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Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

ESG: o outro lado da ferramenta que promete resolver problemas do planeta

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colaboração para o UOL

25/06/2021 19h01

O ESG é a bola da vez. Não apenas no universo automotivo mas, em praticamente todas as atividades industriais, as companhias estão trabalhando para melhorar seus resultados no meio ambiente, no meio social e na governança corporativa. Porém, mesmo com a euforia do mercado com essa ferramenta que, supostamente, pode resolver o problema das empresas e do planeta, começam a surgir rumores de que não é bem assim.

Para aqueles que ainda não estão familiarizados com o ESG [sigla em inglês para Meio Ambiente, Social e Governança]: trata-se de uma ferramenta do mercado financeiro que estabelece critérios para que as empresas possam ter acesso a financiamentos com juros mais baixos.

E aqui começa o labirinto escuro: quais as métricas e quem as estipula? E qual o desempenho das empresas considerando esses critérios [?] para o meio ambiente, a governança corporativa e a relação com a sociedade? Venho fazendo essas perguntas para executivos da indústria automotiva, para consultores financeiros e especialistas de diversos setores e até agora não foi possível esclarecer como esse mecanismo funciona. Mas foi unânime a resposta de que o ESG é o futuro para as atividades empresariais.

Para sair do lugar comum foi preciso recorrer à literatura estrangeira. Como um estudo da Booth School of Business da Universidade de Chicago. Há dois anos os pesquisadores começaram a coletar dados das empresas da S&P 500, lista dos quinhentos ativos cotados em bolsas, como a de Nova York ou a Nasdaq, e qualificados pelo seu tamanho de mercado, liquidez e representação como grupo industrial.

O objetivo da pesquisa era determinar as credenciais sociais e ambientais reais das empresas e orientar os investidores que buscam direcionar suas carteiras para produtos financeiros baseados no ESG. O que se descobriu é que as empresas tinham ótimas avaliações porque divulgaram um grande número de métricas. O desempenho real, ou seja, investimentos e ações concretas, não eram as principais referências para qualificar as empresas.

Outro problema é que cada setor da economia tem ou desenvolveu o seu próprio critério. E como, talvez convenientemente, não há transparência dos dados fica difícil estabelecer comparações e ter uma visão mais clara das classificações ESG das empresas. Apenas 65% daquelas listadas na S&P 500 emitiram relatórios corporativos de responsabilidade social.

A Bloomberg entrevistou os pesquisadores do Booth School of Business, que identificaram nas empresas de serviços básicos como fornecimento de água e esgoto, eletricidade, gás natural, dentre outras, ótimo desempenho em seus relatórios ESG.

Só que na comparação com o desempenho de outros setores industriais, e um olhar mais atento para a diversidade da força de trabalho, o resultado das empresas de serviços básicos era ruim. Na verdade essas empresas ficaram em penúltimo lugar, dentre o universo pesquisado, no quesito mulheres empregadas, de acordo com análises de relatórios de responsabilidade social corporativa de 2017.

Enquanto isso pipocam especialistas em ESG e empresas anunciando sua conversão a essas três letrinhas que, dizem, pode mudar para sempre o mundo dos negócios. À Bloomberg Shirley Lu, doutora em contabilidade pela Booth, esclareceu como deveria ser, desde já, a leitura dos critérios ESG: "As métricas não são um ponto final, devem ser um ponto de partida. Elas devem ser usadas pelos investidores para fazer perguntas sobre o que está por trás dos números".

Mas se em outros setores já está difícil compreender as iniciativas das empresas para superar as expectativas e transformar suas atividades em algo mais consciente, alinhado com os anseios do consumidor e às necessidades do planeta, imaginem como será no setor automotivo.

Algumas questões conceituais deveriam ser feitas pelas montadoras e por empresas sistemistas que estão trabalhando para aderir às exigências ESG - e obterem financiamentos a juros menores que serão aplicados em investimentos na transformação dos produtos e do seu próprio negócio:

Meio ambiente

- Como eliminar o enorme impacto da extração do lítio [para as baterias elétricas] ao meio ambiente? O mesmo vale para minério de ferro e derivados do petróleo, matéria-prima para muitos itens de um veículo.

- Emissões industriais e geração/consumo de energia: quais serão as soluções para obter uma boa classificação ESG nesses quesitos?

- Reciclagem do veículo no fim do ciclo de vida. Afinal, empurrar para o ferro-velho esse problema, que já se arrasta há décadas, não trará uma boa classificação ESG para as montadoras.

Social

- A morte em acidentes de trânsito é uma responsabilidade que deveria ser compartilhada por condutores e montadoras? Afinal, o motorista está utilizando o produto quando acontece essa fatalidade.

- Relacionamento com comunidades vulneráveis: a indústria automotiva pretende intensificar suas ações/doações para fazer com que essas pessoas um dia possam se transformar em consumidores dos seus produtos?

- O consumidor passará a exigir das empresas reparação mais ágil e transparente após denúncias de erros de conduta? Como ocorreu recentemente, por exemplo, com o Dieselgate da Volkswagen? O marketing negativo pode influenciar nas métricas ESG das companhias?

Governança

- Como enfrentar as questões de igualdade de gênero quando grande parte da mão-de-obra profissional disponível para atividades da cadeia automotiva é formada por homens [ex: engenheiros e administradores, que geralmente ocupam os cargos de liderança]?

- Como as empresas vão posicionar suas estratégias globais a partir das novas regulamentações mais restritivas ao consumo de produtos que causam impactos à sociedade e ao ecossistema?

- Seria mais efetivo para as empresas determinarem em seus contratos sociais metas ambiciosas, e cumprir esse compromisso, em vez de ir ao mercado financeiro em busca de linhas de crédito mais atraentes? A atitude espontânea, nesse caso, não criaria uma espécie de cadastro positivo das empresas?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL