PUBLICIDADE
Topo

Mora nos Clássicos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Antes de elétrico, Fiat 500 foi "Topolino" e conversível mais barato do BR

Conteúdo exclusivo para assinantes
Rodrigo Mora

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigomobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

Colunista do UOL

07/08/2021 04h00

(SÃO PAULO) - Haja vista a trajetória do 500, não poderia ser outro o modelo a inaugurar a fase eletrificada da Fiat. Bem, inaugurar em termos: Panda e Cinquecento Elettra flertaram com a tomada nos anos 1990, mas pendiam para o experimento numa época em que veículos impulsionados por energia elétrica eram coisa do futuro.

Mesmo o 500e já farejou o território nacional, em 2015. Laranja com interior branco, rendia o equivalente a 111 cv e entregava cerca de 170 km de autonomia. Agradou os jornalistas que o testaram, mas parecia inviável pelo preço estimado em R$ 200 mil - o 500 Cult saía por R$ 56,9 mil.

500e 2014 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Já o novo 500e - que desembarca agora nas lojas custando R$ 239.990 - demarca o início da comercialização efetiva e global de um automóvel elétrico da Fabbrica Italiana Automobili Torino. Com uma trajetória de 85 anos prestando serviços à mobilidade urbana das bases da pirâmide social italiana, o 500 virou, ao menos no Brasil, carro de gente rica.

Até chegar aqui, passou por quatro gerações:

500 "Topolino" (1936)

A Fiat cortejava modelos populares desde 1912, quando apresentou o Tipo Zero. Um dos fundadores da Fiat em 1899 e àquela altura o dono da empresa, Giovanni Agnelli sabia que a Itália, fundamentada na economia agrícola, jamais poderia viver de automóveis luxuosos e de produção onerosa. O futuro estava na produção em massa de carros padronizados.

Fiat Balilla - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Outra tentativa foi o Balilla, mais compacto e econômico e que alcançou certo sucesso com suas variações de carroceria - até um roadster dele existiu.

Fiat Topolino f - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Contudo, foi em 1936 que a Fiat fincou bandeira no território dos modelos urbanos com o 500 - imediatamente apelidado de "Topolino", alcunha do Mickey Mouse na Itália. A relação está numa suposta semelhança entre o rato e o formato do carro.

Menor automóvel do mundo com seus 3,2 metros de comprimento, transportava duas pessoas mais 50 quilos de bagagem. O motor, de 569 cm3 e quatro cilindros, gerava 13 cv e levava o pequeno Fiat até os 85 km/h. Era o bastante naqueles tempos, e ainda fazia 16 km/l. Economia era tudo, afinal, pois o 500 foi o primeiro automóvel de muita gente.

Fiat Topolino F - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Era um carro moderno. O radiador ia atrás do motor, baixando e inclinando a frente e assim abandonando o estilo quadrado do Balilla; as janelas laterais, deslizantes, permitiam portas côncavas e ampliavam o espaço interno; os freios eram hidráulicos e a suspensão dianteira, independente; enquanto a maioria tinha câmbio de três marchas, o do 500 "Topolino" era de quatro velocidades. O único luxo era um teto de lona que podia ser aberto.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o modelo voltou na versão 500 B, com motor mais potente e atualizações tecnológicas. Em 1948, a Giardiniera aparecia como opção familiar com quatro lugares e espaço para bagagem. Aquecimento interno? Só em 1949, no 500 C.

Fiat Topolino Giardiniera - Divulgação  - Divulgação
Fiat 500 Giardiniera 1948
Imagem: Divulgação

Em janeiro de 1955, após mais de 500 mil unidades produzidas, o 500 "Topolino" se despediu.

Nuova 500 (1957)

Se o Volkswagen Fusca e o Citroën 2CV levantaram a Alemanha e a França no fim dos anos 1940, na década seguinte o Nuova 500 consolidou o crescimento industrial da Itália e ficou associado à aceleração econômica do país.

500 rua - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Lançado em 4 de julho de 1957 como substituto do "Topolino", levou um tempo até conquistar os italianos, relembra o Heritage, departamento de preservação histórica da marca: "o sucesso não foi imediato, talvez porque o 600 estava vendendo muito bem. Mas, alguns ajustes nos acessórios e na lista de preços estimularam as vendas deste utilitário urbano para todos".

500 t - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Como o 500 anterior, o novo teve o engenheiro Dante Giacosa como mentor, mas era ainda menor, com 3 metros de comprimento. Como o Fusca, tinha motor traseiro refrigerado a ar - mas, no seu caso, um bicilíndrico de 479 cm3 e 13 cv. Os primeiros tinham portas do tipo "suicidas" (que se abrem no sentido contrário ao convencional).

Fiat Nuova 500  - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

No decorrer dos anos, o 500 foi mantendo o interesse dos consumidores com atualizações mecânicas e estéticas, apresentadas nas versões D (1960), F (1965), L (1968) e R (1972). Destaque para as últimas, Lusso e Rinnovata, com materiais mais refinados no interior.

500 volante - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Em 18 anos, foram 3.893.294 exemplares fabricados. Um deles foi parar no Museum of Modern Art, em Nova York (EUA), que certa vez justificou a presença do carrinho em seu acervo:

"O humilde Fiat 500 incorpora muitos dos princípios que orientaram o design moderno de meados do século: sua aparência expressa claramente sua função, o uso lógico e econômico dos materiais e tinha um preço modesto e, portanto, amplamente acessível. O desenvolvimento de carros baratos e confiáveis como esse no período do pós-guerra foi fundamental para unir as nações anteriormente díspares da Europa e promover a liberdade de movimento em todo o continente", explica o MoMA.

500 moma - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Mais longevo dos 500 desta fase foi a peruinha Giardiniera, indo de 1960 a 1977, dois anos depois do hatch ser substituído pelo menos popular 126.

Fiat 500 Giardiniera - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Cinquecento (1991)

Esse mesmo 126 passou o bastão para um novo Cinquecento. Que dos anteriores sequer manteve o modo de escrever o nome, agora por extenso.

Cinquecento frente - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Desenhado por Giorgetto Giugiaro, carregou a proposta urbana, mas abordada por outro conceito: motor (agora refrigerado a água) e tração foram transferidos para a dianteira.

Cinquecento tr - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

E para ratificar a veia subversiva, não era feito na Itália, mas sim em Tychy, na Polônia, depois que a Fiat arrematou a planta da Fabryka Samochodów Osobowych, ou FSO, fabricante de veículos estabelecida no fim dos anos 1940 pelo partido comunista polonês.

Cinquecento int - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

500 (2007)

Um novo 500 começou a ser desenhado em 2002, ano não muito tranquilo para a Fiat: 9,4% de queda nas vendas e prejuízo de 4,3 bilhões de euros. Daí a grande pressão sobre o designer Roberto Giolito, cuja missão era traduzir os conceitos do Nuova 500 para o novo milênio.

Fiat Trepiúno - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Do conceito Trepiúno nasceu o 500, revelado no Salão de Genebra de 2007. VW New Beetle e Mini Cooper já vestiam a moda retrô, e agora era a vez do histórico modelo da Fiat.

500 07 fr - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Mirando também o público feminino, oferecia mais de 500 mil combinações entre cores externas, acabamentos internos, rodas e detalhes de personalização. Sem falar nas versões especiais, que iam da Gucci à Barbie, passando pela Ferrari.

Não por acaso a Fiat escolheu o dia 4 de julho para o lançamento, exatos 50 anos após dezenas de Nuova 500 saírem enfileirados da fábrica rumo ao centro de Turim, onde encontrariam milhares de potenciais consumidores. Na festa do novo 500, vários foram espalhados por praças históricas da Itália, com barracas de comida, jogos e música.

500 07 tr - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Os primeiros 60 mil exemplares do novo 500 - eleito Carro Europeu do Ano em 2008 - se esgotaram em três semanas.

Importado da Polônia com motor 1.4 16V de 100 cv e câmbio manual de seis marchas, o 500 chegou ao Brasil partindo de R$ 62.870. Logo virou referência no então efervescente mercado de "carros de imagem". Faziam parte desse clube modelos como Mini Cooper, VW New Beetle, Chrysler PT Cruiser e Smart Fortwo.

500 07 int - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

O 500 C estreou no Salão de São Paulo de 2012, importado do México. Isento do imposto de importação, chegava por R$ 57.900 para ser o conversível mais barato do Brasil.

"Embora ofereça um porta-malas minúsculo (153 litros) e seu banco traseiro seja ilustrativo, o compacto é prático no dia a dia. Não só pelo tamanho, mas por ter uma capota que, fechada, deixa o Cabrio parecendo qualquer outro 500. O acionamento também torna o procedimento menos pirotécnico, sem lâminas do teto se sobrepondo e atraindo a olhares de espanto, admiração e inveja. No uso diário as coisas ficam mais simples, menos arrogantes", disse um certo repórter depois de uma semana de convivência com o 500 C.

500 C - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL