa São Paulo

Bárbara Forte

De Ecoa

13/11/2019 11h00

A pesquisa "Viver em São Paulo - Relações Raciais", divulgada nesta quarta-feira (13) pela Rede Nossa São Paulo e realizada em parceria com o Ibope Inteligência, revelou que 70% dos paulistanos avaliam que o preconceito e a discriminação contra a população negra se mantiveram ou aumentaram nos últimos dez anos na capital paulista. O levantamento ouviu 800 pessoas de 16 anos ou mais na região urbana da cidade. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.

A percepção de que o racismo cresceu na última década é maior entre brancos (33%) do que entre pretos e pardos* (31%). Já em relação a quem acredita que a discriminação se manteve igual, os dados mostram 73% dos pretos e pardos frente a 66% dos brancos.

"Acreditamos que é possível supor que haja mais conscientização das questões raciais por todos e todas (brancos e não brancos), em função de se falar mais sobre o assunto hoje em dia, em relação há dez anos, por exemplo. A mídia tem pautado o assunto; a imprensa tem se posicionado sobre isso. As redes sociais fomentaram espaços para que as pessoas pudessem falar sobre o assunto e se organizarem", comenta Carol La Terza, assessora de projetos da Rede Nossa São Paulo.

Os moradores do centro e da zona leste são os que mais acreditam que houve aumento do racismo nos últimos dez anos. Na região central, o índice chegou a 48%, 23% a mais que no ano anterior. Na zona leste, o aumento foi de 9 pontos percentuais — saiu de 29% e foi a 38%.

Diferença de tratamento

A pesquisa avaliou, ainda, a diferença de tratamento entre pessoas brancas e negras (pretas e pardas) em oito locais: ambiente familiar, escolas/faculdades, hospitais/postos de saúde, local onde mora, ruas/espaços públicos, shoppings/comércios, trabalho e transporte público.

De acordo com o levantamento, os locais mais racistas para os entrevistados são as ruas e espaços públicos (64%) e escolas e faculdades (62%). Na outra ponta, com 22%, está o ambiente familiar como local menos racista.

No mercado de trabalho, sete em cada dez entrevistados avaliam que há menos oportunidades para negros em comparação aos brancos. A maioria deles (73%) são mulheres.

Influência política

O relatório da Rede Nossa São Paulo, realizado em parceria com o Ibope Inteligência, também perguntou aos entrevistados se eles tinham a percepção de que declarações, comentários ou piadas com conteúdo racista ou preconceituoso feitos por políticos estimulam o racismo ou o preconceito na cidade de São Paulo. Ao todo, 75% acreditam que estimulam.

A maioria deles é da Zona Oeste e Central — 80% e 84%, respectivamente. Nas outras regiões da cidade, os valores oscilam entre 73% (Zona Norte e Leste) e 75% (Zona Sul).

Os menos escolarizados, mais velhos e homens são os que mais mencionam que declarações, comentários ou piadas com conteúdo racista ou preconceituoso feitos por políticos não estimulam a discriminação, representando 16% do número total de entrevistados. Nove por cento não responderam ou não souberam opinar.

Segundo Carol La Terza, há uma questão estrutural e uma carga histórica que têm relação direta com esse perfil: "A população mais velha, em geral, tende a reproduzir comportamentos e valores mais antigos; a menos escolarizada acaba tendo menos acesso à informação, e homens (ainda que venham refletindo mais sobre sua postura, nos últimos anos, em alguns meios) ainda tendem a ser mais conservadores e, consequentemente, menos sensíveis a perceber a existência do racismo".

* O IBGE usa um sistema de classificação apoiado em cinco categorias de cor ou raça: branca, preta, amarela, parda e indígena. A população negra é o conjunto de pretos e pardos.

Ecoa