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Posso dar uma volta de carro durante a quarentena? Saiba os riscos

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Imagem: Shutterstock

Daniel Leite

Colaboração para o UOL

25/04/2020 04h00

Quebrar o isolamento social necessário para enfrentar a pandemia de coronavírus, mesmo que a pessoa esteja sozinha no carro, não é algo tão inofensivo quanto parece. Como cada infectado pode transmitir o novo coronavírus para pelo menos outras cinco pessoas, os riscos são sempre altos.

"O ideal é não sair porque, ao sair, nem que seja para dar uma volta dentro do veículo, vai fazer você colocar a mão em maçaneta, pisar no chão, em botão e porta de elevador, no volante. Não vejo sentido pegar o carro para dar uma volta. A recomendação é ficar em casa", explica a infectologista Lucy Vasconcelos.

Em algumas cidades onde o isolamento está abaixo do esperado, ou até mesmo já pensam em começar uma volta gradual à normalidade, a movimentação nas ruas merece atenção redobrada, segundo especialistas. E uma das preocupações é com o exemplo que uma pessoa dá ao não respeitar o distanciamento e decidir sair sem necessidade.

"A partir do momento que outras pessoas ficam vendo que tem gente saindo de carro, elas ficam achando que o trânsito está livre e que aquelas pessoas não estão simplesmente dando uma volta, estão indo em algum lugar. Lembrando que sempre antes e depois de entrar no carro, é preciso higienizar as mãos", completa a infectologista.

Para reforçar isso, ela enumera uma grande quantidade de cuidados necessários para demonstrar o quanto a "escapadinha" pode ser a porta de entrada para o novo coronavírus.

Se não tiver como ficar em casa, ao entrar no veículo é importante não ligar o ar condicionado, deixar janelas abertas e não usar luva, pois ela dá uma falsa sensação de proteção. "A pessoa vai ao mercado, pega na sujeira, pega no volante do carro, arruma a máscara. Ela acha que está protegida, mas não está". Sem a proteção nas mãos, a pessoa vai lavá-las mais, o que é benéfico, diz Vasconcelos.

A lista da infectologista com os perigos da 'saidinha' de carro segue. A orientação é não tocar o exterior do veículo devido a possibilidade da presença do vírus na lataria. Se fizer isso, lavar bem as mãos. Caso o veículo fique com algum manobrista no estacionamento, por exemplo, é necessário também desinfetar a maçaneta e outras partes onde ele tocou. "A gente tem que considerar que qualquer pessoa pode estar infectada porque tem os assintomáticos".

Dentro do carro, é importante guardar o álcool gel no porta-luvas ou outro lugar fechado para não evaporar. Na hora de limpar o interior, pode usar um desinfetante simples para deixar bem limpos, por exemplo, volante e câmbio, sem tocar tocar olhos e bocas. Ao final, higienizar as mãos. Quem preferir sair de transporte por aplicativo, evitar os que levam mais de um passageiro, no sistema de compartilhamento de viagens.

Se mesmo com todas essas ressalvas, a pessoa opta por sair de carro, a infectologista é taxativa. "Não dá para sair simplesmente pra passear. E se tiver mesmo que ir, vá sozinho no carro", diz a especialista que é associada à sociedade paulista de infectologia.

Se Ed Carlos de Castro não sair de carro, não ganha dinheiro. Prestador de serviço, ele trabalha para seguradoras de veículos no Vale do Paraíba (SP) dando assistência técnica no caso, por exemplo, de problemas na bateria. E também faz transporte como taxista.

Uma das precauções que diz tomar é oferecer máscaras e álcool gel para os clientes, e afirma estar mantendo o carro sempre higienizado. Inclusive, coloca todas essas informações nas fotos de divulgação de seu serviço, com vários dizeres para tranquilizar os clientes. "Eu estou tomando cuidado também de perguntar para a pessoa se ela não está com nenhum sintoma de gripe para que eu possa transportá-la".

Falando em transporte, uma das cidades que defende mudar regras para possibilitar o funcionamento do comércio é São José dos Campos (SP). Com 722 mil habitantes, o município afirma estar com baixa taxa de infecção da população, de pouco mais de 3%, e o cenário atual, considerando a estrutura hospitalar, permitiria um número maior de pessoas circulando.

Por isso, um decreto municipal com alterações passaria a valer a partir do próximo dia 27, o que a prefeitura chama de isolamento seletivo. Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), porém, a pedido do Ministério Público, suspendeu a decisão.

"Tem uma margem de segurança e a gente vai fazer uma abertura de algumas áreas das atividades econômicas, com regras bem estabelecidas. E a cada 10 dias, o comércio ou o serviço tem que emitir uma nova licença temporária no site da prefeitura se comprometendo a manter as regras de segurança sanitária. Se desrespeitar, será fechado e multado", afirma Danilo Stanzani Júnior, secretário de saúde municipal, antes da decisão judicial.

"A gente não quer que a população saia de casa. A gente está abrindo o comércio para a pessoa ter uma alternativa se precisar comprar algo, mas a recomendação é para ficarem em casa. Se precisar sair, usar máscara, álcool gel e manter distância de 2 metros de outra pessoa", completa Júnior.

Errata: este conteúdo foi atualizado
Diferentemente do que foi informado, a cidade de São José dos Campos (SP) não flexibilizará a quarentena. A decisão municipal foi suspensa por determinação judicial. A informação foi corrigida.