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Sérgio Luciano

Quisera eu que fosse real essa utopia de que somos todos iguais

George Floyd é rendido e sufocado pelo joelho de um policial - Darnella Frazier
George Floyd é rendido e sufocado pelo joelho de um policial Imagem: Darnella Frazier
Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

03/06/2020 04h00

Começo esse texto cheio de desesperança, cansaço e tristeza. Usando esse espaço para ecoar as milhares de vozes marginalizadas e criminalizadas por sua cor de pele, condição social e/ou lugar onde moram. Algumas viventes, sobreviventes. Outras tantas, que tiveram seu destino interrompido, assassinadas.

Três dessas vozes quero registrar aqui. Últimas palavras. Representando todas as demais.

"Por que o senhor atirou em mim?" (Douglas Vinícius, 2013)

"Mamãe, ele não viu que eu estava com a camisa da escola?" (Marcos Vinícius, 2018)

"Eu não consigo respirar." (George Floyd, 2020)

Provavelmente, você viu algo sobre os protestos rolando nos EUA, por conta da morte de George Floyd. Se não viu, pesquisa aí, depois volta aqui pra ler.

A realidade, dói. Pra caralho. A impotência, também.

Não estou aqui para culpar policial, pois sei que nem todo policial faria isso.

Não estou aqui para culpar homem branco, pois sei que nem todo homem branco faria isso.

Não estou aqui para dizer, que você que me lê, é culpado por isso, apesar de saber que tem gente que aprova esse uso de força e vai arrumar 1001 justificativas pro que aconteceu.

Estou aqui pra te chamar pra sentir a dor junto. A dor de quem sabe que seu corpo é um objeto alvejável, descartável, por sua cor de pele. Por sua condição econômica.

Estou aqui pra te dizer que, por conta de sua cor de pele e condição econômica, talvez você nunca precisará sequer pensar que pode morrer com o joelho no pescoço. Ou com algumas dezenas de balas perfurando seu corpo. Ou ter uma história contada para justificar a sua morte.

Eu, com todos os meus privilégios, ainda sinto essa preocupação latente quando saio às ruas, a depender do lugar onde estou e da altura do dia. Lembro de, aos meus 15 anos, eu e meu pai estarmos no carro e sermos parados pela polícia, com arma de grosso calibre apontada pra gente, por parecermos os suspeitos que eles buscavam.

Estou aqui pra semear desconforto. Pois, acredito eu, que a mudança só acontece quando olhamos com seriedade para a realidade que se apresenta diante de nós. Ainda que ser alheio a ela seja mais cômodo. Ainda que queiramos justificar com: "mas e se...", "mas veja bem...", "mas não é bem assim..." "mas é exceção".

Cada 'veja bem' que proferimos, soma-se à crença coletiva de que pessoas negras e/ou periféricas são potenciais problemas e riscos pra sociedade. E, não importa qual o delito cometa, ou melhor, não importa sequer se cometeu algum delito, facilmente podem entrar na lista dos marcados para morrer pela justiça 'daqueles que são de bem'.

Não quero me separar de você por termos cores de pele distintas. Eu, negro de pele clara. Outros, de pele mais escura. Você, branco.

Não quero polarizar e dizer que negros são vítimas e, quem tem pele branca, é algoz.

O que eu quero, mesmo, é me conectar com você. Mas, não me conectar a partir de um lugar gostoso e confortável, de amor. De tranquilidade.

Quero me conectar com você a partir de um lugar de dor. Da dor de ver que a nossa cor de pele define, em determinados momentos, quem merece a morte, quem não.

Por que, via de regra, esse policial branco não manteria seu joelho durante nove minutos sobre o pescoço de uma pessoa branca. Ainda que fosse alguém que cometeu uma contravenção.

E isso não é sobre o policial. Sua ação é parte de algo maior.

Tem um arquétipo por trás. Tem uma história que precisa ser trazida à tona, infinitamente, até que a gente consiga olhar pra ela junto.

A pele branca, ao longo da história ocidental, carregou poder, e ainda carrega. Veja o Brasil. Quem o 'descobriu'.

Os homens brancos europeus descobriram o Brasil. E fizeram um favor a esta terra. Tornaram os indígenas gente, trouxeram evolução e prosperidade, dizem alguns.

Trouxeram sangue indígena. Milhões exterminados.

E trouxeram negros. Ou melhor, trouxeram mão de obra. Objetos de trabalho. E não me venha com a história de que 'negros escravizavam negros'. Se assim o fosse, quem o Brasil invadiu, poderia ter escolhido dizer não à escravidão.

Negros eram objetificados nessas terras daqui, assim como nas terras ali de cima, nortenhas. Por séculos, foram objetificados.

Hoje, ainda o são.

Por muitos, objetificados conscientemente. Por outros tantos, inconscientemente.

Eu mesmo sou atravessado pelos meus preconceitos contra minha própria genealogia. É mais forte que eu. Tá entranhado.

Maldito pensamento entranhado até hoje, que assombra nossa sociedade.

Essa licença para matar está posta. Ainda que, no nível individual, para você não pareça ser um problema. E que você não se veja parte do problema.

A questão é que o mundo é muito maior do que nosso quintal.

E nesse mundão maior que nosso quintal, esse inconsciente coletivo importa. E rege a sociedade.

Ou a gente transforma essa narrativa que torna pessoas negras potenciais riscos e seres descartáveis, ou nada vai mudar.

E, aí, é também sua responsabilidade. Que tem pele branca.

Você não precisa responder pelo assassinato cometido por esse policial branco, ou assassinatos de negros em terras brasileiras. Mas, você sim, pode se responsabilizar por levar adiante uma mudança nessa narrativa.

Minha esperança é que você sinta bastante desconforto. Sem desconforto não há movimento.

Estude sobre racismo, conscientize pessoas ao seu redor. Apoie candidaturas negras na política. Tem muita coisa que você pode fazer. Dá um Google aí e descobre como contribuir. Faça lição de casa.

E se você pensar em relativizar, dizendo que pessoas são mortas todos os dias, e que tem monte de gente ruim atirando em gente boa... volta lá pro começo do texto. Lê de novo.

Não existe morte mais ou menos importante. Mas, de fato, existe uma narrativa ao redor de pessoas negras, que torna a morte muito mais próxima de nossos corpos. Quer você queira, quer não.

E negar as estatísticas, baseada numa opinião, não muda e nem resolve a situação. Só deixa o problema na mão de quem é alvo, todos os dias.

Aliás, quisera eu que a negação acabasse de vez com tanto sangue negro derramado por conta de um preconceito enraizado. Se assim o fosse, teria orgulho em me assumir negacionista fervoroso e militar seu favor.

Caso você queira dicas de como se engajar e como se instruir sobre o tema, veja o link: vidasnegrasimportam.carrd.co.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sérgio Luciano