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Pedalar é um exercício para a alma

Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

05/08/2020 14h26

Chegamos num momento da pandemia no Brasil em que tivemos que tomar algumas decisões pessoais. Eu fiz uma pandemia até que bem regrada. Só saia para ir ao mercado, à feira ou para resolver assuntos urgentes. Contudo, com o tempo passando, a reclusão foi ficando cada vez mais penosa. Foram 4 meses que, de dentro de casa, fui observando o total abandono institucional ao qual fomos relegados. Um descaso total que machucou muito. Àquela sensação de estar me sacrificando por nada. Sabemos que não é "por nada" e que, com toda certeza, o isolamento social evitou que a nossa situação atual chegasse a uma situação bem pior.

Os custos de um tempo tão longo de isolamento combinado com notícias muito desanimadoras de esferas políticas cobram seu preço. Tem sido difícil manter o equilíbrio mental para equilibrar todos os pratos de 2020. Muitos vêm a essa altura defendendo as medidas de redução de danos. Pensando nisso e na manutenção do meu bem-estar mental, emocional e corporal, eu e meu namorado resolvemos no domingo dar uma boa pedalada por São Paulo.

Fiquei feliz demais de constatar o maravilhoso dia ensolarado que raiava na manhã de domingo. Parecia que pedalar longas distâncias era coisa de uma outra vida, que tinha pertencia a uma outra pessoa, em outro momento no tempo. Demos um banho na bike, procuramos as nossas máscaras mais confortáveis e colocamos as rodas na rua.

Fazia tanto tempo que eu não pedalava acompanhada que já tinha até esquecido como é uma sensação maravilhosa. É incrível a influência positiva no cérebro que o compartilhamento de bons momentos com pessoas que amamos causa.

A rua estava relativamente vazia. Os domingos deste ano são diferentes dos domingos dos anos passados. Sol quente e brisa gelada nos envolvendo completamente. Conforme pedalávamos, sentíamos o corpo desenferrujando. Ao todo, percorremos 36 km, passando pelo Butantã, Faria Lima, Berrini, João Dias, Adolfo Pinheiros, Ibirapuera, e outras vias. A cada metro percorrido, eu me sentia mais forte, mais viva e, sem dúvidas nenhuma, mais feliz. Me lembrei o motivo de eu amar pedalar. Me faz tão bem.

Até que estejamos todas e todos devidamente vacinados, nossas vidas serão cheias de restrições. Mas é importante ter sempre em mente que, apesar de tudo, seguimos vivas!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.