O ABC das vacinas

Um guia básico de imunização, para você garantir a proteção de toda a família contra inúmeras doenças

Cristina Almeida Colaboração para VivaBem

Principais ferramentas para combater doenças infecciosas, as vacinas são uma das intervenções médicas com o maior impacto na saúde pública. Aqui no Brasil, em 2023, elas completarão 50 anos como protagonistas de um dos programas mais bem-sucedidos do mundo, o PNI (Programa Nacional de Imunizações).

Dirigida à população em geral, essa iniciativa oferece, gratuitamente, 20 vacinas capazes de prevenir doenças graves, inclusive alguns tipos de câncer. Apesar disso, tem-se observado uma queda na cobertura vacinal. Entre os fatores que explicam esse fenômeno estão preocupações com a segurança dos imunizantes e a falsa percepção de que já não existe o risco de contrair certas doenças que eles previnem.

Para acabar de vez com a hesitação em se vacinar, esclarecer dúvidas e ajudar você a tomar a melhor decisão para proteger toda a sua família —e outras pessoas ao seu redor—,VivaBem preparou uma cartilha com 50 páginas. Nosso guia básico ajuda a conhecer melhor o que é um imunizante, como ele é produzido, as vacinas indicadas para todas as idades e fases da vida, seus benefícios e riscos (que são mínimos perto das complicações que as doenças podem gerar, é bom deixar claro).

Vacina ou imunizante

Conhecida por esses dois nomes, a substância é considerada um imunobiológico que ajuda o sistema de defesa do corpo —um conjunto de células, tecidos e órgãos que trabalham juntos— a reconhecer e proteger seu organismo de ataques de vários agentes causadores de doenças, como vírus (que geram gripe e covid-19, por exemplo) e bactérias (que provocam tétano, difteria, coqueluche etc.).

Explicando de forma simplificada, podemos dizer que as vacinas simulam no seu corpo a invasão de um agente causador de doenças. É como um treinamento de guerra. O imunizante "apresenta" o inimigo para seu organismo e faz com que o sistema imune aprenda a combater o invasor. Então, caso algum dia você entre em contato com esse vírus ou bactéria, já sabe como se proteger dele e não ficará doente (ou terá um quadro mais leve).

Importante saber que essa proteção não é apenas individual. Ela também preserva as pessoas que não receberam a vacina —a chamada imunidade coletiva ou de rebanho. Quando grande parte da população recebe um imunizante, o vírus ou bactéria não encontra quem infectar e não consegue se espalhar tanto. Uma proteção indireta contra determinada doença.

Nascidas para serem seguras

Assim como os medicamentos, os imunizantes são desenvolvidos a partir de estudos científicos prévios sobre determinada doença. No primeiro momento, chamado de fase pré-clínica, os cientistas testam o possível imunizante em animais para avaliar a sua segurança e o seu potencial de prevenir enfermidades.

Quando essas práticas são bem-sucedidas e há resposta imunológica satisfatória, parte-se para novas fases —1, 2 e 3— agora em humanos, que são conhecidas como testes clínicos. O objetivo deles é avançar na observação de eficácia e segurança da vacina.

A cada etapa de sucesso, eleva-se o número de voluntários participantes, divididos em grupos de pessoas de diferentes regiões e países. No passado, essas etapas duravam anos. Com o avanço tecnológico, agora podem levar alguns meses, como aconteceu com as vacinas contra a covid-19.

Ao fim das pesquisas, o imunizante ainda deverá provar às autoridades sanitárias que, de fato, é efetivo e seguro. Caso atenda a todos os critérios das agências reguladoras, como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), será aprovado para uso na população. A partir daí, a aplicação da vacina é permanentemente monitorada.

Vacinas podem ser feitas por meio de diferentes técnicas de produção

  • 1

    ATENUADAS

    Têm como ingrediente o micróbio vivo, mas enfraquecido (atenuado). Ao simular uma infecção natural, promovem resposta imunológica duradoura. Uma de suas limitações é que pessoas com determinadas condições de saúde (como transplantados) devem consultar seus médicos antes de vacinar-se.

  • 2

    INATIVADAS

    Utilizam a versão morta do microrganismo causador da doença. Geralmente não produzem proteção tão forte quanto as atenuadas, daí a necessidade de duas ou mais doses.

  • 3

    RNA MENSAGEIRO

    Faz uso de proteínas do agente patológico para desencadear a resposta imune. Possui como vantagem menor tempo de fabricação. Não contém a forma viva do vírus, nem risco de causar a doença na pessoa vacinada.

  • 4

    VETORES VIRAIS

    Utilizam a versão modificada de um vírus diferente do causador da doença que visa imunizar. O microrganismo funciona como um transporte de informação genética, que desencadeia uma resposta protetora contra a doença.

Razões para se vacinar

Imunizar-se ou não? Eis uma questão que merece resposta imediata porque, no ranking das intervenções de maior impacto na saúde pública do século 20, as vacinas ostentam o primeiro lugar. Para você ter uma ideia, na década de 1980, o sarampo era a segunda doença infecciosa que mais matava crianças no Brasil.

A partir do estabelecimento do PNI, essa e outras enfermidades graves como a varíola, a poliomielite, a rubéola congênita e o tétano neonatal praticamente desapareceram.

Na dúvida, tenha isso em mente: o que nunca desaparece são os micro-organismos causadores dessas doenças; a maioria é contagiosa, mas elas podem e devem ser prevenidas com vacinas acessíveis por meio do PNI e disponíveis nas UBS (Unidades Básicas de Saúde) de todo o Brasil. E há vacinas para todas as faixas etárias: desde o nascimento, inclusive para bebês prematuros, até a idade adulta e avançada —em "A Cartilha da Vacinação - VivaBem", você confere uma tabela com os imunizantes que é preciso tomar em cada idade.

Algumas entidades médicas como a SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) e a Febrasgo (Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia) possuem suas próprias recomendações de imunizantes que não integram a lista do PNI e que você pode conhecer nos sites dessas instituições.

Doenças que podem ser evitadas com vacinas

Gestantes e idosos

Durante a gestação e após os 60 anos, entre as mudanças que ocorrem no organismo destacam-se as alterações nas funções imunológicas. Mais suscetíveis a infecções, grávidas podem comprometer a saúde de seus bebês ao ficarem doentes. Embora algumas vacinas sejam contraindicadas nesse período, a gestação não é considerada um impedimento absoluto para imunizações.

Já entre os idosos observa-se o declínio progressivo da função imunológica com o avançar da idade, o que os médicos chamam de imunossenescência. A condição torna esse grupo mais suscetível a infecções, doenças autoimunes e câncer. Além disso, há redução da resposta a agentes nocivos à saúde e às vacinas —e doenças inativas podem reaparecer. Um exemplo é o herpes-zóster, relacionado à reativação do vírus da catapora.

Estar com a carteira de vacinação em dia protege não só o adulto maduro, mas também sua família e a comunidade: medida simples que salva vidas.

Contraindicações e efeitos colaterais

Graças à vacinação, a poliomielite está erradicada desde 1994; e, em 2024, celebraremos 120 anos da primeira campanha vacinal em massa no país para o controle da varíola, que se tornou a primeira doença na história da humanidade a desaparecer.

Paralelamente a isso, as evidências científicas continuam confirmando que o risco de ter essas e outras enfermidades é maior do que o risco de ser imunizado.

Assim, é raro que uma vacina tenha contraindicação. E, na maioria das vezes, ela se refere a alergias a algum componente do imunizante ou evento adverso após prévia imunização, o que também não é considerado comum.

Além disso, boa parte das contraindicações é temporária. Isso significa que uma vez superada a condição que não permitia a imunização, a vacina poderá ser aplicada. São exemplos gestantes que não podem ser vacinadas com vacinas de vírus vivo durante a gravidez ou até enquanto durar a amamentação. O mesmo se aplica a pessoas com quadros de imunossupressão grave decorrentes de doenças ou uso de medicamentos.

Como qualquer outro imunizante ou medicamento, as vacinas não são isentas de riscos. Portanto, podem ocorrer efeitos colaterais e adversos após a vacinação. Nem todas as pessoas manifestarão essa resposta e, na maioria das vezes, os efeitos colaterais se limitam a dor e calor no local da injeção, além de inchaço —que passam após alguns dias.

No caso das vacinas contra a covid-19 podem ser observadas manifestações semelhantes às de uma gripe comum, ou seja, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, calafrio, febre e náusea.

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