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A importância do esporte nas escolas

Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

31/08/2020 04h00

Hoje me peguei num momento super nostálgico relembrando a minha infância e contabilizando quantos hábitos ruins adquiridos nessa época da vida que eu já mudei. Sem culpas. Sei que cada hábito teve seu processo, mas olha o tamanho da importância que é a gente revisitar alguns momentos da nossa vida, com um olhar mais crítico para achar chaves de algumas mudanças que almejamos.

Eu sempre odiei as aulas de educação física. Era aquele tipo de garota que fingia que tinha esquecido a calça legging ou o shorts só pra ser dispensada da aula. Lembro da minha primeira vez nessa aula. A minha escola tinha duas quadras; uma bem grande e ampla e uma outra, menor e mal cuidada. O professor dividiu a turma em dois grupos: meninos e meninas. Depois, ele anunciou que o primeiro grupo ficaria com ele na quadra grande e o segundo grupo iria para a quadra pequena. A modalidade do dia? Futebol.

Sem supervisão nenhuma e com um total de 0 instruções, restou ao grupo das meninas de 9 anos de idade correrem sem rumo pela quadrinha, se chutando e se acotovelando. Em resumo, foi uma experiência absolutamente tenebrosa. Até hoje tenho medo de atividades que exijam muito contato corporal. Se eu fechar os olhos e me concentrar, consigo voltar para aquele dia, de tão marcante que foi essa experiência.

Muitas análises podem ser feitas a partir daí. A mais óbvia é a diferença no tratamento de gênero. O professor selecionou ali as pessoas que, na visão dele, eram mais aptas e dignas de receber atenção. E, sejamos sinceras, este não é um acontecimento isolado e sim, um comportamento normal. A gente seleciona e poda crianças baseadas no seu gênero. Quantas grandes atletas não perdemos neste processo?

Um segundo ponto que quero levantar é o da desvalorização das práticas esportivas na infância. Por quê praticamos esportes? Bom, por inúmeros motivos. Com eles, aprendemos a ter consciência corporal, desenvolvemos diversas habilidades de colaboração, cooperação e de socialização. Também passamos a dar mais atenção aos alimentos que consumimos e assimilamos com mais força a ideia de que o que comemos afeta diretamente nosso corpo e nossa performance. Sem falar nos evidentes benefícios para o nosso condicionamento física, desenvolvimento muscular e prevenção de doenças? Viu a importância do estímulo da prática de esportes na infância? É muito mais do que só criança correndo pra lá criança correndo pra cá.

Agora, eu trago um terceiro ponto para a mesa. Eu estudava numa escola pública. Quando cheguei numa faculdade particular de elite, não entendia o por quê a maior parte dos alunos e das alunas eram completamente alucinados por esportes. Para além das festas e bebedeiras que sempre envolvem os eventos de jogos universitários, o amor pelas competições era evidente. Foi então que eu entendi que acesso à esportes é um privilégio. Seus pais te matricularem na natação, na escolinha de futebol, na equitação, no balé e afins. Tudo isso está relacionado à poder monetário, quem diria né?! Como quase tudo dentro da festa imoral do liberalismo econômico, coisas que deveriam ser direitos e que fomentam saúde, cidadania e dignidade passam a circular na forma de produtos. Todos esses benefícios que citei acima não podem ficar limitados aos que "podem pagar por eles".

Dificultar e/ou não estimular a prática de esportes nas escolas públicas e sim, uma forma menos escancarada de arreganhar o abismo que existe no mundo, onde de um lado se encontram àqueles que usufruem, e do outro àqueles que produzem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.