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Sérgio Vaz me ensinou a democratizar a palavra

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

16/07/2020 04h01

Tenho achado mais difícil escrever e pensei sobre isso essa semana. Saí de casa pela primeira vez em mais de 120 dias. O misto foi de medo, pavor, desespero e ódio. E no caminho, de carona com um amigo, pensei sobre como eu estava vivendo muito dentro de casa nos últimos dias. Está mais difícil ser criativa para escrever, para falar e para pensar.

Estou lendo vários livros e não termino nenhum. Eu ouço podcast. Ensaiei fazer um podcast, mas acho que não tenho conteúdo. Vivo com a incerteza, as alegrias momentâneas e a falta de ânimo e criatividade. Não aguento mais as chamadas de vídeo, sejam elas reuniões, sejam elas conversas entre amigos. Aquilo me paralisa.

Vocês se sentem assim?

No domingo mesmo, eu estava em uma chamada com amigas, assistindo Fantástico, e apareceu Parelheiros. Na hora não entendi direito, porque fiquei tão chocada com as cenas... Não é possível. Aquelas imagens atravessam a minha semana, não consigo me deparar com aquilo e não pensar em casa, nos meus primos, tias e meu padrinho. Não consigo parar de pensar nos meus amigos que podem passar por aquilo.

Lembra? É todo dia uma desgraça nova.

Não consigo parar de olhar para a falta de noção de uma pequena parcela rica da população que mede pelo Twitter o grau de fama e prestígio que alguns ganharam. Que momento que a vida toda foi transferida para o Twitter, gente? Foi pré ou durante quarentena. Virou uma praça.

E ainda tem eleições, né? Meu deus, eu preciso começar a pensar e escrever mais sobre eleições, coloquei na lista aqui.

No meio desses dias descobri que na verdade meu ascendente não é escorpião, na verdade eu nasci no horário de verão, dia vinte dois de janeiro, às duas horas e cinquenta minutos de mil novecentos de oitenta e oito. Ou seja, eu sou aquário com ascendente em sagitário. Aguardo retorno sobre meu mapa.

Tá vendo, o movimento da vida está desgovernado.

Alguém uma vez me disse que o caminhão está desgovernado. Daqui a pouco não haverá floresta, não haverá quem nos conte as histórias que a história não conta. Daqui a pouco não teremos memória?

É com tristeza que essa semana não trago esperança, trago angústia e lágrima. Mais uma semana de grande dificuldade. Já não sabemos lidar com os dados, com a realidade, não conseguimos impedir as mortes e nem nos assustar com elas.

É, está tudo confuso mesmo, mas nosso lugar de horizonte estarmos prontos para novos futuros e nos mantermos vivos. E registrar o que temos passado, as vontades e as desgraças é importante. E ler quem nos ensina a viver, como Sérgio Vaz, poeta que nos ensina a organizar e desorganizar as palavras.

É tempo de cada vez mais ler mestre Vaz.

NOVOS DIAS - Sérgio Vaz

Este ano vai ser pior...

Pior para quem estiver no nosso caminho.

Então que venham os dias.

Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para.

Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente-os!).

É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras.

Não aceite nada de graça, nada. Até o beijo só é bom quando conquistado.

Escreva poemas, mas se te insultarem, recite palavrões.

Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.

Outra coisa, pior que a arrogância é a falsa humildade.

As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.

Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo.

Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.

Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.

Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.

Por favor, gentileza gera gentileza. Obrigado!

Os Erros são teus, assuma-os. Os Acertos Também são teus, divida-os.

Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.

Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões.

Qual a tua verdade ? Qual a tua mentira? Teu travesseiro vai te dizer. Prepare-se!

Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos, nesta hora eles serão honestos.

Quando estiver fazendo planos, não esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.

Se vai pular sete ondinhas, recomendo que mergulhe de cabeça.

Muito amor, mas raiva é fundamental.

Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.

As Manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.

Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.

Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.

O Ano novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você.

Feliz todo dia!

Mariana Belmont