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Paola Machado

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Intolerância alimentar: saiba o que é, quais os tipos comuns e o que fazer

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

09/09/2021 04h00

O termo "hipersensibilidade alimentar" refere-se a alergias e intolerâncias alimentares. Uma intolerância alimentar não é o mesmo que uma alergia alimentar, embora alguns dos sintomas possam ser semelhantes.

Na verdade, pode ser difícil distinguir entre alergias e intolerâncias alimentares, por isso é importante falar com seu médico se você suspeitar que pode ter uma intolerância.

De acordo com a Cleveland Clinic, uma alergia é o seu sistema imunológico reagindo e lutando contra um ingrediente que ele confunde como prejudicial.

Já a intolerância alimentar é muito mais comum —estima-se que até 20% da população mundial pode ter intolerância alimentar. A intolerância alimentar é uma resposta do seu sistema digestório quando você come ou bebe algo que seu corpo não consegue quebrar. Embora a intolerância alimentar possa ser desconfortável, não é potencialmente fatal como as alergia alimentar.

Quando você tem intolerância alimentar, os sintomas geralmente começam algumas horas depois de consumir o alimento ao qual você é intolerante. Ainda assim, os sintomas podem demorar até 48 horas e durar horas ou mesmo dias. Se você costuma consumir alimentos aos quais é intolerante, pode ser difícil correlacionar os sintomas a um alimento específico.

Embora os sintomas de intolerâncias alimentares variem, eles geralmente envolvem o sistema digestório, a pele e o sistema respiratório.

Os sintomas comuns incluem diarreia, inchaço, erupções cutâneas, dores de cabeça, náusea, fadiga, dor abdominal, refluxo e coriza. As intolerâncias alimentares são comumente diagnosticadas por dietas de eliminação projetadas especificamente para restringir alimentos agressivos ou por meio de outros métodos de teste.

As dietas de eliminação removem os alimentos mais comumente associados a intolerâncias por um período de tempo até que os sintomas diminuam. Os alimentos são então reintroduzidos um de cada vez, enquanto os sintomas são monitorados.

Esse tipo de dieta ajuda as pessoas a identificar quais alimentos estão causando os sintomas.

Sintomas comuns

  • Inchaço e gases: Excesso de inchaço e gases estão entre os sintomas mais comuns de intolerância alimentar. Depois de uma grande refeição, rica em fibras, um pouco de inchaço e gases são comuns. Se a intolerância à lactose é a causa do seu inchaço, você também pode sentir dor de estômago ou diarreia algumas horas depois de comer ou beber produtos lácteos, como leite, iogurte, queijo e sorvete.
  • Dor de estômago: Normalmente acompanhada por muito inchaço e gases, a dor de estômago é outro sinal típico de intolerância. A dor de estômago varia de pessoa para pessoa, mas quando é causada por uma intolerância, geralmente é como uma cãibra no abdome médio e inferior.
  • Diarreia: Quando seu corpo não consegue digerir ou quebrar certos alimentos, a diarreia é um efeito colateral típico e é por isso que é um sinal comum que você pode ser sensível a um alimento que comeu recentemente. Assim, se você está tendo diarreia com frequência depois de comer, pode ter comprometido a função digestiva de certos alimentos, como a lactose ou glúten.
  • Dor de cabeça: De acordo com a Cleveland Clinic, as dores de cabeça são outro sinal de intolerância alimentar e, em casos graves, as intolerâncias alimentares podem até provocar enxaquecas. Os anticorpos da imunoglobulina G (IgG) são o tipo mais comum de anticorpos no sangue. Quando você ingere algo que seu corpo vê como uma ameaça, ele libera esses anticorpos na corrente sanguínea.
  • Fadiga: Embora uma hipoglicemia possa resultar em fadiga, às vezes uma sensação de cansaço e visão turva pode ser um sinal de intolerância alimentar. Quando você consome alimentos que seu corpo não consegue processar, suas glândulas supra-renais produzem cortisol (um hormônio do estresse) para ajudar a combater e reduzir a irritação e a inflamação, podendo causar fadiga se suas glândulas supra-renais produzirem regularmente cortisol para combater a resposta inflamatória do corpo.

Tipos mais comuns de intolerâncias alimentares

  • Lactose

Estima-se que 65% da população mundial tenha problemas para digerir a lactose. A lactose é um açúcar encontrado no leite e nos laticínios. É decomposta no corpo por uma enzima chamada lactase, necessária para que a lactose seja devidamente digerida e absorvida. A intolerância à lactose é causada por uma falta de enzimas lactase, que causa uma incapacidade de digerir a lactose e resulta em sintomas digestivos.

A intolerância à lactose (um tipo de açúcar encontrado em produtos lácteos) é o tipo mais comum de intolerância. Com intolerância à lactose, dependendo do seu nível de sensibilidade, você pode precisar eliminar ou reduzir a ingestão de alimentos que contenham lactose.

Os sintomas de intolerância à lactose incluem dor abdominal, inchaço, diarreia, gases e náusea. A intolerância pode ser diagnosticada de várias maneiras, incluindo um teste de tolerância à lactose, teste de respiração à lactose ou teste de pH das fezes.

Se você acha que pode ter intolerância à lactose, evite laticínios como leite e sorvete. Queijos envelhecidos e produtos fermentados como o kefir podem ser mais fáceis de tolerar por aqueles com intolerância à lactose, pois contêm menos lactose do que outros produtos lácteos.

Embora os laticínios sejam carregados de vitaminas e minerais, você ainda pode colher esses benefícios evitando a lactose, escolhendo alternativas ao leite fortificado, como o leite de amêndoa.

  • Glúten

O glúten é uma proteína encontrada no trigo, centeio e cevada e nos derivados desses grãos. Várias condições estão relacionadas ao glúten, incluindo doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca e alergia ao trigo. Embora a intolerância ao glúten não seja exatamente o mesmo que a doença celíaca (uma reação imunológica ao glúten —doença autoimune), seu sistema digestório ainda pode sentir inflamação e inquietação quando você consome alimentos com glúten.

Quando as pessoas com doença celíaca são expostas ao glúten, o sistema imunológico ataca o intestino delgado e pode causar sérios danos ao sistema digestivo. Já a alergia ao glúten é frequentemente confundida com a doença celíaca devido aos seus sintomas semelhantes.

Eles diferem no fato de que as alergias ao glúten geram um anticorpo produtor de alergia às proteínas do trigo, enquanto a doença celíaca é causada por uma reação imunológica anormal ao glúten em particular.

No entanto, muitas pessoas apresentam sintomas desagradáveis, mesmo quando o teste é negativo para doença celíaca ou alergia ao glúten, aí é chamada de sensibilidade ao glúten não celíaca, uma forma mais branda de intolerância ao glúten que tem impacto estimado em 0,5 a 13% da população.

Os sintomas de sensibilidade ao glúten não celíaco são semelhantes aos da doença celíaca e incluem inchaço e/ou dor abdominal, diarreia ou prisão de ventre, dores de cabeça, fadiga, dor nas articulações, erupção cutânea, depressão ou ansiedade, anemia.

Tanto a doença celíaca quanto a sensibilidade ao glúten não celíaco são tratadas com uma dieta sem glúten.

  • Cafeína

A cafeína é um produto amargo encontrado em uma ampla variedade de bebidas, incluindo café, refrigerante, chá e bebidas energéticas. É um estimulante, o que significa que reduz a fadiga e aumenta o estado de alerta quando consumido, bloqueando os receptores de adenosina, um neurotransmissor que regula o ciclo sono-vigília e causa sonolência.

A maioria dos adultos pode consumir até 400 mg de cafeína por dia, sem efeitos colaterais —quantidade de cafeína em cerca de quatro xícaras pequenas de café. No entanto, algumas pessoas são mais sensíveis à cafeína e têm reações mesmo depois de consumir uma pequena quantidade.

Essa hipersensibilidade à cafeína tem sido associada à genética, bem como a uma diminuição da capacidade de metabolizar e excretar cafeína.

A sensibilidade à cafeína é diferente de uma alergia à cafeína, que envolve o sistema imunológico. Pessoas com hipersensibilidade à cafeína podem apresentar os seguintes sintomas depois de consumir até mesmo uma pequena quantidade de cafeína, como taquicardia, ansiedade, irritabilidade, insônia, nervosismo e inquietação.

Pessoas com sensibilidade à cafeína devem minimizar sua ingestão evitando alimentos e bebidas que contenham cafeína, incluindo café, refrigerante, bebidas energéticas, chá e chocolate.

A frutose, ovo, aspartame, corantes e muito mais podem causar intolerância. Aos poucos vou abordando aqui para vocês.

O que fazer se você acha que tem intolerância alimentar

As próximas etapas dependem dos sintomas. Se os seus sintomas são extremamente descontáveis ou atrapalham a realização de suas tarefas diárias, é melhor consultar o seu médico o mais rápido possível. Algumas dicas que podem te ajudar:

  • Faça uma lista dos alimentos que você comeu antes de sentir os sintomas.
  • Em seguida, retire um desses alimentos por cerca de duas semanas e monitore seus sintomas.
  • Se ainda tiver sintomas ao evitar esse alimento, é provável que ele não esteja causando o problema.
  • No final das duas semanas, adicione aquele alimento ou grupo de alimentos de volta à sua alimentação e tente retirar um alimento diferente, para ver se isso está causando o problema.

Se você notar que seus sintomas diminuíram ao longo do período de duas semanas, gradualmente adicione esse alimento de volta à sua dieta e preste atenção ao seu corpo. Se você sentir que os sintomas voltam, você deve retirar os alimentos e consultar um nutricionista que pode ajudá-lo a elaborar um plano alimentar seguro.

Referências:

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