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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que a favela e Sócrates podem ensinar aos alemães

Na foto, Léopold Sédar Senghor, filósofo que presidiu Senengal entre 1960 e 1980  - Autor desconhecido, Fundo da Agência Nacional
Na foto, Léopold Sédar Senghor, filósofo que presidiu Senengal entre 1960 e 1980 Imagem: Autor desconhecido, Fundo da Agência Nacional
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

03/09/2021 06h00

Quais paralelos podemos traçar entre a palavra alemã "Klugscheißer", o discurso de Sócrates e os ensinamentos tradicionais das favelas? Na coluna #DaQuebradaProMundo dessa semana eu te explico.

Efetuando uma análise de Platão, mais especificamente com a obra "A Apologia de Sócrates", tive um pensamento estacionado em minha mente: "Poxa vida, por que nós temos que ler mais uma vez os pensamentos de homem branco velho e rico?". Uma ideia ácida que, embora limitante, não é infundada. Por que não utilizamos de uma base filosófica não branca para discutir questões éticas?

Por exemplo, por que não utilizamos ideia de liderança de Platão — que acreditava que uma nação ideal deveria ser liderada por um filósofo —, e não contamos mais a história de líderes como Léopold Sédar Senghor? Filósofo que de 1960 até 1980 foi o presidente do Senegal.

Todavia, a teimosia e a coragem de ler as palavras de Sócrates em dias atuais é também a beleza de encontrar diferentes faces de nós mesmo no outro. Mesmo que tais ideias não te representem, estar aberto a novas maneiras de enxergar o mundo é que nos agiganta, nos transforma em algo novo.

Em sua obra, no parágrafo 22c, Platão descreve a defesa de Sócrates com as seguintes palavras: "Mas, cavalheiros, pareceram-me cometer o mesmo erro que os poetas cometeram, estes belos artesãos. Porque tinham trabalhado tão bem a sua arte, cada um deles afirmou também ser mais sábio noutros tópicos, nas coisas mais importantes; e esta imodéstia deles ofuscou a sabedoria" (Apologia de Sócrates, Platão, traduzido por James Redfield)

A imodéstia que ofusca a sabedoria

Ao refletir a frase citada por Sócrates, fui diretamente conectado com uma palavra do idioma alemão — idioma esse que venho aprendendo — a palavra "Klugscheißer".

Klugscheißer, em tradução livre do alemão para o português é a palavra que define aquele "sabe tudo". Independente do gênero, o termo que também existe em inglês (know-it-all) representa um padrão que vai além de uma atitude individual de determinada pessoa, mas na verdade é uma relação de poder sistematizada.

Um exemplo desconexo ao texto de Platão, porém ligado à nossa realidade brasileira, é o comentário do Youtuber "Vinheteiro", em um vídeo com duas milhões de visualizações explicando "Por que o Funk é tão ruim?". O juízo de valor que considera a música clássica melhor do que o funk das periferias parte do ponto de vista de um "Klugscheißer", de um sabe tudo que através da imodéstia ofusca a verdadeira sabedoria. Sabedoria essa que mora no sorriso de uma criança. Mora na aceitação do outro como ele é, a aceitação do processo do outro no tempo que deve ser. E não a projeção de você mesmo no outro, mas sim o respeito, a humanidade e empatia.

Alguns teóricos gostam de nomear a língua alemã como a língua necessária para se entender o pensamento moderno, e eu concordo. E não somente o idioma alemão, mas também o "pretoguês" falado e cantado nos funks das periferias do Brasil. Não só para os alemães, mas para todos nós. O que eu aprendi nos saberes populares, nas gírias da minha quebrada, é que a modéstia é também sinônimo de respeito. Para que a gente possa ter modéstia de respeitar o outro, mas quando formos desrespeitados que a gente possa repensar o poder daquele que "sabe tudo".

Como não ser um Klugscheißer na sua comunicação diária

Se você se viu em algum desses exemplos e está aberto em repensar a sua comunicação diária, eu tenho boas novas para você também! Existe um método bem conhecido de comunicação não violenta chamado "GIVN." O método se baseia nas seguintes perguntas a se fazer antes de proferir qualquer palavra:

Gentil? O que você está prestes a dizer leva em consideração a realidade e o esforço do outro com empatia?

Inspirador? O que você está prestes a dizer traz positividade a quem ouve? Coloca para cima?

Verdade? O que você está prestes a dizer é pautado em fontes, você conhece a origem da informação? Ou só está reproduzindo algo que nunca checou?

Necessário? O que você está prestes a dizer tem pertinência para o momento? Trará algum valor além da quebra do silêncio?

O que os favelados e Sócrates podem ensinar para os alemães na verdade podem ensinar ao mundo tudo. Seja na obra de Platão, no discurso de Sócrates ou em um diálogo em uma favela: cada palavra importa. Pense antes de falar, pense antes de escrever na internet. A palavra é uma das ferramentas mais poderosas sob nosso controle e nós devemos utilizá-la com responsabilidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL