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Só os talheres vão fazer uma grande diferença na luta contra agrotóxicos

Lavradores trabalham em plantação de alface orgânica no interior de São Paulo - Renato Stockler/Folhapress
Lavradores trabalham em plantação de alface orgânica no interior de São Paulo Imagem: Renato Stockler/Folhapress
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

25/06/2020 04h00

Não fosse o martelo da mais alta corte do país, a porteira para a entrada de mais agrotóxicos estaria escancarada. O STF suspendeu a portaria 43/20 que permitia a aprovação de pesticidas no Brasil, sem a devida análise pelos órgãos competentes. Uma espécie de "cheque em branco" às multinacionais, para despejarem no Brasil todos os produtos rejeitados pelos mercados mais criteriosos.

"Não é aceitável que uma portaria estabeleça a liberação tácita do registro de uma substância química ou agrotóxica sem examinar, com o devido rigor, os requisitos básicos de segurança para sua utilização por seres humanos", afirmou o relator do caso, ministro Ricardo Lewandowski.

O Supremo tenta frear o ritmo frenético de registros de agrotóxicos no Brasil. Só no ano passado, foram liberados 475 novos produtos, um recorde histórico. Este ano, já são mais de 150 produtos disponíveis em solo brasileiro.

O argumento da indústria é que os novos agrotóxicos são substâncias modernas, mais eficientes e menos nocivas ao meio ambiente porque funcionam com um dose bem reduzida.

"Para o uso de cada 100 ml de um produto antigo, são necessários apenas 9 ml do produto novo", diz Caio Carbonari, professor da Unesp.

Ainda que sejam produtos de menor toxicidade, estamos falando de veneno. Ponto final. Substância que muda a naturalidade do ecossistema, matando plantações e florestas com sua rica biodiversidade. Uma ameaça grave às abelhas, insetos importantíssimos para garantir a polinização das plantas, um processo fundamental no ciclo da agricultura. O agrotóxico também atinge o lençol freático, poluindo rios e lagos. Pode ainda provocar doenças graves aos trabalhadores rurais, como câncer.

Infelizmente, o jeito de se produzir alimentos no Brasil, em larga escala e quase o ano todo, fez com que agricultores ficassem dependentes do uso de agrotóxicos. Mas isso não deve servir de desculpa para a desova de pesticidas no país.

Está na hora de migrar para um modelo sustentável, de manejo correto do solo, rotação de culturas, controle biológico, variedades resistentes e tolerantes. Ou seja, trabalhar com a natureza, em vez de ir contra ela.

No mercado de commodities agrícolas, o desafio é gigantesco. Entre eles, o de enfrentar o poderio das multinacionais, que produzem os principais agrotóxicos e, ao mesmo tempo, desenvolvem sementes para as grandes culturas.

Já na produção de frutas e hortaliças, o clima é mais animador. A agricultura orgânica, também chamada de agricultura sustentável, natural, biológica, ecológica ou agroecologia, cresce como mato no mundo todo! Já são mais de 70 milhões de hectares em todos os continentes. A demanda por alimentos sem agrotóxicos cresce 40% ao ano no continente europeu.

Sinal dos novos padrões de consumo permeados por valores como justiça social e sustentabilidade ambiental.

Pesquisa Datafolha de julho de 2019 indica que 72% da população brasileira acredita que os alimentos consumidos no país têm mais agrotóxicos do que deveriam. 78% dos entrevistados afirmam que o consumo de alimentos com agrotóxicos é inseguro para a saúde humana. E o consumidor urbano aceitaria pagar até 30% a mais pelos produtos orgânicos ou agroecológicos.

De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, há 68.716 estabelecimentos agropecuários certificados, que fazem uso da agricultura e/ou pecuária orgânica.

Pelo Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, existem mais de 22 mil unidades de produção orgânica no país, um crescimento médio anual de 19%. Temos cerca de um milhão e meio de hectares cultivados organicamente.

O Brasil é o país com maior número de colmeias orgânicas no mundo, com 898.640 unidades. Aqui estão as duas maiores empresas produtoras mundiais de açúcar orgânico. Somos também o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

O faturamento do setor de alimentos orgânicos, em 2018, pelo Conselho Nacional da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), foi de R$ 4 bilhões, seguindo a tendência de crescimento de 25% ao ano.

De acordo com o Idec, existem mais de 850 feiras ou iniciativas de venda de produtos orgânicos no Brasil.

As compras institucionais para a alimentação escolar e os serviços de alimentação de alguns órgãos governamentais têm sido relevantes para possibilitar a valorização da produção orgânica, especialmente, da agricultura familiar.

O martelo da Justiça parece estar funcionando a favor da saúde do brasileiro e do meio ambiente. Mas só os talheres é que vão fazer a grande diferença na qualidade de vida. Está nas mãos do consumidor consciente a escolha por uma nova forma de alimentar o planeta.

Rosana Jatobá