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Paola Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caiu de bumbum e está com dor? Será que o osso trincou e você não sabe?

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

23/09/2021 04h00

Você caiu de bumbum e passou a sentir dores para trabalhar ou simplesmente sentar para assistir a um filme? A dor está piorando e incomoda quando você tosse, espirra e até quando vai ao banheiro? Então, vou tentar esclarecer aqui alguns pontos para você que convive com dores e pode não saber, mas lesionou a região.

Entenda os pequenos osso do bumbum: o sacro e o cóccix

O sacro é um osso achatado maior que o cóccix, de formato triangular, que fica abaixo da última vértebra lombar. Já o cóccix fica logo abaixo do sacro e representa a pontinha da coluna —parece um rabinho quando se olha a coluna. Essas estruturas têm a função de suportar o peso e estabilizar o tronco, com papel-chave para que você consiga se sentar, se manter em pé e caminhar.

Trincar e deslocar esses ossos gera dor?

Tanto a fratura no sacro quanto no cóccix pode ser subdiagnosticada e não tratada. Para se ter ideia, cerca de 60% das fraturas sacrais passam despercebidas no atendimento do paciente. O quadro clínico é inespecífico, com dor lombar baixa ou sacrococcígea, que geralmente piora no movimento.

É comum as pessoas caírem ou sofrerem algum acidente e, apenas após anos, descobrirem que houve fratura, depois de muito tempo convivendo com dor crônica, disfunções sexuais e sintomas que nem imaginaria estarem relacionados ao episódio.

As fraturas do sacro compreendem a apenas 1% de todas as fraturas da coluna. Frequentemente, ocorre em acidentes automobilísticos e por queda de maior altura. Por isso, estão associadas a lesões neurológicas e fraturas em outras áreas de quadril e da coluna lombar.

Essas lesões podem levar a alterações neurológicas nos membros inferiores e disfunções urinárias, fecais e sexuais, dependendo da localização e nível da fratura.

Já a fratura de cóccix geralmente acontece no impacto ou queda sobre o bumbum. Trincar e fraturar o cóccix pode provocar dores e afetar muito a qualidade de vida, por essa área estar relacionada a ligamentos do assoalho pélvico —ânus, vagina etc.— o que também pode levar a complicações.

O papel do amortecimento do bumbum: os glúteos e o tecido adiposo da região cumprem um papel de proteção. Basta fazer uma analogia com os airbags de um carro, que amortecem o impacto durante uma colisão. O glúteo faz sua vez, em especial, em traumas como cair sobre superfícies muito rígidas e de alto impacto durante uma prática esportiva.

Conheça situações e condições associadas a um maior risco de fraturas

- IDADE A queixa de dor na coluna baixa e pélvica é frequente na população idosa, sendo a dor lombar e nas nádegas um sintoma presente. A fratura pode ser decorrente de uma carga normal ou repetitiva aplicada a um osso desmineralizado ou osteoporótico. Mulheres são mais afetadas pela fratura sacral por insuficiência, devido à perda de massa óssea na menopausa.

- OSTEOARTROSE, OSTEOMIELITE, ARTRITE REUMATOIDE E NEOPLASIA Essas condições clínicas predispõem à osteoporose, assim como a imobilidade —por exemplo, quem está acamado por muito tempo, utiliza corticoesteróides etc. Nesses casos, assim como em idosas, há um risco de fratura decorrente de uma carga aplicada a um osso desmineralizado e frágil.

- SER CORREDOR DE LONGA DISTÂNCIA Nesse caso, a lesão se relaciona a uma sobrecarga que leva a uma fratura por estresse. Essas lesões estão intimamente relacionadas às fraturas por insuficiência sacral. Os jovens e pessoas ativas representam a maior parte das pessoas com esse tipo de fratura. Os sintomas incluem dores nas costas e no bumbum, que levam ao afastamento da atividade esportiva.

3 dicas para prevenir esse tipo de fratura

  1. Se você pratica uma atividade física que sobrecarrega a parte inferior da coluna, vale a pena rever a forma que tem feito os movimentos e como você tem trabalhado a mobilidade da região lombossacral e pélvica. Um trabalho de fortalecimento preventivo deve ser feito com seu treinador, fisioterapeuta e personal

  2. Se você está sedentário e vai começar a treinar, pratique exercícios sob supervisão. Exercícios que focam no controle e estabilização do core irão ajudar a ter uma coluna mais saudável em todos os seus segmentos. Exercícios mal feitos podem, sim, levar a lesões. Os movimentos errados geram tensão ou estiramento inadequado dos músculos e ligamentos ao redor da pelve

  3. Reveja sua postura! A consciência do corpo e do movimento deve ser mantida tanto quando estiver sentado ou em pé. Lembre-se que quem sustentará em grande parte uma postura mais correta serão os músculos saudáveis. Se sua rotina exige que permaneça sentado, faça pausas e intervalos para se levantar e redistribuir a pressão no bumbum. Evite permanecer curvado ou sem apoio na lombar, pois isso gera sobrecarga na coluna lombar e sacral, se refletindo como uma carga extra nos ossos de apoio do bumbum.

Se você caiu sentado em cima do bumbum e acredita ter machucado a região, a melhor coisa é buscar atendimento médico para investigar e evitar o subdiagnóstico e a automedicação. O conteúdo desse texto tem caráter informativo e não substitui o trabalho e avaliação de uma equipe médica.

*Colaboração Dra. Renata Luri Fisioterapeuta Doutorada pela UNIFESP, sócia da Clínica La Posture e Dra. Juliana Satake, Fisioterapeuta especializada pela Unicamp

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL