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Presidente, a Amazônia é nossa e queremos ela de pé!

Guilherme Perez
Imagem: Guilherme Perez
Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

17/09/2020 12h43

Era um final de ano, navegando entre um rio e outro. Saímos de São Paulo rumo a uma aventura com amigos daqui e de lá. A missão: descobrir alguns lugares da Amazônia. Eram poucos dias, mas a ansiedade e a felicidade estava colocada. Eu já conhecia o norte, Manaus e Porto Velho já tinham passado pela minha rota, e eu já tinha sentido aquele ar em conexão com a minha pele.

Eu pedia licença para estar ali, navegando naquele barco cheio de redes e pessoas, sem contar a música alta que propiciava um espaço de interação para todos se conhecerem. Uma bela paisagem naquela imensidão do Rio Negro e Solimões, Rio Amazonas e Rio Tapajós. Costumo me lembrar com muito detalhe dessa viagem, principalmente da vida dos rios. Rios vivos, que formam lugares e se conectam com a floresta de forma absurdamente linda.

A falta de informação sobre Amazônia me fez imaginar uma coisa, chegar lá e descobrir um país infinito e possível. Difícil contar, por muitas vezes tentei escrever e dizer de qualquer jeito o que foi caminhar por oito horas até a sumaúma e poder provar a comida boa na comunidade de Jamaraquá, na Floresta Nacional do Tapajós.

Até hoje fecho os olhos e lembro da gente nadando no Igarapé. Para sair da comunidade a gente precisava atravessá-lo, a nado ou de barquinho, para chegar na areia e pegar o barco de volta para Alter do Chão. De dentro do igarapé, a gente vê o sol indo e a lua chegando, é lindo. O céu imenso e próximo, a floresta criando a água que a gente nada.

Amazônia - Guilherme Perez - Guilherme Perez
Imagem: Guilherme Perez

Os dias entre muitas cidades, muitos rios e muitas descobertas, entre Alter do Chão, Belém, Algodoal, Ilha do Marajó e os caminhos. A vida nos grandes barcos que vão de lá e para cá que circulam pelo norte. É bonito, mas nas margens também tem pobreza e esquecimento do Estado.

A biodiversidade, as pessoas, a paisagem, a vida que pulsa na Amazônia é transformadora. E meu relato é também sobre saudade: da comida, do cheiro e das pessoas. Muitos amigos por lá.

Nas últimas semanas acompanhamos a Amazônia queimando, o Pantanal queimando, o cerrado queimando e todo o mundo ardendo. Eu acho que não há lamento suficiente, não há revolta ou texto de repúdio. Mas claro, tudo vale, até ação simbólica em post do presidente da república. Mas nada se move com isso.

Que tristeza.

Viajar pela Amazônia é entender também suas riquezas de sabores. Voltamos de lá com muito tucupi e jambu, comemos com uma beleza de olhar. Era tudo tão bonito e gostoso. Castanha, chocolate, cupuaçu de manhã, de tarde e de noite.

Mariana Belmont - Guilherme Perez - Guilherme Perez
Imagem: Guilherme Perez

Ando relendo alguns livros, e esses dias peguei firme no "Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza", do professor Ricardo Abramovay. O livro, de leitura rápida, mostra que o atual modelo de desenvolvimento, produtivista-consumista, levará muito provavelmente a humanidade à autodestruição. E que precisamos denunciar o processo de degradação em curso e construir uma outra forma de organização social e econômica que nos permita viver e conviver harmoniosamente com a natureza, da qual fazemos parte.

"Este texto (livro) oferece argumentos e dados empíricos para contestar a visão tão frequente de que o crescimento econômico na Amazônia supõe a substituição de áreas florestais (em geral ocupadas por populações indígenas e ribeirinhas) por atividades agropecuárias tradicionais como a soja e a pecuária. Mostra também que a destruição florestal, além de privar o Brasil e o mundo de serviços ecossistêmicos indispensáveis à própria vida, apoia-se em atividades ilegais e, com muita frequência, no banditismo. As consequências do avanço do desmatamento são desastrosas para a economia da Amazônia e para a própria democracia brasileira. No lugar dos laços de confiança que poderiam emergir como resultado da exploração sustentável da floresta em pé, o atual modelo de ocupação da Amazônia fortalece a criminalidade e dissemina a insegurança por toda a região." - Ricardo Abramovay.

O Ricardo escreve muito sobre esse e vários outros pontos importantes na coluna dele aqui no UOL.

De acordo com dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon, os alertas de desmatamento subiram 68% em agosto de 2020, em comparação com o mesmo mês do ano passado. O instituto afirma que é o pior mês de agosto verificado nos últimos 10 anos de monitoramento. E o número cresce a cada dia.

A Amazônia está no centro do debate sobre a crise ambiental, não apenas para o nosso país, mas para todo o mundo. Precisamos da floresta em pé para lutarmos contra as mudanças climáticas e construirmos um caminho de desenvolvimento sustentável, mas, para isso, é preciso reconhecer com urgência o papel das populações tradicionais e de suas atividades na ocupação das áreas. E a responsabilidade para a preservação da Amazônia é de toda a população brasileira.

Como aponta Ricardo Abramovay, no período entre 2004 e 2012 o país conseguiu reduzir o desmatamento em cerca de 80% na Amazônia, sendo internacionalmente reconhecido por esta conquista e tornando-se líder global na elaboração de mecanismos voltados à proteção e à exploração sustentável da floresta.

Existem esforços para mostrar uma outra face da floresta, que produz e oferece uma grande diversidade de ativos que, cada vez mais, são usados na produção de cosméticos, arte, acessórios, itens de decoração, óleos e alimentos deliciosos. Pensando nisso, um coletivo de organizações se uniu para lançar o chamado Amazônia em casa, Floresta em pé. A campanha, que se desenvolve ao longo de todo o mês de setembro, é um convite para conhecer produtos que ajudam a manter a floresta em pé, já que são obtidos a partir do uso sustentável dos recursos naturais, gerando trabalho e renda para suas comunidades e valorizando seus saberes.

A riqueza de frutos, óleos, sementes, e iguarias gastronômicas da Amazônia é resultado da interação entre os habitantes da região e a floresta por centenas de anos. Além de toda flora e fauna, a Amazônia é feita de pessoas. Gente que vive dentro, às margens e ao redor dessa abundância toda e que transformam os recursos da floresta em produtos exclusivos, saborosos e cheios de identidade.

Sim, um modelo de desenvolvimento com a floresta em pé e com o fortalecimento das comunidades e povos da floresta, é possível.

Que delícia poder usar e consumir produtos da floresta, feitos com responsabilidade ambiental e para que a floresta siga firme. Aqui em casa tô com tucupi preto (se você nunca comeu, compre e coma!). Eu me apaixonei por ele na casa da Adriana Ramos, grande amiga e inspiração na defesa das florestas. Em Alter, na casa da dona Consuelo, o grande almoço de família com peixe no açaí, tucupi e jambu. Aproveito o espaço para agradecer a acolhida de muitos dias, a amizade do Relison e da Elba, e a bela viagem com Nathalia e Guilherme, que me ajudaram a descobrir a imensidão deste país.

Compactuar com o desmatamento é dar as mãos ao atraso, a violência, o racismo ambiental e toda a vida humana do planeta. Resta a pergunta: que caminho vamos escolher seguir?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.