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Mara Gama

Infra das hidrelétricas deveria ser usada para energia solar

Estrutura de placas fotovoltáicas flutuantes na usina de Sobradinho, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco - Sunlution
Estrutura de placas fotovoltáicas flutuantes na usina de Sobradinho, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco Imagem: Sunlution

17/12/2020 04h00

O plano que organiza a produção de energia nos próximos dez anos, aberto para consulta pública desde o último dia 14, não avança como poderia no caminho da descarbonização da economia e não sinaliza compreensão sobre a tendência de escassez de chuvas.

Ao diminuir a participação das hidrelétricas na matriz brasileira de 62% para 54% em dez anos, aumentando apenas dos 101,9 gigawatts atuais para 106,4 gigawatts em 2030, o Plano Decenal de Energia 2030 (PDE), incentiva o crescimento das térmicas a gás natural, projeta a construção de termelétricas movidas a resíduos sólidos urbanos e ao mesmo tempo diminui proporcionalmente a previsão de crescimento do bloco das energias renováveis eólica e solar.

Segundo o plano, haveria um crescimento de cerca de 2,4 gigawatts por ano em potência instalada de usinas eólicas e 731 megawatts anuais nas solares. Em cinco anos, essas duas fontes somariam uma capacidade adicional de cerca de 15,5 gigawatts. Enquanto isso, as termelétricas flexíveis poderiam ter uma expansão de 12,3 gigawatts, com instalação de 2 gigawatts e 3 gigawatts por ano.

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Placas flutuantes na represa Billings, em São Paulo
Imagem: Sunlution

Frear a construção de novas hidrelétricas tem justificativa nos impactos ambientais enormes que muitas delas geraram no Brasil. Mas existe já instalada uma malha gigantesca composta de linhas de transmissão e subestações que poderia ser usada.

A instalação de parques eólicos e plantas de captação solar nessas estruturas já disponíveis seria mais ecológica e mais econômica que extrair o gás, construir as usinas térmicas e quilômetros de gasodutos por toda parte para distribuir esse gás.

A pressão pelo uso gás está cada vez mais forte. Construir gasodutos e usinas térmicas significa novos negócios para construtoras e grandes empresas de engenharia. Os críticos apontam que é um falso atalho para a economia verde.

Países que têm compromissos mais claros e ousados com a agenda da descarbonização, sacramentados no Acordo de Paris, como Japão, e a União Europeia estão orientados para a produção do hidrogênio verde. O hidrogênio produzido pelas formas tradicionais é poluente. Com a substituição pela eletrólise com o uso de energias baratas e renováveis, ele vira verde e pode ser usado como energia ou matéria prima para produzir aço verde, fertilizantes verdes e concreto verde. O seu uso nos transportes zera emissões de GEE.

"O Brasil tem hoje capacidade instalada de todas as fontes de energia da ordem de 170 gigawatts. Se usássemos apenas 8% de todas as lâminas de água de reservatórios das hidrelétricas do país colocando painéis de energia solar, daria para instalar 452 gigawatts", calcula Luiz Piauhylino Filho, diretor da empresa Sunlution. "Não dá para entender por que o Brasil não adota isso em larga escala", diz.

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Estrutura de placas fotovoltáicas flutuantes na usina de Sobradinho, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco
Imagem: Sunlution

A Sunlution tem três experiências em uso no país. Na usina de Sobradinho, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), as placas fotovoltaicas flutuantes, conectadas na subestação, estão alimentando o funcionamento da própria usina e gerando 1 megawatt. Em São Paulo, a primeira usina fotovoltaica flutuante da cidade foi instalada em fevereiro de 2020 na Billings, para gerar 100 kilowatts. Ocupa uma área de mil metros quadrados do reservatório junto da usina elevatória de Pedreira. Para sua implantação, foram investidos R$ 450 mil em equipamentos. Há uma outra estrutura numa fazenda em Goiás.

"Além de o plano de energia não incentivar suficientemente as renováveis, ele não leva em conta o problema da escassez de chuvas, cada vez maior e frequente. Para construir térmicas movidas a gás leva tempo. E até lá? O que a gente tem de imediato é a estrutura das hidrelétricas. Temos que aproveitá-las", afirma Luiz. "É só plugar. Não tem que fazer linha de transmissão, subestação nova, licenciamento ambiental", afirma.

Hoje, quando os reservatórios de água das usinas ficam abaixo de determinado nível, o despacho de energia dessa fonte é diminuído e entram em funcionamento as térmicas, movidas a óleo ou a gás. Mas essa energia é mais cara e poluente.

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Estrutura de placas fotovoltáicas flutuantes na usina de Sobradinho, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco
Imagem: Sunlution

"Não adianta continuar a planejar o setor elétrico do país desse jeito, sobre a matriz hídrica e térmicas para socorrer. Esse modelo que usa a térmica para resolver problema de falta de chuva é o que estamos vivendo há vinte anos. Foi criado em 1999-2000 no governo de Fernando Henrique Cardoso para ser temporário e se perpetuou. Quem paga a conta é o consumidor", diz.

O empresário cita um estudo da Universidade Estadual de Michigan que aponta ociosidade de 12 gigawatts nas hidrelétricas da região Norte, "quase uma Itaipu", devido ao baixo nível de água. Se fossem colocadas estruturas solares flutuantes nessas usinas, haveria um aumento de 17,3% de produção energética.

"O argumento dos críticos à energia solar e à eólica é sua intermitência. Por isso mesmo é que a proposta é a combinação. É um novo modelo de despacho para o setor elétrico. O pessoal diz que é complexo. Complexo é ficar sem energia", diz.