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Mara Gama

2020, o ano em que abraçamos o plástico

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

03/12/2020 04h00

Confinamento, mortes, menos salário e menos emprego, trabalho remoto, restrição da mobilidade, medo, pouco contato com amigos, aulas online, lives de músicos, reuniões virtuais e aflições marcaram o ano que está terminando. Para o dicionário britânico Collins, a palavra de 2020 foi "lockdown". O norte-americano Merriam-Webster escolheu "pandemia".

Para um atlas que acabou de ser lançado no país, 2020 foi o ano em que abraçamos os plásticos. O consumo de plásticos descartáveis e de materiais hospitalares disparou. São máscaras, luvas e embalagens que inundam nossas casas, ruas, praças e praias. Sem uma combinação de esforços coletivos para reduzir o impacto deste tsunami plástico, podemos entrar nesta terceira década do século 21 em um mar de problemas.

A publicação "Atlas do Plástico", que pode ser baixada de graça e teve a primeira apresentação no último dia 30, analisa a cadeia do plástico, mostra aplicações e implicações do material em diversos setores da economia, lembra a revolução que os plásticos representaram em vários momentos históricos, traz informações sobre produção e a relação com a indústria petrolífera, debate os problemas causados pela dispersão generalizada do material no meio ambiente e aponta alternativas para combater o pesadelo gigante do excesso de plásticos.

O atlas foi feito pela equipe brasileira da fundação alemã Heinrich Böll. O objetivo é difundir informação para mobilizar cidadãos, governantes, empresas e organizações da sociedade civil para o debate e a criação de políticas públicas de diminuição do consumo e o reaproveitamento dos materiais depois do uso. "A reciclagem é apenas a segunda forma mais eficiente de resolver o problema. A melhor e mais simples é não produzir nem consumir tanto plástico", diz o atlas.

São 24 artigos que trazem uma coletânea substancial de informações. As fontes foram verificadas pela agência Lupa. Um dos dados mais alarmantes é o que aponta que o Brasil produz mais de 11 milhões de toneladas de plástico ao ano, o que coloca o país como quarto maior produtor de lixo plástico no mundo.

Especificamente sobre 2020, o atlas destaca que, a partir de junho, com a retomada dos atendimentos e cirurgias e o aumento do número de pacientes com Covid-19, a geração de lixo hospitalar cresceu 20% no Brasil. E, segundo dados da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), a geração média de lixo hospitalar por pessoa internada com Covid-19 tem sido de 7,5 quilos por dia, quase sete vezes mais que a média diária de produção de lixo por habitante (1,1kg/dia).

Outro indicador importante: entre janeiro e maio, houve um aumento de quase 95% no gasto com aplicativos de entrega, segundo a startup de finanças Mobilis.

Ao aumento do consumo das embalagens e descartáveis, vieram se somar ações para flexibilizar vetos recentes às sacolas, canudos, copos e talheres de uso único. Um exemplo citado pelo atlas é uma ação movida pelo Sindicato da Indústria de Material Plástico, Transformação e Reciclagem do Estado de São Paulo (Sindiplast), que suspendeu a lei da capital paulista que proíbe o fornecimento de copos, pratos e talheres de plástico a partir de 1º de janeiro de 2021. Para o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que concedeu liminar, o material plástico atende às necessidades de higiene e segurança na prevenção da Covid-19.

A pandemia também atingiu em cheio os sistemas de reciclagem. Houve um aumento de 25% a 30% na coleta de materiais recicláveis, mas, ainda segundo dados da Abrelpe usados pelo atlas, grande parte do volume coletado passou a ser encaminhado aos aterros, por causa da diminuição da atuação das cooperativas em diversas cidades.

O que fazer?

Cada pessoa produz em média um quilo de lixo plástico por semana no Brasil. Individualmente, portanto, é preciso mudar de comportamento e reduzir de verdade o consumo, continuar a separar e lavar os materiais para a reciclagem, usar máscaras laváveis e não enviar materiais de higiene, como luvas e máscaras, para a coleta seletiva junto com o material reciclável.

Mas há muito mais a fazer como cidadão e de forma organizada. O atlas destaca a importância das iniciativas de lixo zero em cidades, empresas, bairros e instituições e dedica um dos seus capítulos ao modo de operação do movimento Break Free From Plastic (liberte-se do plástico), que nasceu em 2016 e reúne mais de 1.500 organizações e apoiadores em seis continentes.

Ação de auditoria de marca da Break Free From Plastic em parceria com a Ong 0.zero - 0.zero - 0.zero
Ação de auditoria de marca da Break Free From Plastic em parceria com a Ong 0.zero
Imagem: 0.zero

O BFFP, que é parceiro da fundação na elaboração do atlas, reage ao discurso de culpabilização do consumidor. Em vez de responsabilizar apenas quem leva para casa os plásticos, ele pressiona empresas que produzem embalagens sem prover o sistema adequado de retorno. E faz isso com estratégias de exposição pública.

"Durante décadas, a indústria enquadrou a poluição plástica como um problema de gestão de resíduos. Esse enquadramento é amplamente promovido em todo o mundo e aceito sem hesitação pelos governos e pelo público. Ele permite que as empresas produzam embalagens e produtos plásticos descartáveis, enquanto repassam a responsabilidade pelo desperdício de plástico para os consumidores, e o ônus de gerenciar o que é descartado para as autoridades locais", diz o texto.

O BFFP entende que a poluição plástica precisa ser enfrentada na raiz. Para isso, é preciso atuar em toda a cadeia de valor do plástico de forma preventiva. "O desafio é enorme. A produção, distribuição e descarte de plásticos envolve uma longa lista de algumas das maiores empresas do mundo, incluindo as de petróleo como ExxonMobil, Chevron, Shell e Total, empresas de produtos químicos como DowDuPont, BASF, SABIC e Formosa Plastics, gigantes de bens de consumo como Procter & Gamble, Unilever, Nestlé, Coca-Cola e PepsiCo, e empresas de gerenciamento de resíduos como SUEZ e Veolia."

Uma das formas de combate do BFFP são as "auditorias de marca", que vem sendo feitas desde 2017, e nas quais os resíduos são coletados e classificados de acordo com a marca da empresa que os fabrica. "Com suas marcas diretamente associadas ao lixo, várias multinacionais começaram a prometer metas para eliminar alguns tipos problemáticos de itens e aumentar a coleta e a reciclagem de suas embalagens", conta o texto.

Segundo o atlas, a atividade popularizou o termo "lixo de marca" (branded trash) e colocou as empresas na defensiva. Mas as auditorias de marca não são feitas apenas para denunciar. O atlas afirma que os dados dessas auditorias têm sido usados como base para criar sistemas de gerenciamento de resíduos comunitários na Ásia.

Na apresentação do atlas, a presidente da fundação Heinrich Böll, Barbara Unmüßig, diz que a publicação documento "possui fatos concretos, dados e números para provar que a história do plástico contada pela indústria é um mito". Ela clama por reduções urgentes e drásticas na produção e no consumo de plástico e "regulamentações em nível local, nacional e global para lidar com a poluição do plástico na fonte".

Segundo ela, entre as soluções para a crise do plástico, estão frear o consumo, implementar e apoiar comunidades e cidades com lixo zero e sistemas alternativos de entrega e produtos reutilizáveis. "Os governos precisam responsabilizar as empresas que atualmente contribuem e lucram com a crise do plástico. E os cidadãos precisam exigir ações e soluções reais de seus formuladores de políticas para manter nossos ecossistemas e corpos livres de plásticos e de seus aditivos tóxicos", escreve.

5 pontos importantes do Atlas do Plástico

  • A expansão massiva do plástico começou na segunda metade do século 20, com a descoberta de que um produto residual da indústria petroquímica que deu no PVC.
  • Entre 1950 e 2017, 9,2 bilhões de toneladas de plástico foram produzidas. Menos de 10% todo o plástico já produzido foi reciclado.
  • Poliéster e outras fibras sintéticas são feitas de petróleo ou gás natural. Fazer uma camisa de poliéster pode emitir entre 3,8 e 7,1 kg de CO2.
  • O plástico acelera as mudanças climáticas. Se as tendências atuais continuarem, os plásticos terão causado emissões de CO2 da ordem de 56 gigatoneladas até 2050.
  • Em 2018, a China proibiu a importação de resíduos de plástico. Os quatro maiores exportadores são EUA, Japão, Alemanha e Reino Unido. Já os quatro maiores produtores de lixo plástico são EUA, China, Índia e Brasil.