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ESG e greenwashing são a mesma coisa?

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Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL

03/06/2022 04h00

Neste domingo, 5 de junho, comemora-se o quinquagésimo Dia Mundial do Meio Ambiente, data criada pela ONU para a conscientização sobre a importância de preservar os recursos naturais. Diante do descaso neste meio século com a nossa casa, o planeta Terra, e seus habitantes, acredito que não temos muito a comemorar.

No entanto, empolgado com a eletrificação veicular, o mundo automotivo poderia usar esse momento para refletir sobre o rastro de contaminação e destruição ao longo de sua centenária trajetória. Mas a história sempre precisa de um fim feliz e, por aqui, além dos veículos eletrificados, o ESG tem sido a alternativa dessa indústria para encaminhar soluções a essas questões.

utilizamos este espaço para demonstrar o buraco negro que é o ESG, a mesma ferramenta que vem sendo alardeada com muita força no Brasil, especialmente pelas empresas fabricantes de veículos e autopeças, para alinhar suas atividades às necessidades sociais, ambientais e de governança.

Por enquanto é muito marketing barato e pouca prática e transparência. É que por trás das maravilhas que promete promover, no meio ambiente propriamente dito e no ambiente corporativo e social, estão as atraentes linhas de financiamento que o mercado oferece para empresas desenvolverem suas nebulosas atividades nessas três áreas.

Se assim não fosse a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos não teria tratado o ESG como greenwashing, ou lavagem de dinheiro verde, em Wall Street. Na semana passada a agência independente de regulamentação do mercado financeiro, conhecida pela sigla em inglês SEC, voltou sua atenção para os fundos que estão arrecadando bilhões de dólares com a simples autopromoção de que são administradores fiéis e bem-intencionados dos princípios ambientais, sociais e de governança.

A SEC propôs algumas regras como expandir um regulamento já existente para garantir que os fundos ESG invistam pelo menos 80% dos seus ativos nas três áreas. Também exigem divulgações adicionais de relatórios e publicações que demonstrem com maior transparência as métricas ESG e, ainda, solicita que os fundos relatem as emissões de gases de efeito estufa.

Qual a reação de Wall Street, o maior centro financeiro do planeta? Segundo reportou a Bloomberg os bons mocinhos perguntaram como o governo pode esperar que os fundos de investimentos e todas as empresas listadas na bolsa saibam o que as letras ESG realmente significam quando os reguladores [o governo] não as definiram?

As mesmas empresas que despejam milhões de dólares em propaganda e em eventos para defender que o ESG é o caminho para salvar o planeta e a sociedade. As mesmas empresas que criaram posições no board das suas organizações para cuidar desses três pontos cruciais para o desenvolvimento da humanidade e dos negócios, agora não têm a menor noção do que realmente isso significa.

Rapidamente o lobby desse poderoso grupo na capital estadunidense se manifestou alegando que a parte das emissões de gases de efeito estufa é uma regra impraticável justificando que algumas dessas informações certamente não estão, nem estarão, disponíveis publicamente.

Enquanto a hipocrisia reina na alta roda nesta semana no Brasil uma atitude demonstrou que, mesmo com o atraso de mais de duas décadas, é possível prestar contas e agir para minimizar impactos ao meio ambiente. A Anip, Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos, apresentou seu primeiro relatório ambiental reunindo o histórico de coleta e destinação de pneus inservíveis a partir de 1999, quando começaram as operações de logística reversa no País.

Mesmo com o atraso na divulgação de dados já consolidados toda a informação tem apuração e validação do Ibama, o que confere credibilidade ao processo. E os números são impressionantes.

Segundo o relatório desde o início, em 1999, até 2020 foram coletados mais de 5 milhões 230 mil toneladas de pneus inservíveis de todas as categorias de veículos. A Anip afirma que seria o mesmo que destinar corretamente algo como 1,1 bilhão de pneus de automóveis, utilizados como fonte de energia alternativa na produção de cimento e nas siderúrgicas e, também, matéria-prima na fabricação de solas de calçados, asfalto borracha e tapete de automóveis, dentre outras aplicações.

Outro ponto importante do relatório é dar transparência aos investimentos necessários para essa gigantesca operação. Os fabricantes de pneus nacionais já investiram R$ 1,6 bilhão para construir uma rede que hoje possui 1 mil 53 pontos de coleta em todo o País, além da criação de uma instituição sem fins lucrativos, a Reciclanip, que desenvolve todos os projetos de logística reversa de pneumáticos.

Dessa forma o setor atende, e até supera, as exigências da política de resíduos sólidos do País evitando que esses pneus venham a ser descartados na natureza.

Enfim, algo a comemorar no Dia do Meio Ambiente.