PUBLICIDADE

Topo

Paola Machado

"Faça o que quiser': discurso pode ser ruim a quem não sabe cuidar da saúde

corrida, exercício, hábitos saudáveis - iStock
corrida, exercício, hábitos saudáveis Imagem: iStock
Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

13/01/2021 04h00

Esta cada vez mais comum o discurso do "Coma de tudo o que quiser, está tudo bem", "Você não precisa emagrecer", "Você tem que fazer o que bem entender"... Enfim, acredito que cada pessoa tem sua capacidade de decisão e do rumo da sua própria vida, mas eu, Paola, como profissional da saúde, preciso ser responsável com essas colocações, pois um discurso do tipo pode fazer com que alguém que se alimente mal por falta de informação ou esteja com doenças associadas ao sobrepeso siga com hábitos prejudiciais à saúde, afinal, a pessoa "recebeu aval" de um especialista ou influenciador, que a aconselhou a "fazer ou comer o que quiser".

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 62% dos brasileiros estão acima do peso e 26% são obesos. A má alimentação é o principal fator para o ganho de peso. Então, como dizer para uma população em que a maioria não sabe se alimentar bem que ser saudável é poder comer o que quiser? As pessoas precisam de orientação para conseguir adotar novos hábitos, pois já "comem e fazem o que querem" e isso só tem afetado a saúde geral.

Há tempos estamos em um processo constante da ciência, da prática profissional, dos estudos que mostram a importância da implementação de hábitos saudáveis, do equilíbrio e da busca pelo entendimento dos alimentos que são positivos para o nosso organismo. Esses pontos mostram um caminho muito positivo e promissor de uma rotina saudável —agora na pandemia, mais ainda. Como profissionais, temos que entender que não se generaliza o individual, precisamos de muito cuidado ao falar com o público sobre temas que devem ser individualizados na prática clínica.

Na atual realidade que vivemos, acendeu a importância de investirmos na nossa saúde, de dar atenção a ela. Só que isso está cada vez mais difícil com um monte de gente na internet levantando a bandeira do "faça o que quiser da sua vida". Você pode até fazer, por decisão sua, mas os profissionais da saúde, eticamente, não deveriam se posicionar dessa forma, já que influenciamos tantas pessoas.

Já parou para pensar o quanto é prejudicial para alguém que está com um problema de saúde receber o aval de um profissional da saúde que diz que ela pode fazer ou comer o que quiser, quando der vontade? Esse discurso vindo de um especialista pode fazer com que a pessoa que não tem os cuidados da saúde como prioridade siga com hábitos ruins"

Os sinais e sintomas da pessoa não saudável, que tem obesidade, por exemplo, podem não aparecer em exames bioquímicos ou em exames de imagem, mas podem dar o "ar da graça" com uma falta de concentração, um cansaço que parece que não acaba, uma desregulação do sistema digestório, falta de motivação, alterações no humor, problemas para dormir ou mesmo alguns resfriados repentinos —afinal, não se alimentar direito e não ter um estilo de vida saudável faz com que você comprometa o funcionamento do seu sistema imunológico.

Tem receitas? Não. Protocolos? Também não. Tem caminhos iniciais que devem seguir trajetórias diferentes de acordo com as necessidades de cada um.

Dessa forma, um estilo de vida saudável pode ajudar você a se sentir melhor. É muito fácil fazer algumas pequenas mudanças que podem guiá-lo na direção de um bem-estar aprimorado e, depois de fazer uma mudança, esse sucesso pode motivá-lo a continuar a fazer mudanças mais positivas.

Se você perguntar para diferentes pessoas o que é ser saudável, provavelmente terá diferentes respostas, pois não existe uma única forma de ser saudável. Um estilo de vida saudável significa simplesmente fazer coisas que te tragam bem-estar físico e mental e, somado a esses benefícios, faça você feliz. Por isso, a mudança de hábitos deve acontecer de forma gradativa, encontrando a sua identidade dentro desse processo, com atividades e alimentos saudáveis que tragam prazer.

Adote hábitos saudáveis

Fazer mudanças para melhorar sua saúde pode trazer benefícios para seu corpo e mente. Assim, hábitos saudáveis podem reduzir o risco de várias doenças. E muitas vezes esses hábitos podem ser adotados com mudanças simples, mas que muita gente desconhece e por isso precisa de orientação. Veja:

  • Em um estudo, adultos que seguiram uma dieta americana padrão (rica em frutas e vegetais) por 8 semanas tiveram um risco reduzido de doenças cardiovasculares. Em outro estudo de 2020, os pesquisadores descobriram que cada aumento de 66 gramas na ingestão diária de frutas e vegetais estava associado a um risco 25% menor de desenvolver diabetes tipo 2 --assim trocar alguns grãos refinados por grãos integrais também reduz o risco de doenças.
  • Em um estudo observacional com quase 200.000 adultos, aqueles que comeram mais grãos integrais tiveram uma taxa 29% menor de diabetes tipo 2 do que aqueles que comeram menos.
  • Uma revisão de 45 estudos concluiu que comer 90 gramas (ou três porções de 30 gramas) de grãos integrais por dia reduziu o risco de doenças cardiovasculares em 22%, doenças coronárias em 19% e câncer em 15%.
  • Em um estudo de 2020, os pesquisadores rastrearam mais de 44.000 adultos. Aqueles que fizeram 11 minutos de atividade física moderada a vigorosa por dia tiveram um risco menor de morte em comparação com aqueles que se exercitaram apenas nessa intensidade por 2 minutos. Essa comparação foi verdadeira mesmo que as pessoas se sentassem por 8,5 horas todos os dias

Além do mais, os hábitos saudáveis estão relacionados com uma vida mais longa. Se, aos 50 anos, você nunca fumou, mantém um peso saudável, é regularmente ativo, segue uma dieta saudável e mantém o consumo moderado de álcool, você pode viver até 14 anos a mais em comparação a quem adotou hábitos ruins. Fazer até mesmo algumas dessas mudanças pode prolongar sua vida.

*Curiosidade: Você sabia que hábitos saudáveis são positivos para o meio ambiente? Alimentos ultraprocessados são aqueles que contêm grãos refinados e aditivos para alterar a textura, o sabor ou a cor. A fabricação de alimentos ultraprocessados contribui para as emissões de gases de efeito estufa, escassez de água, diminuição da biodiversidade, resíduos de plástico e desmatamento.

Substituir viagens curtas de carro por bicicletas também pode reduzir a quantidade de dióxido de carbono liberado na atmosfera. Um estudo de 2017 em Estocolmo descobriu que, se os motoristas que gastavam meia hora para ir e voltar do trabalho usassem bicicleta em vez de carro, isso poderia salvar 449 anos de vida anualmente, devido à redução das emissões tóxicas dos veículos. Essas estimativas não são simplesmente sonhos. O programa de compartilhamento de bicicletas de Barcelona reduz as emissões de dióxido de carbono em cerca de 10.000 toneladas por ano.

Ser saudável acaba resultando em diversas ações positivas para seu organismo, para os outros e para o ambiente. Por isso, a questão do "faça de tudo" acaba sendo contraditória com as questões que muitas vezes quem defende esse discurso aborda, como o cuidado com o meio ambiente, dentre outros temas. Ser saudável é mais um ponto que começamos com a organização da nossa "casa" e da nossa vida, para poder trazer benefícios para nós, para os que amamos e para a população. E, no caso da saúde, para "organizar a própria casa", as pessoas precisam ser bem orientadas pelos profissionais que estudaram para isso e não apenas ouvir que elas podem fazer o que quiser.

Referências:

Zheng Ju-Sheng, Sharp Stephen J, Imamura Fumiaki, Chowdhury Rajiv, Gundersen Thomas E, Steur Marinka et al. Association of plasma biomarkers of fruit and vegetable intake with incident type 2 diabetes: EPIC-InterAct case-cohort study in eight European countries BMJ 2020; 370 :m2194

Hu Yang, Ding Ming, Sampson Laura, Willett Walter C, Manson JoAnn E, Wang Molin et al. Intake of whole grain foods and risk of type 2 diabetes: results from three prospective cohort studies BMJ 2020; 370 :m2206

Aune D, Keum N, Giovannucci E, Fadnes LT, Boffetta P, Greenwood DC, Tonstad S, Vatten LJ, Riboli E, Norat T. Whole grain consumption and risk of cardiovascular disease, cancer, and all cause and cause specific mortality: systematic review and dose-response meta-analysis of prospective studies. BMJ. 2016 Jun 14;353:i2716. doi: 10.1136/bmj.i2716. PMID: 27301975; PMCID: PMC4908315.

Ekelund U, Tarp J, Fagerland MW, et al Joint associations of accelerometer-measured physical activity and sedentary time with all-cause mortality: a harmonised meta-analysis in more than 44 000 middle-aged and older individuals British Journal of Sports Medicine 2020;54:1499-1506.

Rueda DR, Nazelle A, Tainio M, et al. The health risks and benefits of cycling in urban environments compared with car use: health impact assessment study. BMJ. 2011; 343: d4521.

Fardet A, Rock E. Ultra-Processed Foods and Food System Sustainability: What Are the Links? Sustainability 2020, 12(15), 6280; https://doi.org/10.3390/su12156280

Johansson C, Lövenheim B, Schantz P, et al. Impacts on air pollution and health by changing commuting from car to bicycle. Science of The Total Environment. Volumes 584-585, 2017, Pages 55-63, ISSN 0048-9697. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2017.01.145.

Grabow M, Hahn M, Whited M. Bicycling's Economic and Health Impacts in Wisconsin. Disponível em: https://www.railstotrails.org/resourcehandler.ashx?id=4579


Tackling Climate Change through Livestock. A global assessment of emissions and mitigation opportunities. Disponível em: http://www.fao.org/3/i3437e/i3437e00.htm

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL