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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Travestis trabalham com excelência! Mas onde fica o nosso direito de errar?

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Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

21/07/2021 06h00

Em uma realidade social onde pessoas trans têm pouquíssimas oportunidades de trabalho, adotamos uma medida de qualidade que beira a excelência. É muito comum agarrarmos toda e qualquer possibilidade de trabalho com tudo o que temos, entregando resultados muito melhores do que o esperado, mas como lidar com a nossa saúde mental quando, além do esperado de nós ser sempre algo de baixa qualidade, qualquer erro que cometemos é visto como motivo de desvalidação completa?

Homens cisgêneros e brancos - o suprassumo da hegemonia dos poderes estabelecida socialmente - erram constantemente. Além de por diversas vezes entregarem resultados inferiores em seus trabalhos, também são responsáveis por inúmeros casos de abuso sexual, moral, entre outras situações de violência e incompetência no trabalho. Mesmo assim, estes mesmos são sempre vistos como dignos de uma segunda, terceira ou quarta chance.

Ser uma travesti no mercado formal de trabalho - quando possível - é ser observada a todo momento, e não com olhos de atenção direcionada à realização das funções necessárias do ofício, mas olhares atentos em busca do nosso mais mísero erro. É muito comum sermos subjugadas, inferiorizadas. Desacreditam do nosso potencial e da qualidade do nosso trabalho, mesmo quando possuímos vasta formação e experiência na área.

É como se a todo momento, por trás da face inclusiva dos empregadores estivesse sempre presente uma frase ecoando "será que eu devia mesmo ter contratado essa pessoa?", "será que ela vai dar conta do recado?", reforçando ainda mais a ideia assistencialista de serem "obrigados" a nos contratar, contra a sua própria vontade.

Sim, a obrigatoriedade é uma pauta a ser levantada, dado que somos excluídas do mercado de trabalho de forma brutal, porém somos extremamente competentes para a realização das funções que nos propomos e, sem exageros, dignas da excelência que apresentamos quando contratadas. Excelência esta que é resultado dessa mesma exclusão, pois sabemos que se errarmos no menor detalhe que seja, a porta da rua é a primeira a nos reencontrar.

Eu, como atriz, já passei por inúmeras situações de desvalorização do meu trabalho sem motivo algum, mesmo tendo começado a estudar interpretação há dezesseis anos atrás e possuindo dez anos de carreira profissional. Pior, ao mesmo tempo que me percebia observada em meus passos com olhares de subjugamento, sofria transfobias consecutivas dos mesmos contratantes que me convidaram para o trabalho. Nesse caso - e na maioria deles - eu era a única pessoa trans em todo o projeto.

Como me posicionar perante essa situação sendo que ninguém ali vive o que eu vivo para me entender por completo? Como pedir auxílio sendo que o próprio diretor era quem me contratou e quem me desrespeitava? Como sobreviver ao trabalho sem desistir, já que eu precisava do dinheiro e da visibilidade que ele me traria. Por que desistir se a errada nessa história não era eu, mas meu poder ali dentro era ínfimo em relação ao meu algoz?

São muitas as contradições que nos mantém no problema. Por sorte - e estratégia - consegui reverter as situações até aqui. As violências não cessaram, porém consegui por vezes fazer com que toda a equipe soubesse do que estava acontecendo e eu tivesse algum amparo, até mesmo para não ser colocada como louca caso eu resolvesse responder à altura das violências que estava sofrendo.

Por fim, sempre entreguei um trabalho de qualidade, elogiada pelas equipes, pelo público e inclusive pelo próprio diretor - nesse caso específico em que era essa figura o maior responsável pelas transfobias. Entreguei, mas com muito esforço e foco, pois essas violências me tiravam a atenção constantemente do que eu estava fazendo, que era ser atriz de uma série e nada mais. Sendo travesti jamais conseguimos realizar o nosso trabalho e ir embora sem passar por situações das mais adversas - e das mais violentas. São raríssimos os espaços majoritariamente cisgêneros de trabalho onde não sofremos nenhum ataque, seja ele o mais sutil aos olhos normativos.

Dada essa realidade, somos praticamente obrigadas a sermos excelentes. A excelência, além de uma característica do nosso empenho, é resultado da cobrança desigual da qualidade do que apresentamos. É fruto de uma estrutura transfóbica e racista que insiste em nos marginalizar mesmo quando nos contrata, pois procura brechas para nos demitir ou desmerecer a todo momento.

Incluo a racialidade aqui porque, além de não termos como olhar para as questões sociais sem pautarmos a racialização dos corpos, as pessoas pretas e indígenas também passam por esse crivo de qualidade - ou "desqualidade". Somente mesmo as pessoas brancas e cisgêneras que passam mais ilesas nessa observação - levando em conta que mulheres cisgêneras e brancas também são subjugadas, mesmo estando mais próximas da hegemonia dos poderes.

Dito isso, fico me perguntando onde fica a nossa possibilidade de errar. Errar por arriscar fazer nosso trabalho de outra forma, errar por estar buscando romper nossos limites, ou simplesmente errar por uma desatenção besta e mundana, como qualquer outra pessoa está sujeita na vida. Onde fica nossa possibilidade de respirar e realizar nossos trabalhos sem olhos rastreando nossos passos em busca do primeiro pequeno deslize para dizer "eu sabia que não devia ter contratado ela"?

Nossos espaços de construção coletiva entre pessoas trans, o famoso "nós por nós" - muito reiterado e proposto pela população preta - têm sido um grande respiro nesse sentido. Um dos poucos espaços onde conseguimos construir coletivamente com respeito às individualidades e valorizando a potência de cada uma, porém nós temos total direito de estar nos mais diversos espaços, trabalhando nos mais variados lugares, e sem sermos desrespeitadas e subjugadas a todo momento.

Essa é uma reflexão que, no fim das contas, eu sei a resposta. Esse problema não está na minha ou nas nossas mãos enquanto pessoas trans, porém um ponto é ainda nebuloso e demanda muito trabalho: Quais estratégias adotar para burlar essa lógica se não somos nós que a instituímos?

Deixo essa pergunta para as pessoas cisgêneras e brancas, por que no fim das contas mudar essa realidade depende principalmente de vocês. O capitalismo opera através da hierarquia estabelecida pelo acúmulo de riquezas, mas não podemos nos esquecer que a marginalização de determinadas populações - em suma as não-brancas e não-cis - é também estratégia de manter a hierarquia tal como está, liderada por poucos e sempre os mesmos, impossibilitando a dignidade, o bem estar e a prosperidade de outres em prol da abundância individual. Se hoje estamos lutando por equidade nos espaços de trabalho e na validação dos direitos de todes, precisamos que essa mudança seja efetiva e estrutural, se não ficaremos mais uma vez apenas escutando belas palavras enquanto não vemos transformação de fato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL