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Mora nos Clássicos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Real origem da Kombi vai além do rascunho de Ben Pon e respinga em Porsche

Rodrigo Mora

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigomobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

Colunista do UOL

20/05/2021 04h00

(SÃO PAULO) - "Às vezes, a história considerada verdadeira requer uma reavaliação. No caso da Kombi, a história de que um holandês chamado Ben Pon teria sido o grande responsável pelo surgimento do veículo se perpetuou. Sem dúvida, ele teve participação no processo, mas a fabricação desse veículo sempre repousou em outras mãos. Durante um longo período, julgou-se apropriado omitir essa história; até agora, mais de uma geração depois, realidade e ficção se misturaram de tal forma que somente um desnudar radical do folclore pode revelar a verdade".

É com esse petardo que Richard Copping - historiador automotivo e ex-editor da VW Magazine - começa Volkswagen Transporter: a celebration of an automotive and cultural icon (Ed. Haynes, 2011). Nas 149 páginas do livro, além de dissecar as três primeiras gerações da van mais famosa do mundo o escritor inglês expõe detalhes do nascimento da Kombi.

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, a Stadt des KdF-Wagens ("cidade do KdF-Wagen" no idioma local, sendo KdF-Wagen o nome oficial do Fusca até o término do combate) foi entregue ao exército inglês, cuja missão era reorganizar a devastada região - e por conseguinte a fábrica da Volkswagen ali instalada - para oportunamente reconduzi-la ao povo alemão, o que aconteceria em outubro de 1949.

Fusca placa  - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

No comando da região agora chamada Wolfsburg - e automaticamente na liderança da Volkswagen - estava o major inglês Ivan Hirst (1916 - 2000), personagem crucial para a sobrevivência da fabricante alemã, marcada naquele momento pela transição da produção bélica sob domínio nazista (os idealizadores da fábrica e do carro do povo, afinal) para a manufatura civil sob custódia inglesa.

"Inicialmente, a fábrica era usada apenas como oficina de reparos para veículos militares. Hirst foi o primeiro a reconhecer as possibilidades oferecidas pelo estabelecimento da produção de veículos civis na área quase totalmente destruída", explica a Volkswagen ao relembrar o que ela mesma chama de "raízes britânicas".

Hirst dirige Fsuca  - Divulgação  - Divulgação
Major Hirst tira da linha de montagem o milionésimo Fusca, em março de 1946
Imagem: Divulgação

Tido como hábil negociador, o jovem major foi pouco a pouco convencendo seus superiores a adiar o desmantelamento da fábrica. Até recebeu uma encomenda da administração militar britânica de 40.000 Fuscas, meses antes da produção para fins comerciais estrear, em 27 de dezembro de 1945.

Fusca ingleses - Divulgação  - Divulgação
Em agosto de 1945, os britânicos ordenaram à Volkswagen que produzisse 20.000 carros para a administração militar britânica
Imagem: Divulgação

Manter a montadora de pé parece ter virado sua obsessão. "A fábrica da Volkswagen tinha apenas uma pequena força de trabalho e o recrutamento de trabalhadores adicionais era um desafio adicional. Hirst foi pragmático e também ofereceu um emprego a prisioneiros de guerra alemães. Durante os primeiros anos, foi difícil obter suprimentos para a força de trabalho. Hirst improvisou e conseguiu organizar comida e outros itens por meio de seus contatos", acrescenta a empresa.

Tempos de tanto improviso que não havia sequer empilhadeiras disponíveis para o elementar transporte de peças dentro da fábrica.

Carro prancha

Para resolver a escassez de empilhadeiras, o major Hirst inventou o Plattenwagen: sobre o chassi de Fusca, uma chapa longitudinal (daí o "platten", que pode ser traduzido como prancha, placa ou simplesmente algo plano) instalada à frente do motorista e seus comandos.

Plattenwagen P/B - Divulgação  - Divulgação
No pós-guerra, Plattenwagen fez o papel de empilhadeira
Imagem: Divulgação

Importador oficial da Volkswagen na Holanda, Ben Pon frequentemente viajava à Wolfsburg para negociar novas fornadas de Fusca. Numa das visitas, deu de cara com o Plattenwagen.

Plattenwagen - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

"Ben Pon divisou ali uma oportunidade de negócio inexplorada. Tão logo pôde, tentou obter um certificado de homologação para aquele veículo transitar pelas ruas da Holanda. Mas a licença foi negada pela autoridade de transportes holandesa por conta de uma regra que determinava que o motorista deveria se sentar na dianteira do veículo", revela Copping.

Plattenwagen comando - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Pon então rabiscou seu famoso esboço, revelado a Hirst em um encontro no dia 23 de abril de 1947. No desenho, o holandês atendeu a exigência da Dutch Transport Authority e transferiu para a frente do veículo a posição do motorista e eventuais passageiros, mantendo o motor na traseira. Calculou que o vão entre as extremidades deveria comportar até 750 kg e imaginou uma carroceria levemente arredondada.

Ben pon - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Hirst até gostou do rascunho de Pon. O problema foi seu chefe, o coronel Charles Radclyffe, cuja opinião era a de que montar outro carro seria impraticável por sobrecarregar uma fábrica que já enfrentava escassez de recursos e mão de obra.

Fusca Pon - Divulgação  - Divulgação
Ben Pon, terceiro à direita, vai buscar os primeiros cinco Fuscas para exportação, em outubro de 1947
Imagem: Divulgação

"O papel de Ben Pon na história da evolução da Kombi foi, assim, sumariamente encerrado, com seu esquema ambicioso, mas bastante factível, naufragado diante do primeiro obstáculo", explica o escritor.

Mas e depois?

Quando chegou a hora de indicar um sucessor para comandar a Volkswagen através de um futuro de paz e crescimento, Hirst apontou para um engenheiro mecânico que começou a carreira automobilística na BMW e que naquele momento dirigia a Opel. A partir de 1º de janeiro de 1948, o alemão Heinz Nordhoff era o novo diretor-geral da Volkswagen.

Para converter uma fábrica defasada em potência industrial, o experiente Nordhoff sabia que precisava de outro modelo para encaixar na linha de produção. Apresentada à imprensa em 11 de novembro de 1949, a Transporter teve a primeira unidade saída da linha de produção em 8 de março de 1950 em três versões: Panelvan, Microbus e Kombinationsfahrzeug, "palavrão" que significa veículo de usos combinados em alemão - e que, no Brasil, virou simplesmente Kombi.

kombi prod - Divulgação  - Divulgação
Linha de produção da Kombi nos anos 1950
Imagem: Divulgação

"Poucos, se é que alguém o fez, reconhecem que sem Nordhoff não teria existido a Kombi; que a ideia de Ben Pon era exatamente aquela, um esboço num pedaço de papel, descartado pelo coronel Radclyffe como impraticável", pondera Copping, que ainda questiona: "se Ben Pon se sentiu subtraído da glória associada à ideia de um novo tipo de veículo de entregas, por que não se manifestou e negou que Nordhoff e Alfred Haesner haviam planejado a criação de um furgão durante uma viagem de carro que fizeram juntos cerca de um ano antes?".

Linha produção kombi - Divulgação  - Divulgação
Linha de produção da Kombi nos anos 1950
Imagem: Divulgação

Copping conclui que Nordhoff pode ou não ter tido contato com o desenho de Pon, mas, ao fim e ao cabo, foi ele quem efetivamente materializou a Kombi - que nasceu com 4,1 metros de comprimento, 1,7 m de largura, 1,9 m de altura e um motor de 25 cv.

O autor também levanta a hipótese de Nordhoff ter instruído Haesner - o gerente de desenvolvimento que pôs de pé os protótipos e depois os testou exaustivamente - a trabalhar a partir dos desenhos de Ferdinand Porsche para um veículo utilitário baseado no Fusca.

kombi prod - Divulgação  - Divulgação
Linha de produção da Kombi nos anos 1950
Imagem: Divulgação

O que corrobora a recente revelação do historiador Alexander Gromow: Porsche patenteara "um chassi para veículo automotor, no qual o banco do motorista foi movido para frente, para, por exemplo, entre as rodas dianteiras, isto para permitir uma grande área útil de carga" em fevereiro de 1941.

"Quem inventou a Kombi, ou melhor, desenvolveu um veículo de transporte usando parte dos componentes mecânicos do Fusca (e eventualmente dando uma olhada no que Porsche já tinha feito neste sentido antes da Guerra) foi a equipe de técnicos da VW do pós-guerra contratados por Nordhoff. Mas, para mim, a "origem dos tempos" no caso da Kombi iniciou com Porsche, e só não terminou com ele devido à Segunda Guerra Mundial. Ben Pon era um comerciante que queria ter um produto para vender e fazer lucro. O esquema que ele fez naquela agenda qualquer um que estivesse em contato com a Volkswagen e conhecesse sua técnica faria. Chamá-lo de inventor da Kombi é uma grande bobagem", arremata Gromow.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL