PUBLICIDADE

Topo

"Foi um milagre": o drama de crianças internadas em UTI após covid-19

Maria Clara com a família em recuperação no hospital  - Arquivo Pessoal
Maria Clara com a família em recuperação no hospital Imagem: Arquivo Pessoal

Wanderley Preite Sobrinho

De Viva Bem, em São Paulo

21/06/2021 04h00

Maria Clara, uma garota com Síndrome de Down, tinha 11 anos em novembro do ano passado quando foi infectada pelo novo coronavírus junto com toda a família na cidade de Doutor Camargo, a 463 km de Curitiba. Enquanto seus pais se recuperavam, ela precisou ser levada às pressas para o hospital, onde ficou intubada por 30 dias. Ainda com dificuldade para respirar, ela continua em recuperação quatro meses depois de ter alta.

Entre os meses de março e abril deste ano, 23.411 crianças foram internadas por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), com confirmação ou suspeita de covid-19, segundo dados do Sivep-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe) avaliados pela plataforma Info Tracker, da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e da USP (Universidade de São Paulo).

Apesar desse aumento nas internações, o médico Carlos Levischi, especialista em medicina pulmonar do Hospital Albert Einstein, explica que há "uma predileção do vírus por pacientes idosos, com menor incidência em crianças". Em caso de infecção, os sintomas em menores de idade também é mais leve.

O que percebo é que a transmissão da covid em crianças acontece muito mais no ambiente familiar, e menos no escolar, onde a rotina de proteção é muito rígida."
Carlos Levischi, especialista em medicina pulmonar

O UOL conversou com a mãe de Maria Clara e com os pais de outras duas crianças que ficaram entre a vida e a morte depois de contraírem covid-19:

Maria Clara, 11 anos

Maria Clara - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Após deixar intubação, Maria Clara faz fisioterapia
Imagem: Arquivo Pessoal

Maria Clara e os pais foram infectados ao mesmo tempo depois que a filha mais velha do casal contraiu o vírus no trabalho. Enquanto todos se recuperavam dos sintomas, o estado de saúde da garota piorou no quinto dia de infecção. O jeito foi correr para a Santa Casa de Maringá, cidade vizinha.

"Uma tomografia mostrou que ela estava com mais de 50% do pulmão comprometido e precisou ser intubada", conta a mãe da criança, a advogada Adriana Vieira Gonzaga, 46. "Foram 68 dias de internação, 55 na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e 30 dias intubada."

Nos primeiros 17 dias, Maria Clara precisou ficar totalmente isolada, sedada, sem a companhia dos pais.

"Foi muito sofrimento, uma angústia. Um medo de perder ela a qualquer momento", recorda-se Adriana. "A gente ficava em casa angustiado aguardando uma ligação, e era sempre a mesma coisa: de manhã você recebe uma boa notícia, à noite vem outra ruim."

Ela passou por uma cirurgia para retirar uma secreção que não deixava o pulmão expandir. Ela sofreu risco real [de morte], foi um milagre."
Adriana Vieira Gonzaga, mãe da Maria Clara

Apesar da alta em 8 de fevereiro, a menina ainda se recupera das sequelas. Ela perdeu 50% do cabelo e o movimento das pernas após o vírus afetar o sistema nervoso central. Diariamente ela passa por fisioterapia pulmonar e motora e só dorme com uma máscara que ajuda a expandir o pulmão.

"A Síndrome de Down não enquadra a pessoa como grupo de risco", segundo a médica geneticista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Dafne Horovitz. O problema são as comorbidades que podem estar associadas a ela, como problemas imunológicos que trazem risco de infecções respiratórias.

As pessoas não levam a covid muito sério até passar por uma situação grave. É preciso entender que não dá para achar que é uma simples gripe. Pode ser grave e tem que cuidar, especialmente quando for uma criança especial como a minha."
Adriana Vieira Gonzaga, mãe da Maria Clara

Ricardo, 13 anos

Ricardo - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Maíra Recchia segura a mão do filho, Ricardo, internado após 50% do pulmão comprometido
Imagem: Arquivo Pessoal

Filho de pais separados, Ricardo, de 13 anos, passou um tempo na companhia do pai antes de voltar para casa da mãe, já doente. Segundo ela, a advogada Maíra Recchia, 39, os primeiros sintomas apareceram no último dia 23 de maio, um domingo. No dia seguinte, ele brincou o dia todo e assistiu aula.

"Mas à noite ele teve uma febre muito alta", conta Maíra. "Após a confirmação do teste de covid, receitaram xarope, antibiótico e disseram que em criança nessa idade os sintomas são leves. Em dois, três dias ele estaria melhor, mas na quarta-feira ele cansou na hora de comer."

O médico pediu uma tomografia e identificou 15% de comprometimento pulmonar de Ricardo, que não tem comorbidades. O garoto mal conseguiu tomar banho, tamanha falta de ar. Maíra, então, correu com o menino para o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ele foi internado. Na segunda-feira, a tomografia indicou comprometimento pulmonar de 50%.

"Foi um pânico. Ele não reagia", conta. Ricardo ficou oito dias internado usando máscara de oxigênio para expandir o pulmão. "Até no rim deu alteração."

Eu chorava sozinha no banheiro. Depois voltava pro quarto para tentar dar força. Perdi quatro quilos e até hoje tenho pesadelos. Um dia uma enfermeira me colocou no colo de tanto que eu chorava."
Maíra Recchia, mãe do Ricardo

Para a mãe, o garoto, ainda em recuperação, só foi salvo porque pôde contar com os cuidados de um hospital de alto padrão.

"Meu filho só está vivo porque foi pro Einstein, eu tenho essa clareza. Infelizmente quase ninguém tem essa condição", diz ela.

Letícia, 2 anos

letícia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Então com 2 anos, Letícia acabou internada após complicações pós-covid
Imagem: Arquivo Pessoal

Então com dois anos de idade, a menina Letícia sofreu de complicações pós-covid. Ela e a família foram contaminadas em julho do ano passado, todos com sintomas leves.

"Mas com a Letícia a internação aconteceu dois meses depois, em setembro", conta o pai da menina, o servidor público João Paulo de Fáveri, 40. "Um dia, ela apresentou febre muito alta. Buscamos serviço médico achando que era amigdalite, mas os remédios não baixavam a febre."

"No segundo dia, apareceram outros sintomas: manchas na pele, dores no abdômen", diz o pai. "O médico pediu exames para investigar se Letícia tinha contraído uma síndrome rara que vem acometendo crianças que tiveram covid-19, a MIS-C (Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica).

O diagnostico foi certeiro, e a orientação foi internar na UTI.

"Essa síndrome é condição consequente à uma reação inflamatória e imunológica desencadeada pela covid, acontecendo depois da infecção pelo SARS-COV-2, geralmente duas a quatro semanas", calcula o médico pediatra do Hospital Anchieta de Brasília, Daniel Raylander. Trata-se uma reação exagerada do sistema imunológico que afeta diversos órgãos saudáveis.

Letícia —que não tem comorbidade— ficou oito dias internada, cinco na UTI. O tratamento foi por imunoglobulina humana, uma medicação intravenosa feita com células de defesa.

Foi um grande susto. O diagnóstico saiu no meu aniversário... Foi um choque para família. Tivemos medo de que algo pior pudesse acontecer a nossa filha diante de um quadro grave provocado por uma síndrome rara."
João Paulo de Fáveri, pai da Letícia

Recuperada, Letícia não ficou com sequelas. Por um mês, fez tratamento para evitar risco de trombose. Quando refez alguns exames "verificou-se que já estava tudo bem", diz o Fáveri.

"Os pais devem ficar alertas à febre, dor de garganta, mancha na pele, vermelhidão ocular, lesões na boca, descamação de mãos e pés, diarreia, dor abdominal, vômitos, sonolência e desmaio", recomenda o médico.

Como é o tratamento?

Quando uma criança tem algum sintoma gripal, porém, Levischi, do Einstein, aconselha os pais a considerarem a possibilidade covid-19, já que o mundo atravessa uma pandemia. Quando a internação é inevitável, os cuidados também mudam.

"Os adultos ficam sozinhos, mas a criança tem a companhia do pai ou da mãe. A gente tenta fazer uso de unidade infantil específica, com especialistas acostumados com crianças", diz. "De resto, a gente estabelece terapêutica parecida com adulto porque funciona."