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Mariana Belmont

PM de Minas deixa feridos em acampamento do MST Quilombo Campo Grande

Ação da PM-MG em assentamento do MST Quilombo Campo Grande - Movimento Sem Terra - MST
Ação da PM-MG em assentamento do MST Quilombo Campo Grande Imagem: Movimento Sem Terra - MST
Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

14/08/2020 19h32

Assistimos em tempo real à ação violenta da Polícia Militar em Minas Gerais em meio à pandemia de Covid-19 que já matou mais de 100 mil pessoas no país. O momento nos pede atenção sobre a urgência de denunciar ações de despejo em territórios rurais.

A Polícia Militar de Minas Gerais ateou fogo no acampamento do MST Quilombo Campo Grande, no sul do estado, para espantar as mais de 450 famílias que resistem bravamente ao despejo covarde ordenado pelo Tribunal de Justiça de Minas, com a conivência do governador Romeu Zema.⠀

Famílias foram reprimidas pela Polícia Militar de Minas Gerais no início da tarde de hoje (14). Os acampados relatam que as forças policiais usaram bombas de gás lacrimogêneo e avançaram com o Choque contra as famílias, que estão há mais de 50 horas lutando contra a reintegração de posse da área.

Ação da PM-MG em assentamento do MST Quilombo Campo Grande - Movimento Sem Terra/MST - Movimento Sem Terra/MST
Ação da PM-MG em assentamento do MST Quilombo Campo Grande
Imagem: Movimento Sem Terra/MST

O despejo começou dois dias antes, no início da manhã de quarta-feira, e já destruiu a escola comunitária Eduardo Galeano e um barracão coletivo onde moravam três famílias. Há denúncias de que também estão bloqueando a entrada de comida para moradores. Com uma vasta produção agroecológica e a organização do MST, as famílias estavam construindo um polo de conhecimento e tecnologia em agroecologia, reconhecido nacionalmente.⠀

Na noite da última terça-feira, após a corajosa resistência das famílias e de intensa mobilização popular em todo o país, o governador chegou a anunciar que a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social havia pedido a suspensão do despejo. Mais tarde, voltou atrás e "esclareceu" que o pedido havia sido feito na terça-feira, antes do início da reintegração de posse, e que a Justiça havia negado.

Sigo mortificada com tamanha covardia: despejar pessoas em meio a uma das maiores crises sanitárias de nossa história é desumano! Como ficar em casa se o Estado quer destruí-la? Segundo o MST, nem a polícia sabe dizer para onde seriam levados os trabalhadores rurais que vivem no acampamento, embora tenham chegado a sugerir a Vila Vicentina, onde se concentram casos confirmados de Covid-19 na cidade. É assombroso!

Áurea Carolina, Deputada Federal por Minas Gerais

As cenas são aterrorizantes, cenas de guerra e destruição. A polícia militar do estado de Minas Gerais, com ordens do Governador Romeu Zema, batem com com os cassetetes em seus escudos, moradores sem-terra do acampamento Quilombo Campo Grande, na área rural de Campo do Meio (MG) correm às pressas, salvando livros, carteiras e lousas da escola. Na manhã de hoje, a ação de reintegração de posse em andamento na área desde ontem começou justamente com um trator destruindo a escola Eduardo Galeano — a única do acampamento, onde vivem cerca de 450 famílias.

O território ocupado por integrantes do MST há 22 anos está dividido em dois terrenos. Para ambos, há pedidos judiciais de reintegração. A ameaça iminente de despejo afeta um deles, parte do território da falida Usina Ariadnópolis, onde estão 13 famílias, segundo o MST. Quatro delas já foram removidas pela Polícia Militar de Minas Gerais, que está executando uma ordem judicial.

Tentei agora à tarde informações e posição do governo mineiro sobre a grave situação e não tive retorno. Em matéria publicada há pouco aqui no UOL, o Governo de Minas Gerais disse que não tem competência para suspender uma ordem judicial e, portanto, não pode reverter a ação de reintegração de posse em Quilombo Campo Grande.

"A ordem de reintegração de posse da gleba da Fazenda Ariadnópolis é oriunda de processo judicial transcorrido. Seu eventual descumprimento é crime de desobediência tipificado no Código Penal", dizia a nota.

Tudo isso acontecendo neste momento, ao vivo. Estamos assistindo a um massacre da população quilombolas!

É urgente que o governador Romeu Zema recue as tropas e que as famílias possam preservar sua saúde e cuidar das pessoas feridas. Pessoas que resistem há mais de 48 horas a esse despejo criminoso. Covardia tremenda do governador Romeu Zema que arranca o sangue de quem produz e vive em uma terra livre, dividida, de comunhão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.