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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O samba não pode parar

Nelson Sargento fez show em homenagem ao sambista Cartola, em 2016 - Edinho Alves/Divulgação
Nelson Sargento fez show em homenagem ao sambista Cartola, em 2016 Imagem: Edinho Alves/Divulgação

Mariana Belmont

03/06/2021 06h00

Sempre fui uma pessoa de rezar, fechar os olhos, pensar nas coisas que eu queria e agradecer. Essa semana pensei mais sobre isso: tentei resgatar quais os percursos me fizeram acreditar tanto em coisas que eu não podia tocar, quer dizer mais ou menos. Eu rezo, ao dormir, final do dia e quando o samba me convoca para rezar.

Fui criada por uma família nordestina, e desde muito pequena, aos sábados, íamos ao terreiro de candomblé de uma senhora lá no meu bairro. A gente se arrumava bonito, pegava umas coisas e íamos juntos adultos e crianças em direção a um sítio. Eu tenho poucas lembranças, mas lembro que era um encontro de sorrisos e festas, danças e o som imponente do tambor. Foi com a minha família que aprendi a respeitar e entender o que significava tudo aquilo e como eram gigantes e importantes os tantos rituais de conexão com o visível e o invisível.

Ao dormir eu rezava um pai nosso, falava com quem me vinha ali a cabeça na hora e acreditava.

Uma vez, em casa, meu irmão estava ouvindo Noel Rosa. Era um dia de semana, e ele me disse: "Mariana, ouve direito essa música, é uma reza, não parece? Você não sente seu corpo quando ouve?". Realmente! Depois desse episódio, o samba, até hoje, faz parte das minhas orações.

Lembrando de tudo isso em uma semana que o Brasil perdeu Nelson Sargento, nosso baluarte do samba, a quem o próprio samba, a história e a cultura do país devem muito. Aprendemos com ele que o samba é memória, tradição que sustenta o presente, o passado e o futuro.

Aos amigos, disse que sempre que um sambista morre, sinto uma dor tremenda e quero logo ouvir de novo as músicas para registrar que o que me encantava não era só a roda de samba, as letras, mas os abraços capazes de curar dores incuráveis. Os encontros que viram histórias de família. Nelson trazia isso, era a história em forma de música, uma voz que conectava as pontes que nos fazem chegar em rodas de samba em várias comunidades deste país.

Enquanto fazia o exercício de pensar sobre rezar e quais foram as coisas que me fizeram acreditar, me perguntei se, naquele exato momento, estava rezando. Será que as pessoas estão rezando? E eu nem acho que você precisa ter uma religião para rezar, basta você sentir que precisa se conectar com o que faz seu coração se emocionar. Veja se "Vim lhe pedir", do Nelson, não é uma reza.

"Vim lhe pedir
Me perdoa, reconheço errei
Se aqui voltei
Foi para lhe dizer então
Que há motivos de força maior
E, às vezes, prende a gente
Me dissestes que voltei cinicamente
Pra zombar de te ver chorar..."
- Nelson Sargento

Acontece isso também quando a gente ouve Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Gal Costa, Maria Bethânia, Arlindo Cruz, Gilberto Gil, Cartola, Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho. A lista é enorme, os grandes que abriram, e ainda abrem, caminhos para que as orações e as bênçãos fossem escritas e cantadas.

Quando meu irmão morreu eu cantei uma música baixinho pra ele, enquanto o mundo desmoronava, uma saudade atravessava e afivelava o peito, o estômago reprimia,. E, bem baixinho, eu rezava Dona Ivone Lara.

"Tristeza rolou dos meus olhos
De um jeito que eu não queria
E manchou meu coração
Que tamanha covardia

Afivelaram meu peito
Pra eu deixar de te amar
Acinzentaram minh'alma
Mas não cegaram o olhar

Afivelaram meu peito
Pra eu deixar de te amar
Acinzentaram minh'alma
Mas não cegaram o olhar

Saudade, amor, que saudade!
Que me vira pelo avesso
E revira meu avesso

Puseram a faca em meu peito
Mas quem disse que eu te esqueço
Mas quem disse que eu mereço".

A oração é pessoal, uma escolha que nos faz enxergar nossas dores e sentimentos e o que nos vai fazer bem ouvir, bem cantar, bem ler e bem viver.

Não é poesia barata. um país que perdeu quase meio milhão de pessoas para um vírus e para um governo com plano de extermínio, precisamos rezar para achar, nessas conexões, horizontes que nos ajudem a buscar um futuro mais livre, de abraços, com saúde e minimamente habitável para vivermos.

Eu sempre rezei, acho que faço isso agora enquanto escrevo, ouvindo o disco da Jovelina, o mesmo que em forma de disco eu ouvia em casa aos sábados com a minha família cantando junto. Parece poético demais, mas sem medo, posso dizer que aquele quintal de terra com um monte de árvore de limão cravo e galinhas correndo me fez feliz. Agradeço por isso.

Há alguns meses, uma amiga do Pagode da 27, a Simone Oliveira, convocou amigos para um grupo de Whatsapp. Todos os dias nos reunimos para pensar, orar ou só jogar alguma intenção para a melhora de amigos, família e conhecidos. Não tem religião, tem religião e tem a força da amizade ali conectada pelo bem maior. Simone nem sabe, mas ela tá salvando a gente da gente mesmo.

Enquanto escrevia esse texto, perdi um grande amigo, Luiz Macalé. Na tarde de domingo a notícia chegou como um vulcão, meu corpo dormente não entendia o que se passava no coração e na cabeça. Nosso amigo Sócrates confirmou. Uma morte que não compreendemos ainda, muito inesperada e esquisita. Ainda sentimos esse furacão aqui por dentro da gente.

Macalé era a vida, nosso poeta, cantor e quem mobilizava o mundo para sorrisos e grandes debates inteligentes. Era quem abraçava de longe, era quem acolhia e cuidava. Era quem eu escrevia para saber se estava tudo bem, na tentativa de cuidar do invisível, aquele que passa pelo coração. Perdemos Macalé, que rezava em forma de presença, num alto e marcante tom de voz.

De novo fiz uma oração.
Como a gente se distancia da nossa vida quando escrevemos? Eu ainda não aprendi. Tudo sobre o mundo é também sobre as pessoas, sobre quando ganhamos ou perdemos a experiência da existência das pessoas.

Há mais de um ano esperando dias melhores.
E como diz nosso mestre Arlindo Cruz: "Se a luz do sol não para de brilhar, se ainda existe noite e luar, mal não pode superar. Quem tem fé pra rezar diz amém. E ver que todo mundo é capaz, de ter um mundo só de amor e paz. Quando faz só o bem".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL