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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Speck: amor próprio para nossos corpos

Speck - tortoon/Getty Images/iStockphoto
Speck Imagem: tortoon/Getty Images/iStockphoto
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

07/05/2021 06h00

Foi em uma noite de inverno alemão, na minha recém-chegada ao novo WG (Wohngemeinschaft/Apartamento compartilhado) que o sorriso correu solto na cozinha. Estávamos preparando comida no espaço coletivo, quando alguém levantou o tema "quilos extra". O que era para ser uma conversa cheia de estereótipos foi quebrada com a frase marcante: "das heißt Speck, weil specktakulär ist". E com essa frase eu quero te explicar porque a nossa relação com o corpo precisa mudar.

Der Speck, ou o Toucinho, é a maneira carinhosa, afetuosa e informal que os alemães utilizam para nomear algumas partes do corpo onde a gordura está mais em evidência. Seja ela na barriga, nos braços ou nas pernas, o que está presente na maioria dos apontamentos é o seguinte: o amor próprio.

"Seja para você a palavra doce de um melhor amigo". A frase que a minha companheira de república de estudantes disse: "das heißt Speck, weil specktakulär ist" é um jogo de palavras que dá ênfase no Speck, o Toucinho, como a construção de algo espetacular, algo extremamente nosso. Em tradução livre fica assim: "isso se chama ?Speck?, porque é espetacular". Ao dizer a frase em voz alta, Monica ressaltou a importância de um olhar para as próprias imperfeições (que na verdade não são imperfeições, mas sim padrões que fogem a ideais de consumo) com carinho e humanidade.

Um ponto de vista dentro do recorte que me foi apresentado - vindo de jovens alemães conscientes do próprio privilégio e da própria alimentação - é em sua grande maioria, um recorte positivo sobre o próprio corpo. O aprendizado sobre uma alimentação regional, sazonal e equilibrada tem um papel muito potente no olhar para o corpo com mais ternura e compaixão. Um corpo que entende os meios de produção, os meios de transporte e os meios de comunicação é um corpo capaz de questionar os padrões de beleza, de alimentação e de consumo.

Em outras palavras, aceitar o próprio corpo não significa ?chutar o balde? com a saúde e a alimentação, mas, sim, buscar o seu próprio equilíbrio. É importante ter consciência alimentar, saber de onde o alimento veio e para onde o dinheiro pago para esse alimento vai e ao mesmo tempo é necessário remover a pressão constante para que o tema não se desenvolva em uma compulsão.

A palavra Speck, da cultura alemã, e o valor do Toucinho que carrego comigo - esse que adquiri com minha cultura brasileira de favela - me mostraram também o amor próprio com a saúde mental, com o próprio equilíbrio.

É sobre cessar a guerra com você mesmo e, assim, tornar possível fazer escolhas alimentares balanceadas com a sua própria saúde. Em um atual olhar, a valorização do Speck citado pela Monica é muito diferente de se alimentar pensando em atingir uma imagem corporal. É sobre se aceitar e se envolver a ser mais gentil com o próprio corpo, entendendo que graças a ele é possível viver, amar e socializar. A aceitação nos traz liberdade, e está tudo bem sermos exatamente como somos. Como disse o poeta Paulo Leminski: "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL