PUBLICIDADE
Topo

Milo Araújo

A visão de quem está pedalando em tempos de pandemia

Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

25/05/2020 04h00

Durante a pandemia, a minha relação com a minha bicicleta se alterou. Eu a usava como meio de locomoção. Todos os dias pegava a bike na garagem e pedalava de casa até o trabalho, a noite passava em algum lugar que precisasse ir e depois voltava para casa. Nessa nova ordem tenho conseguido trabalhar de casa como dá, caçando uns freelas aqui, pedindo umas indicações acolá.

Entretanto, minha condição não é universal no Brasil de 2020. Existem pessoas que ainda precisam se transportar até o seu local de trabalho diariamente e também existem as pessoas que antes faziam uso da bicicleta como forma de subsistência, como os entregadores e entregadoras. Esses dois grupos experienciaram a cidade a partir da ótica do ciclismo nesses dois distintos contextos: pré e pós-pandemia de Covid-19.

Com isso em mente, eu elaborei algumas perguntas para entender como estão as ruas de São Paulo e vou colocar aqui para vocês na íntegra as respostas que encontrei. Para entendimento das respostas, entenda "P01" por Pessoa 01, "P02" por Pessoa 02 e por aí vai.

Por qual motivo você tem usado a bicicleta?

P01: Já usava. Agora faço uso em considerar mais seguro em não propagar a doença.

P02: Trabalho e para toda atividade que eu fazia de transporte público.

P03: Para ir até o trabalho, senão teria de pegar trem, metrô e a lotação até o local de trabalho.

P04: Trabalho e lazer.

P05: Lazer, locomoção urbana e uma forma nova de ver a cidade.

P06: Trabalho/saúde.

P07: Ir ao trabalho, mercado e etc

Você observa diferença no comportamento dos motoristas durante a pandemia?

P01: Sim. Devido ao fluxo menor de carros em circulação, mas é só por isso.

P02: Parecem ser mais irresponsáveis.

P03: Não vi diferença não, meu último percurso para casa e trabalho, carros acelerando a gente pra correr, não respeitando o limite de distância entre ciclista e carro, no início da pandemia tava mas tranquilo, mas de 5 dias pra cá, não achei diferença.

P04: Mais estressados

P05: Não.

P06: Tem um pouco menos de carro e a maioria das vezes percebi um pouco mais de respeito em relação à minha imagem de trabalhadora/entregadora como se tivesse sendo um pouco mais reconhecida na função, por conta do momento. Impressões... Mas não tenho certeza. Durante essa quarentena apenas um carro gritou para que eu saísse da rua. No mais, ando me sentindo parte importante pro sistema sobreviver.

P07: Sim, mais impacientes e mais velozes.

Você se sente segura (o) em relação ao vírus pedalando atualmente?

P01: Não.

P02: De certa forma sim, por se tratar de o caso de se pedalar só.

P03: Sim.

P04: De certo modo sim, evitando pegar transporte público e o contato com pessoas muito próximas.

P05: Não muito.

P06: Me sinto segura na maior parte das vezes. Optamos por não usar maquininhas para evitar contato, logo os clientes fazem depósito ou transferência. Apenas desço da bike, faço minha entrega ou retirada, uso álcool e já saio. Sobre o uso da máscara, dependendo do lugar por onde pedalo, por exemplo, ciclovias, faço o uso da mesma, pois pedestres ou/e ciclistas quando não usam e estão à minha frente, me deixam desconfortável e com medo.

P07: Sim

Quais medidas de segurança você adotou?

P01: Máscara e asseio.

P02: Álcool gel, máscara, o máximo de distância possível.

P03: Tenho usado máscara, álcool gel sempre que saio de casa e quando paro para tomar água, passo na mão, e esses dias comecei a limpar a bike também todo dia.

P04: Máscara sempre, álcool e tomar banho assim que chegar da rua.

P05: Álcool em gel, máscara e higienização da bike sempre.

P06: Uso de máscara, álcool e distância. No início usava luvas mas não foi muito viável no meu caso pois precisaria de muitas...

P07: Neckwarmer para respirar melhor.

Quais observações você tem feito em relação à quantidade de pedestres na rua?

P01: De fato, nenhuma se considerarmos que as pessoas devam estar exercendo qualquer tipo de ação para que suas saídas de casa sejam para justificar as idas aos lugares que entendo como necessário

P02: No meu bairro, aumentaram.

P03: Essa parte está sendo difícil, tenho visto pessoas correndo, fazendo caminhada, outras em praças trocando copos, esses dias mesmo caí numa ciclovia por conta de um grupo de 5 pessoas correndo nela, e não me ouviram buzinar e fui desviar e acabei caindo e tendo prejuízo na bike, não sei qual parte que não entendem que não é nada empático estar na rua.

P04: Muita gente à toa na rua.

P05: A quantidade é menor dependendo da região da cidade, há lugares onde parece que a vida segue normalmente. A maioria usa máscara mas nem sempre respeitam uma distância segura.

P06: Acho que tem muita gente fora de casa que não precisa estar. Gente fazendo esportes ou num comportamento de férias com crianças e velhos... há quem se sinta imune pelo visto.

P07: Em certos lugares ainda cheio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.