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Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Compostagem de Lages (SC) bate recorde no desvio de orgânicos do aterro

Bolsista Beatriz Souza mostra batata doce colhida na escola Santa Helena  - Divulgação/ Projeto Lixo Orgânico Zero
Bolsista Beatriz Souza mostra batata doce colhida na escola Santa Helena Imagem: Divulgação/ Projeto Lixo Orgânico Zero
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

18/06/2021 06h00

"Quando o cara descobre que o orgânico é a maior parte do lixo e que pode ser resolvido em casa, em 5 minutos diários, ele se empolga e vira multiplicador".Essa é a opinião do professor Germano Güttler, do Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), autor de um dos programas de compostagem urbana mais conhecidos do país. Para ele, só mudança de hábito incentivada e reforçada por programas educativos e resultados positivos pode solucionar o problema dos resíduos no Brasil.

Germano tem experiência de 10 anos do seu projeto e acaba de ganhar mais uma credencial importante. A última análise do lixo da cidade de Lages (SC) mostra que o programa de compostagem que ele lidera conseguiu reduzir a 21% a porcentagem de lixo orgânico enviada ao aterro da cidade em 2020. São dez pontos percentuais abaixo de 2019. Isso quer dizer que uma fatia substantivamente maior do lixo foi resolvida nas casas dos moradores, em formato de compostagem e hortas, e não jogada fora. O percentual é 56% abaixo da média brasileira de resíduos orgânicos nos aterros sanitários.

O projeto Lixo Orgânico Zero começou em um programa de extensão universitária em 2011, recebeu apoio da prefeitura a partir de 2013 e financiamentos públicos em 2013 e 2018. O sistema, bastante simples, é conhecido como Método Lages de Compostagem (MLC). Além da compostagem nos quintais dos moradores, cerca de 100 locais, principalmente escolas - mais de 70 - e instituições públicas, como escritórios da administração e o presídio, compostam regularmente, segundo Germano.

A análise gravimétrica do lixo do aterro - que separa o lixo por tipo pesa cada fração - é feita todo ano, para acompanhar a evolução da gestão de resíduos da cidade.

1 - Edna Guedes - Edna Guedes
Alunos do primeiro ano do colégio Santa Helena, em Lages (SC)
Imagem: Edna Guedes

Segundo dados da prefeitura, em 2011, a porcentagem de orgânicos recebida pelo aterro era de 55% do total. Entre 2014 e 2018, passou para 34% e 37 %. Em 2019, foi de 31%. A proporção de resíduos orgânicos em 2020 representou redução acima de 60% do percentual de 10 anos atrás.

Na lei brasileira, a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, os aterros deveriam receber apenas os rejeitos, que são a parte do lixo não passível de reciclagem e nem de aproveitamento para compostagem. O projeto está aproximando a cidade de um quadro de redução de danos ambientais.

Maior tempo em casa, por causa da pandemia, pode ter despertado a vontade de fazer algo mais ecologicamente responsável com o lixo. A visibilidade que o projeto teve em 2020 deve ter ajudado na conversão de mais adeptos, segundo Germano.

Mas a continuidade se deve à simplicidade do sistema, acredita o professor. "Um quadradinho do quintal que o morador separe, comece a colocar os orgânicos com folhas secas e depois plantar". Uma adaptação do método para vasos pode ser vista aqui.

Na próxima semana, durante o Congresso Internacional Cidades Lixo Zero, em Brasília, Germano vai mostrar os resultados de 2020 e mostrar projeções para o estado e o país.

Se Santa Catarina tivesse realizado o projeto Lixo Orgânico Zero que Lages realizou, a redução de lixo orgânico representaria uma economia em torno de R$ 130 a R$ 170 milhões anuais. A cada 3 anos, haveria economia de um orçamento anual da universidade. Para implementar o projeto no Estado, calcula Germano, seriam necessários de R$ 5 milhões a R$ 6 milhões por ano, por um período de até 8 anos.

Se o projeto estivesse em vigor no país nos últimos nove anos, a redução de lixo orgânico seria de 15 milhões de toneladas, com uma economia de R$ 4,5 bilhões anuais. O custo seria de R$ 150 milhões por ano, por um período de 5 a 8 anos. O valor equivale a 0,6 % do gasto anual das prefeituras brasileiras com a coleta e disposição final de lixo.

2 - Edna Guedes - Edna Guedes
Alunas do quinto ano do colégio Santa Helena participam de mutirão em Lages (SC)
Imagem: Edna Guedes

"O ano de 2020 nos surpreendeu porque conseguimos esses resultados com a divulgação do método via internet", diz Germano.

Para seguir diminuindo a carga de orgânicos que é desperdiçada nos aterros e aumentar a compostagem, o grupo do projeto trabalha em um Projeto de Lei que facilite a compostagem em condomínios e pequenos comércios. O projeto cria a figura do compostor urbano, que possa usar lote urbano vazio e compostar 60 mil kg por ano, por exemplo, recebendo remuneração da prefeitura equivalente ao pago para as empresas de limpeza hoje. Além disso, haveria uma meta de reduzir em 3% ao ano o teor de orgânicos no lixo encaminhado ao aterros.

Em Lages, a taxa de lixo é cobrada separadamente do IPTU. "Está congelada há 3 anos em cerca de R$ 192,00 por ano, mas acho que poderia ser reduzida, porque o peso do orgânico no total é muito grande", diz Germano.