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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ansiedade, estresse e pressão arterial: você conhece essa relação?

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Imagem: laflor/iStock
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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista de VivaBem

29/04/2022 04h00

Quem já enfrentou uma crise de ansiedade deve ter experimentado uma sensação terrível de morte iminente com mal-estar, taquicardia, sudorese, falta de ar, dor no peito, tremores, formigamentos, tontura, náusea, vômitos e desmaio, entre outros sintomas. Não é incomum que a pessoa procure um hospital ou pronto-socorro achando que está tendo um infarto, que pode ter algumas manifestações bem-parecidas.

Essas sensações e sintomas da crise de ansiedade são consequência da liberação de uma série de hormônios e moduladores como cortisol, adrenalina, epinefrina, noraepinefrina e dopamina (só para citar alguns), em resposta a uma situação interpretada pelo nosso corpo como uma ameaça.

A reação avassaladora é herança do nosso processo evolutivo. Diante de um risco ou de um perigo (como dar de cara um grande animal predador), o sistema nervoso dos nossos antepassados comandava uma resposta, às custas de mediadores químicos, que envolvia acelerar os batimentos cardíacos e aumentar a pressão arterial para que mais sangue chegasse aos músculos, o que ajudaria em uma situação de "luta ou fuga" diante de um potencial inimigo. Aliás, não são apenas humanos que exibem a reação —ela está presente em boa parte dos animais.

O tempo passou, os perigos são outros, mas o mecanismo básico de resposta ficou o mesmo. Para algumas pessoas um pensamento, uma memória ou uma simples sensação física pode ser "lida" pelo cérebro como uma ameaça e desencadear essa cascata.

Estresse crônico e hipertensão

Quem é que nunca ouviu a história que ficar nervoso pode aumentar a pressão do sangue? Pode mesmo! E esse fenômeno não acontece apenas agudamente, como nas crises de pânico. Uma situação de longo prazo de exposição à ansiedade e ao estresse tem efeito semelhante e acaba elevando os níveis desses mediadores químicos em nosso corpo, o que pode contribuir para um quadro crônico de hipertensão arterial, uma doença que atinge hoje quase 30% dos brasileiros, muitos dos quais desconhecem que enfrentam a condição, já que ela pode passar décadas "silenciosa", sem se manifestar claramente.

No último 26 de abril, dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão, muito se falou sobre a importância de se endereçar alguns dos fatores de risco associados à hipertensão arterial, como tabagismo, obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada e, claro, o estresse.

A ligação entre ansiedade, estresse e pressão arterial reforça a importância de se discutir mais claramente os impactos que a saúde mental tem não apenas em nosso bem-estar e qualidade de vida, mas também no risco de doenças muito comuns em nosso meio, como hipertensão, problemas cardíacos e acidente vascular cerebral ("derrames").

O Brasil, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), é um dos países com índices mais elevados de ansiedade e depressão no mundo. Durante a pandemia, a situação por aqui pode ter se agravado ainda mais.

11% têm depressão

O último Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) reforçou a importância da atenção à saúde mental. No conjunto das 27 capitais investigadas (incluindo o DF), a frequência do diagnóstico médico de depressão foi de 11,3%, maior entre as mulheres (14,7%) do que entre os homens (7,3%).

O mesmo inquérito também apontou a importância dos cuidados com a pressão arterial. O diagnóstico de hipertensão arterial estava presente em 26,3% dos entrevistados —27,1% das mulheres e 25,4% dos homens. Em ambos os sexos, a frequência aumentou com a idade e diminuiu com o nível de escolaridade.

É importante lembrar que a adoção de hábitos de vida mais saudáveis, com atividade física regular, alimentação adequada, qualidade do sono, controle do peso e manejo de estresse podem ajudar tanto na saúde mental como na prevenção de sobrepeso, obesidade, diabetes, taxas elevadas de colesterol e hipertensão, condições que trazem um risco muito maior de problemas cardíacos e vasculares.

Mudanças no estilo de vida, avaliações e controles médicos periódicos e o eventual uso de medicações podem fazer com que a ansiedade, depressão e hipertensão tenham um impacto muito menor na vida dos brasileiros do que elas têm hoje.

Garantir que informações e estratégias de prevenção e tratamento alcancem todas as faixas da população, principalmente as mais vulneráveis, e que os serviços de saúde consigam dar conta de toda a demanda reprimida, são medidas essenciais para que a gente consiga diminuir esses indicadores tão preocupantes de hipertensão e de saúde mental no Brasil de hoje.